Hoje acompanhamos Jesus ao Templo de Jerusalém, a poucos dias da celebração da Páscoa. O ambiente era de feira, com vacas, cabras, ovelhas e pombas, por todo o lado. O negócio fazia-se entre vozes barulhentas, que regateavam o melhor preço dos animais a oferecer em sacrifício. E os cambistas aproveitavam-se diligentemente do fluxo turístico da diáspora religiosa. O Templo construído por Salomão, orgulho de todo o judeu, mais parecia uma feira de gado e praça financeira, que casa de oração. A ira de Jesus não se fez justamente esperar, com palavras enérgicas e atitudes de autoridade, a raiar a violência. “Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo”, perguntam. A resposta surge rápida, mas enigmática: “Destruí este templo e em três dias o levantarei”. Mesmo os discípulos, só mais tarde, depois da Ressurreição, descobríram que Jesus falava do templo do seu corpo. A atitude de Jesus, para muitos violenta e desproporcionada, é a demonstração vigorosa de que a Sua relação com Deus é de comunhão plena, confiança total e abandono filial e reprovação clara dos projectos de vida, sujeitos às leis de mercado económico, de religião ou de moda. Jesus tem o coração arrumado e a consciência tranquila. Sabe que Deus é de todos, ama todos e não se deixa corromper por ninguém. Por esta causa está disposto a morrer. Com dignidade. P. Fausto in Diálogo 1599 (Domingo III da Quaresma – Ano...
Learn MoreNo domingo passado, acompanhámos Jesus ao deserto e ainda não esquecemos o estímulo para vencermos o medo da “austeridade quaresmal” e o convite ao silêncio para ouvirmos melhor a voz de Deus. Sabendo que nem todos podemos viver da mesma maneira a quaresma, cada um deve encontrar o seu modo de a viver. Este domingo faz-nos dar um passo mais na caminhada de preparação para a Páscoa e de renovação da nossa vida cristã, com o Evangelho da Transfiguração a dar o tom a toda a celebração. A cena constitui uma manifestação de tal modo jubilosa de Deus, que S. Pedro, anos mais tarde, evocava ainda a força dessa experiência pessoal e intensa (2° Ped. 1,16ss), que o fez esquecer os deveres diários e desejar que esse momento de inesquecível felicidade se prolongasse indefinidamente: “como é bom estarmos aqui!” E as nuvens não se fizeram esperar. A descida impunha-se. Pedro ainda procurava mais as consolações de Deus que o Deus de todas as consolacões. Há momentos belos na vida e também os há de tristezas, dúvidas e perplexidades, mas em todos o Pai está presente, porque, a subir ou a descer, o caminho faz-se com Deus, sempre por perto. Contemplar Jesus transfigurado no início da quaresma é desafio a um esforço maior para escutar a Palavra e ordenar o coração, em processo de transfiguração permanente a que nos desafia a Páscoa. P. Fausto in Diálogo 1589 (II Domingo da Quaresma – Ano...
Learn MoreEstamos na quaresma. Muitos, porém, ainda não se deram conta. A ressaca dos dias de carnaval, acrescida neste ano ao ruído do “Dia dos Namorados”, não motiva ao rito penitencial das cinzas, com que tradicionalmente se inicia este tempo fecundo, e também alegre, que Deus nos concede como graça, para prepararmos, “na alegria do coração purificado”, a celebração das festas pascais. Parecendo triste, cinzento e pesado, a Quaresma é um tempo alegre, libertador e feliz, que, vivido à maneira de retiro espiritual e orientado pela Palavra de Deus, deve ser marcado pela “oração mais intensa e pela caridade mais diligente”, sem esquecer, de modo algum, a participação na Eucaristia dominical e celebração do sacramento da Reconciliação. O Evangelho de hoje leva-nos ao deserto, onde Cristo permaneceu largos dias, jejuou, foi tentado e se preparou para a vida pública. As nossas ocupações habituais, não permitindo fazermos o mesmo na Quaresma, não dispensam do esforço de organizarmos momentos de “deserto” pessoal, que permitam o encontro libertador de cada um com Deus, com os outros e consigo mesmo, sempre inspirados no exemplo acabado de Jesus, que partilha connosco o segredo para vencermos as tentações de que a vida é tão fértil. P. Fausto in Diálogo 1597 (I Domingo da Quaresma – Ano...
Learn MoreA liturgia deste domingo mantém a temática do anterior: Jesus em face do sofrimento, qualquer que seja o seu tipo e gravidade. Seja de homem ou mulher, judeu ou pagão. Hoje, o nosso amigo Marcos, no Evangelho que seguimos, mostra-nos a atitude de Jesus para com um doente especial, um leproso, que, além de doente, tinha de carregar permanentemente a cruz da humilhação social e do ostracismo imposto pela Lei. A avaliar pela sua súplica, trata-se de um homem humilde, delicado, cheio de confiança e consciente da sua dignidade: “Se quiseres, podes curar-me“. E Jesus, sem se fazer rogado, toca-o e responde-lhe “Quero: fica limpo“. A mesma bondade e compreensão, a mesma solicitude e atenção! Diante de quem sofre, física ou moralmente, a reacção pronta de Jesus é ajudar, aliviar, curar. E a nossa não pode ser outra. Não temos o dom de curar, mas sempre podemos ajudar, com pequenos serviços, com uma presença discreta e amiga, às vezes silenciosa, mas sempre atenta. A voz dos pobres, doentes e esquecidos… chega também hoje aos nossos ouvidos, como outrora, ao coração de Jesus, a voz do leproso: “se quiseres, podes curar-me“. E basta, às vezes, uma palavra e um sorriso! P. Fausto in Diálogo 1596 (Domingo VI do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreNa vida há de tudo, momentos de euforia e cansaço, de nostalgia e sonho, de desejos e realizações… de fraquezas e ilusões. Também os há de doenças. Há de tudo. Só que a memória curta e a resistência limitada dificultam a leitura da vida em chave de realismo pragmático e de esperança sadia e cristã. Ora, nada melhor que dar lugar à Palavra de Deus, para apreendermos o valor das dificuldades e do sofrimento, que, queiramos ou não, afecta a todos. No livro de Job, vemos um personagem feliz, abastado e de bem com a vida, repentinamente reduzido à miséria, à solidão e incompreensão, mesmo pelos de casa. Atingido por tanta desgraça e no meio dos seus lamentos angustiados, Job exibe a única bandeira que lhe resta, a da esperança! Impotente, mas não vencido. Sem nada nem ninguém. Apenas agarrado à única coisa que pode fazer um homem morrer de pé. Job entendera o sentido e o valor do sofrimento e como Deus, mesmo em silêncio, se mantivera atento. E Jesus, como se comporta face aos que sofrem? No Evangelho, vemos como é significativa a Sua atenção aos doentes e, a passagem que hoje lemos, sem ser exaustiva, relata-nos um dia do Seu trabalho. Entre o ensino, a pregação e a oração, ainda há tempo, nunca regateado, para os que sofrem, porque, atendê-los, parece dizer Jesus, é uma das formas mais verdadeiras e convincentes de pregar o Evangelho. E deixou-nos o exemplo. P. Fausto in Diálogo 1595 (Domingo V do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreHabitualmente as nossas assembleias dominicais proporcionam uma bela experiência religiosa, porque enriquecidas por cristãos, alguns vindos de bem longe. Aqui, cada qual, vindo do seu pequeno/grande mundo, sente mais viva a sua pertença ao Povo de Deus que se reune, como outrora os judeus na Sinagoga, para escutar a Palavra e cantar os Salmos. Como judeu cumpridor, Jesus não se dispensava do culto sinagogal, tomando a palavra, sempre que solicitado. E hoje O encontramos em Cafarnaúm, a ensinar. Ninguém perdia uma palavra. A surpresa era geral! Habituados à casuística dos escribas e ao discurso falacioso dos doutores da lei, bem distinto da linguagem viva e compreensivel de Jesus, interrogavam-se: “Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade…!” Dois mil anos passados, a mesma Palavra é em cada domingo proclamada nas nossas assembleias, mas não provoca o mesmo impacto, nem a mesma surpresa, nem a mesma sedução… E a culpa não é só dos padres…! Faltará no nosso projecto pessoal e familiar tempo para a Palavra de Deus e disponibilidade para a formação permanente, e, nessa medida, Deus se vai remetendo ao espaço que cada um Lhe reserva, conforme a sua medida e interesses, ou, quando muito, para o recôndito envergonhado dos nossos templos. P. Fausto in Diálogo 1594 (IV Domingo do tempo Comum – Ano...
Learn MoreDepois de termos assistido no domingo passado ao encontro feliz de dois discípulos de João Baptista com o “Cordeiro de Deus”, em pleno deserto da Judeia, Jesus não perde tempo, e, agora, nas margens do mar da Galileia, não se cansa de dizer ao que vem, correndo o risco de se repetir: “Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”. A linguagem vigorosa e provocante, semelhante à do Seu Precursor, parece dizer que Deus esgotara a paciência, mas não. Deus não esgotou, nem há-de jamais esgotar a Sua paciência connosco, porque nos ama infinitamente e a todos oferece a salvação. O alerta, porém, que vem de João Baptista e confirmado por Jesus, mantém-se pleno de actualidade. A Igreja, ao proclamar hoje este Evangelho, continua a mesma pregação, insistindo sempre na necessidade de conversão pessoal e comunitária como condição de entrada no Reino. Deus por nós já fez tudo, resta-nos fazer o “trabalho de casa”. E só a cada um cabe fazê-lo. Daí o apelo: “Convertei-vos”. P. Fausto in Diálogo 1593 (III Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreDepois da festa da Epifania, eis-nos, de novo, no Tempo Comum, em que celebramos o Mistério de Cristo, no seu conjunto e plenitude, revestindo-se cada domingo de particular importância , como aliás nos outros períodos mais característicos do ano. E a iniciar este tempo, faz-nos muito bem o contacto com pessoas que levaram a sério o chamamento de Deus. São pessoas comuns, do Antigo e do Novo Testamento. E Deus continua hoje a chamar… “Falai, Senhor, que o vosso servo escuta”, respondia Samuel à voz misteriosa que o interpelava insistentemente na escuridão da noite. Também nós havemos, ao longo deste tempo, de cultivar a atenção e disponibilidade para escutar Deus, que, especialmente em cada domingo, não se cansa de dirigir a palavra a todos e cada um de nós. De pouco nos vale, aliás, se nos limitarmos à mera escuta da palavra que celebramos , sem a levarmos à nossa prática diária. No Evangelho admiramos o exemplo dos primeiros discípulos, que seguem “o Cordeiro de Deus”, apresentado por João Baptista. Movê-los-á a curiosidade, sem dúvida, mas o que se passou transformou-os, e, de curiosos, depressa se tornaram testemunhas de uma experiência íntima, que Jesus lhes tinha proporcionado. Essa mesma experiência é que faz também de nós cada vez mais discípulos missionários. P. Fausto in Diálogo 1592 (II Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreEstamos ainda a celebrar o Natal. Acordados pelos Anjos, fomos com os pastores ao presépio e adorámos o Menino Jesus, contemplado e acarinhado pelos pais, felizes e cheios de Deus. Começámos o ano com a celebração da maternidade divina de Nossa Senhora, e hoje somos surpreendidos pela curiosidade dos Magos, que procuravam saber a razão duma estrela muito bonita, que há muito os seduzia. É a solenidade da Epifania! Neste dia, de modo especial, a Igreja contempla a revelação de Jesus a todos os povos, representados na pessoa dos Magos que vieram de longe, guiados por uma estrela. É a festa da vocação missionária da Igreja e da universalidade da salvação! Na verdade, “os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo Corpo e beneficiam da mesma promessa”, como escreve S. Paulo. Diante de afirmação tão solene, quem pode ainda estabelecer barreiras ou pensar em privilégios? O tempo de Natal está a terminar. E pouco mais será que um tempo de magia e fantasia, aproveitado para puchar anualmente pelo comércio, se o nosso encontro com o Menino Jesus e os Seus Pais, no presépio, não nos fizer retomar o tempo comum do nosso quotidiano, por outro caminho, isto é, renovados e luminosos. É o desafio permanente que nos fazem os Magos. P. Fausto in Diálogo 1591 (Epifania do Senhor – Ano...
Learn MoreA festa da Sagrada Família, colocada no domingo a seguir ao Natal, pode passar-nos despercebida, como despercebida foi a apresentação do Menino no templo. Cumprindo a lei de Moisés, Maria e José “levaram o Menino a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor”, diz-nos o Evangelho de hoje. Sem passadeira vermelha, ninguém esperava este recém nascido de quarenta dias, envolto em pobres mas limpinhas fraldas, levado por um casal jovem, belo e feliz, de aspecto humilde e habituado ao trabalho. Não havia sacerdote por perto, nem mesmo levita a dar as boas vindas. Ninguém os aguardava! A clandestinidade desta família, porém, não passa despercebida a um ancião, que, atento à vida, apesar da sua provecta idade, vivia acalentando um sonho, que o Espírito Santo convertera em pressentimento de que “não morreria antes de ver o Messias do Senhor”. Estava no lugar certo e no tempo certo. Eis a Sagrada Família que vivia cada dia em Festa! Não tinha abundância de pão à mesa ou recursos financeiros disponíveis, mas a ternura, o respeito, o diálogo, o silêncio, a oração pessoal e famíliar… eram pão abundante a tornar rica, sagrada e feliz esta Família, com quem Deus amorosamente habitava. P. Fausto in Diálogo 1590 (Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José – Ano...
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