Sim/não ou não/Sim ?

    Há semanas que Jesus fala na Sua pregação em vinhas e trabalhos agrícolas, e hoje fá-lo, de novo, com os príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo. Sabemos que a relação das autoridades civis e religiosas com Jesus nunca foi amistosa, mas tal não O impede de se encontrar com elas, para proclamar, em todas as circunstâncias, a Boa Nova do Reino, que passa por esclarecer que trilha caminhos escorregadios não só quem vive na presunção de salvação sem merecimentos, mas também quem pensa que a salvação é mérito pessoal. Uns e outros vivem errados, porque a salvação é dom, puro dom de Deus, que recusa terminantemente o papel de senhor e patrão, que premeia os servis e castiga os desobedientes. Na Sua pregação, como no encontro de hoje com os príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo, Jesus não Se cansa de proclamar que Deus é Pai, ama-nos infinitamente e aponta para todos o amor filial como caminho de salvação. Tudo muda na vida se a nossa relação com Deus for filial, confiante, generosa e livre, sempre livre. Porque Deus sabe bem que somos frágeis, o que exalta hoje na parábola é o arrependimento e a conversão, porque a força do Seu amor e do Seu poder se revelam não quando castiga, mas quando perdoa. P. Fausto in Diálogo nº.1710 (XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Mãos ao trabalho!

  O que é afinal o Reino dos Céus? Há 3 semanas que Jesus fala do Reino dos Céus e para entendermos melhor o que é, Jesus fala hoje de um proprietário que precisa de gente para a vindima e sai a várias horas à procura de assalariados. Com os primeiros ajusta e com todos os demais, independentemente das horas de trabalho, promete recompensa. Na hora das contas todos receberam o mesmo. Injusto, dizem os primeiros. Então não se premeia o sacrifício do calor e a fadiga das horas de trabalho? A ninguém ficou a dever o proprietário, que merecia, no mínimo, de todos, um muito obrigado. Deus anunciado por Jesus Cristo é assim: Alguém que nos procura sem se cansar, desde a primeira hora do alvorecer até à noite, porque do que não gosta mesmo é de ver pessoas avessas ao trabalho. E na hora do pagamento começa sempre pelos últimos e dá-lhes o mesmo que aos primeiros. O Deus anunciado por Jesus Cristo não é um patrão, nem sequer o melhor dos patrões. E também não é contabilista. É completamente diferente, porque não segue as leis do mercado, nem a lógica da justiça, apenas porque é Bom e nos quer dar mais. Muito mais. Em excesso. É um Deus surpreendente. No princípio de ano apostólico, com tantas condicionantes como neste, haja quem aceite o desafio de trabalhar na vinha amada e guardada por Deus, que neste Evangelho se revela Camponês surpreendentemente Bom e Generoso. P. Fausto in Diálogo nº. 1709 (XXV Domingo do Tempo Comum – Ano A)...

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A Paciência de Deus

  Jesus continua a falar-nos de Deus, com recurso a uma linguagem que mesmo os da cidade entendem. E conta mais uma história do campo. Desta vez não é para acentuar a generosidade, que até nos parece excessiva, do semeador, mas para iluminar uma certa ideia de Deus, ainda bem enraizada na vida e no coração de muitos. Com efeito, a imagem de um Deus severo, duro, exigente… ainda persiste e está longe de ser erradicada do coração de muitos cristãos. Há, pois, necessidade imperiosa de “substituir” este Deus, e nada melhor que uma boa parábola, como a do agricultor deste domingo. “Um homem semeou boa semente no seu campo… quando o trigo cresceu e deu fruto, apareceu também o joio”. Queres que vamos arrancar o joio?, perguntam zelosamente os servos. “Não! Não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo”, responde o agricultor. Duas maneiras de agir: a de Deus, que vê o trigo e pacientemente respeita o processo de maturação, e a dos servos, que se fixam nas ervas daninhas, sem se importarem com os estragos do seu zelo. Para o Deus anunciado por Jesus Cristo, o trigo, ainda que seja pouco, vale mais que todo o joio da terra. Necessário se torna, então, aprender de Deus a paciência, que dá sempre tempo para crescer e amadurecer, guardando apenas para o final as contas da sementeira. P. Fausto in Diálogo nº. 1708 (XVI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Distraído ou Generoso ?

  Em sítio algum Jesus passa despercebido e cada vez tem menos tempo para estar só, e às vezes são verdadeiras multidões que se acotovelam para O ouvir. É o que acontece hoje, à beira-mar, segundo o Evangelho deste domingo. Muitos ouvem-nO com prazer, outros com reservas, e há mesmo quem não perca uma palavra à espera de motivos para O acusar. Jesus sabe tudo isto, e continua manso e humilde na Sua pregação. Sabe que não veio para fazer discursos agradáveis ou vender sonhos. Não tem agenda política ou religiosa. Veio para falar de Deus. E hoje fá-lo de modo muito criativo com palavras de sabor a campo. O centro da parábola não está nas condições do terreno em que caiu muita semente, mas no semeador que generosamente semeia, à esquerda e à direita, sem fazer contas aos gastos com a sementeira. Deus não é um semeador desleixado ou distraído, mas apenas generoso. Não semeia para ter e vender. E continua a semear à mão cheia. E não serão as pedras, os seixos, as silvas e os espinheiros que se vão amontoando ou crescendo desordenadamente no caminho da nossa vida, que O vão fazer desistir de continuar a semear, porque é o coração de cada homem o torrão de terra boa mais apto para dar vida às sementes de Deus. P. Fausto in Diálogo 1707 (XV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Na Escola do Mestre!

  Parece que as coisas não andam a correr muito bem a Jesus. Muito bem humanamente, claro! A sua pregação cria resistências e tem palavras que suscitam críticas à esquerda e à direita. Jesus, porém, ancorado sempre no Pai, cuja intimidade procura em todas as circunstâncias, experimenta uma tal paz e liberdade, que circunstância alguma o demove de anunciar a Boa Nova do Reino. Neste domingo vemo-LO assombrado ao verificar como Deus revela grandes coisas aos “pequeninos”, aos últimos da fila, aos que são capazes de ver e entender com o coração, e esconde propositadamente aos “sábios e inteligentes” o acesso a verdades profundas. Não é que Deus queira dispensar o serviço da inteligência, mas há coisas a que os auto-suficientes nunca poderão chegar… E isto faz Jesus suspirar de assombro e exultar de alegria. Aos mais frágeis, afadigados, sobrecarregados, aos mais “pequeninos”, Jesus não promete apenas auxílio nas dificuldades, mas convida-os hoje a entrarem na Sua escola, onde não se aprendem leis, doutrinas religiosas e filosóficas ou técnicas de vendas de sucessos e sonhos com facilidades e sorrisos, mas lições de vida e para a vida. Jesus é o Mestre consumado. Ser manso e humilde de coração, à Sua semelhança, não significa viver no conformismo e na passividade, mas cultivar generosamente a bondade, a simplicidade, a justiça… virtudes importantes na vida dos discípulos e tão necessárias na sociedade de hoje. P. Fausto in Diálogo nº. 1706 (XIV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Até um copo de água !

  Jesus, ao dizer no Evangelho deste domingo “quem ama o pai, a mãe, o filho ou a filha mais do que a Mim e quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim…”, parece que se excede. Não é o que pretende, mas temos de O levar a sério, ainda que sintamos algum desconforto pela fasquia alta das exigências da vida cristã, que nos podem levar a dar a própria vida. As palavras de Jesus, ainda que duras, quando descontextualizadas, podem assustar, mas o verdadeiro drama do homem não está no sofrimento, na cruz, ou no martírio, mas em não ter nada, não ter ninguém por quem valha a pena abraçar a cruz e dar a vida. Essa é que é a maior tragédia, porque faltam as razões de viver. Parecendo demasiado exigente e radical, a Palavra de Deus chama a atenção para a hospitalidade. Dar hospitalidade, abrir as portas, acolher, convidar, partilhar…, não podem apenas ficar no léxico das nossas memórias, mas temos de inventar maneira de manter viva esta virtude tão humana e tão cristã, apesar dos perigos da pandemia. Até porque sabemos que não ficará sem recompensa um simples copo de água fresca, dado com graça. P. Fausto in Diálogo 1705 (XIII Domingo do Tempo Comum- Ano...

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Não temais !

  Ao lermos o Evangelho deste domingo, até parece que Jesus se dirige directamente aos homens e mulheres do século XXI. É que, diante das exigências da vida cristã e das dificuldades, o cristão pode ter a tentação de se retirar, confinar, adaptar-se ao sofá, com a justificação compreensível, hoje do contágio pelo coronavírus e amanhã de qualquer outro problema. Como então aos apóstolos, também hoje o Senhor Jesus nos encoraja a não termos medo e diz-nos: não tenhais receio dos homens… não temais os que podem matar o corpo… não temais, valeis muito mais que os passarinhos… Sabemos, por experiência, que as dificuldades amedrontam, nos põem à defesa e até nos bloqueiam. Jesus compreende os nossos medos. Também os experimentou. Nunca deixou, porém, que O impedissem de cumprir em tudo a vontade do Pai, mesmo na hora da agonia ou no alto da cruz. Desanimar é duvidar da palavra do Senhor que nos assiste e nunca nos abandona. Temer… ou envergonhar-se de ser cristão é correr o risco de não termos, no fim da meta, quem, junto do Pai, nos reconheça como discípulos de Jesus Cristo. P. Fausto in Diálogo 1704 (XII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Encheu-se de compaixão”

  No Evangelho deste 11° Domingo do Tempo Comum, Jesus, “ao ver as multidões, encheu-se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”. E chamou 12 dos Seus discípulos e enviou-os em missão, com tarefas precisas. “Curar os enfermos, ressuscitar os mortos, sarar os leprosos, expulsar os demónios, dar sem esperar recompensa…” são tarefas exercidas não por doutores, mestres ou pastores, mas só por quem tem um coração compassivo. Com efeito, em todos os tempos, e no nosso também, há males incuráveis, há feridas crónicas, há situações inexplicáveis e dramáticas, há um cortejo sem fim de infortúnios, mas não há nada, absolutamente nada que não possa ser partilhado, mitigado, suavizado e aliviado. Foi essa a missão primeira que Jesus confiou aos discípulos e para a qual não valem as letras, a carteira recheada ou o brasão de família, mas o coração compassivo. Na história da Igreja continua actual o convite do Mestre dirigido a todos os baptizados. Não seremos todos missionários da mesma maneira, mas todos devemos participar na missão confiada por Jesus Cristo à Sua Igreja. Que faço eu neste sentido? Alimentar o medo, estimular a cultura do sofá contribuirá para a resposta que nos cabe dar? Rezar é bom, é muito bom e necessário para que aumente o número de sacerdotes e religiosos/as, mas não esgota a nossa responsabilidade de discípulos de Cristo na construção da comunidade cristã e na vivência hoje do Evangelho. P. Fausto in Diálogo 1703 (XI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Deus é Amor”

  Deus é Uno e Trino. Um só Deus em três Pessoas. Iguais e Distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Era assim que na minha catequese de infância se propunha o Mistério da Santíssima Trindade, em fórmula obrigatoriamente decorada. E por mais explicações, todos ficávamos com cara de termos percebido pouca coisa da matéria, mesmo com a ajuda da comparação habitual com a folha do trevo. Era Mistério, arrematava piedosa e pacientemente a Mestra. Passaram muitos anos, e com a luz de muitas páginas de boa doutrina, “Deus Uno e Trino” continua a ser o Mistério Fundamental da Fé. Não se podendo negar o caminho da razão para se chegar a Deus, o melhor e mais directo, segundo S. João, é o do coração, é o da experiência, porque “Deus é Amor”. Da cátedra pode vir um belo discurso sobre Deus e do púlpito um sermão bem inflamado, mas ninguém pode apresentar suficientemente Deus, sem amor. Assim fez Jesus a Nicodemos no Evangelho de hoje: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito…, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele”. E tudo isto, apenas e tão só, porque “Deus é Amor”. É esta certeza que dá à vida calor, beleza, poesia e sentido. P. Fausto in Diálogo 1702 (Santíssima Trindade – Ano...

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No quinquagésimo dia…

    Cinquenta dias depois da Páscoa aconteceu algo que muda radicalmente a vida dos Apóstolos. O processo de recuperação de cada um e de todos os discípulos, realizado por Jesus ao longo destas semanas, atinge agora a sua plenitude, pois, os mesmos que constituíam um grupo desiludido, amedrontado e barricado em casa, demonstram agora uma força, alegria, audácia e entusiasmo, que os faz passar aos olhos dos circunstantes como gente embriagada. De famílias humildes, sem qualificações académicas religiosas ou filosóficas, os apóstolos apenas podem exibir como credenciais o exercício honesto da profissão de pescadores. Mas não era isso que os movia, nem era disso que falavam. Movia-os uma força interior que não podiam conter e diziam-se portadores de uma Mensagem que, não sendo da sua autoria, não podiam calar. A alegria apesar dos castigos, a audácia apesar das proibições, a Fracção do Pão e a dos pães de uns com os outros, especialmente com os mais pobres, não passavam despercebidos a ninguém. Eram homens e mulheres felizes. Aquilo que sucedeu, cinquenta dias depois da Páscoa em Jerusalém, continua a suceder na Igreja, para que cada baptizado tenha a força e a coragem de sair do conforto do sofá, para se tornar no seu ambiente testemunha viva e alegre de Jesus Cristo. P. Fausto in Diálogo 1701 (Domingo de Pentecostes – Ano...

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