Deixar tudo para ter tudo

Tinha tudo para um final feliz o encontro do homem com Jesus, relatado por S. Marcos neste domingo. Mas não teve. Tratava-se de alguém de vida religiosa irrepreensível e materialmente desafogada, com saúde e bem conceituado, que sente necessidade de algo mais e diferente para se realizar e sentir feliz.“Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna ?” À questão tão genuína e importante, responde Jesus com um olhar profundo, meigo e cheio de afeição: “Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem esegue-me”. E diz o Evangelho que o homem se retirou triste por ter muitos bens.Cristo não nos chama a uma vida de sacrifícios e despojamentos, nem nos quer árvores secas, sem ramos e frutos, mas homens e mulheres livres, de coração livre e desapegado de coisas, riquezas e até de pessoas, capazes de acolherem o convite a deixar tudo para se ter tudo.O homem rico do Evangelho de hoje não descobriu que era a partilha e não a pobreza, a liberdade e não a renúncia, a que Jesus o chamava, porque, no prato da sua balança, o que possuía pesava mais que tudo. E retirou-se pesaroso. P. Fausto in Diálogo nº. 1883 (Domingo XXVIII do Tempo Comum – Ano...

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“Criou-os homem e mulher”

Apesar de numerosas e pacíficas, algumas catequeses de Jesus foram tensas e polémicas. Não estranhemos, pois, que, hoje, alguns fariseus se tenham aproximado de Jesus “para o porem à prova”, sobre um assunto consensual e juridicamente fundamentado em lei dos tempos de Moisés: “Pode ou não um homem repudiar a sua mulher?”Pressentindo as suas intenções, Jesus não foge à questão e passa a lembrar-lhes o sonho de Deus, já expresso no Livro do Génesis: “Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne… Portanto, não separe o homem o que Deus uniu”.O sonho de Deus são os dois que se procuram, os dois que se encontram, os dois que se amam e que se tornam uma só carne. E crescem juntos, lado a lado, com dificuldades e com alegrias, assumindo as diferenças como riqueza na realização de um projeto de comunhão crescente de duas liberdades que não se demitem nem desistem. Assim sendo, na realização deste sonho, não há para o homem ou para a mulher lugar ao divórcio.Não sabemos se a catequese convenceu os fariseus, mas foi uma oportunidade óptima para Jesus expôr o sonho de felicidade, que Deus oferece a quem é chamado à aventura da Comunhão Conjugal. P. Fausto in Diálogo nº. 1882 (Domingo XXVII do Tempo Comum – Ano...

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“Porque ele não anda connosco”

Os discípulos andam “numa de queixinhas” uns com os outros, e desta vez é João a queixar-se a Jesus de um homem que realizava coisas extraordinárias, inclusivé exorcismos, mas, por não ser do grupo, devia ser admoestado e impedido. A resposta do Mestre não se fez esperar: “Não o proibais… quem não é contra nós é por nós”.Enquanto que para Jesus o importante é acudir às necessidades das pessoas, porque o bem é sempre bem, vindo de onde vier, para os apóstolos o mais importante é pertencer ao “grupo dos doze”. A tentação dos discípulos, porém, de levantar barreiras, erguer cercas e defender o grupo, também é de hoje. Não repitamos os seus erros.Quantos no mundo, pelo bem que fazem, seguem a Cristo sem o saber! Não pertencem ao Grupo, é verdade, não são homens da Igreja, nem mesmo são baptizados, mas, pelo esforço em tornar o mundo melhor, fazem acontecer o Reino de Deus e seguem Cristo, que nos deixa o mandamento do Amor, como sinal de pertença ao Reino, sem barreiras nem fronteiras. P. Fausto in Diálogo nº.1881 (Domingo XXVI do Tempo Comum – Ano...

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“Servo de todos”

Numa das últimas caminhadas com os seus melhores amigos, Jesus confidencia algo vital: “O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens e eles vão matá-lo”. Os discípulos, porém, em vez de acolherem e partilharem este drama, falam de carreiras, e, completamente desinteressados da partilha dramática de Jesus, discutem sobre “qual deles era o maior”.Qualquer um de nós, além de triste e desiludido, ficaria ofendido com tal situação. Mas Jesus não se ofende, não acusa, não censura os discípulos e sabe, pela reacção de Pedro, no domingo passado, que os discípulos ainda não estão maduros para aceitar e compreender o sofrimento e a morte do Messias, nem a regra de ouro do Mestre: “Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos”.Apesar de tudo, Jesus não omite nem se cala nesta matéria, porque não quer seguidores incautos, desprevenidos e carreiristas, mas discípulos generosos, humildes e conscientes, sempre dispostos a aprender como as crianças, e a resistir à tentação das luzes da ribalta ou do púlpito mais alto para serem mais vistos e melhor ouvidos. P. Fausto in Diálogo nº. 1880 (Domingo XXV do Tempo Comum – Ano...

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Quem sou Eu para ti ?

Na escola de Jesus todos os momentos são importantes, mesmo o tempo das longas e suadas caminhadas, como a de hoje em terras de Cesareia de Filipe. Sem guião mas sempre com objectivos claros, Jesus não perde tempo e, em jeito de sondagem, pergunta aos discípulos: “Quem dizem os homens que Eu sou?”.Com a resposta bela, mas não satisfatória, vem outra pergunta: “Mas vós, quem dizeis que Eu sou?” Pedro, que não andara em nenhuma escola rabínica, nem seriam profundos os seus conhecimentos teológicos, responde com desassombro: “Tu és o Messias”.Jesus não quer, em verdade, que os discipulos se contentem com aquilo que ouvem dizer, não pede definições abstractas ou fórmulas aprendidas de cor, mas o relato de uma verdadeira experiência. E foi o que aconteceu com Pedro.Que resposta daríamos a Jesus, se nos perguntasse: quem sou Eu para ti? Os livros e catecismos são importantes, mas a resposta é de carácter pessoal, resultante de uma verdadeira experiência de encontro com o Senhor, sem a qual poderemos saber muitas coisas de Jesus, mas não seremos verdadeiramente Seus discipulos. P. Fausto in Diálogo nº. 1879 (Domingo XXIV do Tempo Comum – Ano...

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“Descansai um pouco”

“Nem tinham tempo para comer”! Era assim a agenda diária de Jesus. Daí o convite aos apóstolos: “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”.Mas face à multidão que O seguia por todo o lado, sem mesmo o deixar descansar, “encheu-se de compaixão por aquelas pessoas, porque eram como ovelhas sem pastor”.Assim era Jesus, sem eira nem beira, nem tempo para comer e descansar, mas sempre com Tempo para estar com o Pai, acontecesse o que acontecesse. Aos apóstolos, porém, aconselha a que considerem o descanso como parte da missão. E assim deve ser.Também o Concílio Vaticano II nos diz numa das suas Constituições: “depois de haver aplicado a um trabalho o seu tempo e as suas forças, de uma maneira conscienciosa, todos devem gozar de um tempo de repouso e de descanso suficiente para se dedicarem à vida familiar, cultural, social e religiosa”.Aproveitemos, então, o tempo de férias para descansar, ler, conviver e rezar, a fim de enfrentarmos com coragem e ânimo redobrado os desafios do próximo ano. P. Fausto in Diálogo nº. 1878 (Domingo XVI do tempo Comum – Ano B) (do Diálogo...

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Jesus não desiste…

Sempre houve pessoas extraordinárias, carismáticas, reconhecidamente proféticas. A profecia de cada baptizado, porém, é a chamada profecia do quotidiano, exercida na família, na profissão, no contexto em que se vive, e não depende do grau de instrução ou da posição social, mas sim de um coração generoso, de uma consciência reta e de um grande amor à verdade.Os habitantes de Nazaré, embora reconhecendo a sabedoria e o discurso de Jesus e os Seus feitos admiráveis, não Lhe dão valor, incapazes de ultrapassar os preconceitos familiares e a humildade profissional que os calos das mãos revelavam. É que o Messias não podia vir de uma família em tudo igual às demais, conhecida por todos, e apresentar-se com mãos de carpinteiro. “E ficavam perplexos a seu respeito”.O que para nós é graça leva os nazarenos à rejeição, que, honestamente, Jesus não esperava dos seus conterrâneos, mas nem isso O demoveu de curar alguns doentes, apesar de estranhar “a falta de fé daquela gente”.“E percorria as aldeias dos arredores, ensinando”. Assim termina o Evangelho deste XIV Domingo do Tempo Comum, segundo S. Marcos, a dizer-nos que Jesus, o Filho de Deus, apesar dos revezes, não castiga, não se cansa de anunciar a Boa Nova, não desiste de nós e não alimenta rancores de ninguém. P. Fausto in Diálogo nº. 1876 (Domingo XIV do Tempo Comum – Ano...

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“Levanta-te”

Após a noite tormentosa no mar da Galileia, uma multidão esperava Jesus no outro lado da margem, ávida de uma palavra, de um toque ou de um gesto salvador. Jesus deteve-se, então, algum tempo mas não muito, porque Jairo, chefe da sinagoga, apresenta-se aflito, porque a filha estava a morrer, e pede que o acompanhe. E Jesus não se demorou.Ainda a caminho, chega a notícia da morte da menina e o consequente reconhecimento de que nada mais havia a fazer. Jesus, porém, não Se conforma e diz a Jairo “Não temas; basta que tenhas fé”, como que a dizer-lhe: calma; confia; é Deus quem tem sempre a última palavra. E retomou o caminho.Chegado a casa do chefe da sinagoga, Jesus depara-se com um ambiente de grande alvoroço, que em nada ajuda o silêncio recolhido que a morte deveria provocar, e não se contém. Manda sair toda a gente, toma consigo o pai e a mãe da menina, entra no seu quarto e pega-lhe na mão, indiferente à impureza legal que o toque na morta provocava, e diz “Levanta-te”. E a menina levantou-se e recomeçou a caminhar.Em todos os momentos, por mais dolorosos que sejam, o mesmo Jesus continua a dizer-nos “Levanta-te”, isto é, ressuscita, tem coragem, não desistas, confia em Deus… Bem necessário se torna ouvirmos palavras como estas, que tornam luminosos e felizes os dias que nos parecem dolorosos e sombrios. P. Fausto in Diálogo nº.1875 (13º Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Porquê tanto medo ?

Ao ouvirmos neste Domingo a Palavra de Deus coramos de vergonha porque, por vezes como os apóstolos, quando a vida corre mal, também julgamos que o Mestre dorme, está longe ou distraído.Guerras em tantos cantos do mundo, e Deus dorme. Situações de criminalidade mais ou menos violenta e explicita, e Deus dorme. Atentados contra a vida e desrespeito pela natureza, e Deus dorme. O mundo geme de tanta dor e grita de tantas injustiças e ódios, e Deus parece dormir. Que se passa ó Deus?“Porque estais tão assustados, ainda não tendes fé?” pergunta Jesus aos apóstolos, que, de cabeça perdida, lutam para evitar o naufrágio. Àqueles, e a nós também, Jesus parece dizer que a única coisa que vence o medo é a fé. Apesar de tudo, apesar da sua fé imperfeita, os apóstolos dão-nos uma grande lição ao manifestarem verdadeira confiança em Jesus, na súplica que Lhe fazem.É nos momentos difíceis, nas crises da vida, que precisamos mais de Cristo, certos de que nunca nos abandona, ainda que às vezes nos pareça longínquo e em silêncio. P. Fausto in Diálogo nº.1874 (Domingo XII do Tempo Comum – Ano...

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Semear. Semear. Semear

Hoje, Jesus, para falar do Reino de Deus, conta-nos duas histórias de semeadores, sementes e sementeiras. Para nós Deus é o semeador, sempre com a melhor das sementes, mas o diabo também faz a sua sementeira, fazendo aparecer outras coisas não previstas nem queridas.Que concluir ?Como diz o Evangelho, se tu semeaste boa semente, quer durmas quer vigies, de noite e de dia, a semente germina e cresce. Tudo isto, porque a força está na semente e não no semeador, mesmo que tenha trabalhado bem a terra.A segunda parábola, que realça a desproporção entre a minúscula semente de mostarda e a árvore em que, a seu tempo, se pode transformar, mostra que o Reino de Deus germina e cresce pela força secreta das pequenas coisas boas e quotidianas da vida, traduzidas em valores como verdade, justiça, honestidade, atenção e cuidado pelos outros, respeito pela natureza…Que fazer ?As parábolas de Jesus convidam-nos a selecionar as sementes e a semear com tenacidade e teimosa confiança. O mandato é para semear. Mesmo sem ver resultados. A colheita outros a farão. Não nos queixemos. Não esperemos, porém, que um qualquer seguro cubra a falta de resultados de que sejamos responsáveis. P. Fausto in Diálogo nº. 1873 (Domingo XI do Tempo Comum – Ano...

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