A última Palavra!

  Com o ano litúrgico a caminhar para o fim, são bem avisadas as palavras do Evangelho deste domingo, o XXXIII do Tempo Comum, ao dizer-nos que “dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra”. Não é ameaça, sintoma de impaciência ou sinal de arrependimento de Deus por nos ter criado, mas alerta oportuno, porque, como diz o povo, “quem nos avisa nosso amigo é”. Cada momento da história tem obstáculos e potencialidades, apresenta luzes e sombras, regista nascimentos e mortes. Em cada dia há um mundo que morre e outro que nasce, em processo mais dramático e doloroso pelos muros que se erguem, pelas trincheiras que se cavam, pelo desrespeito pela vida e dignidade do ser humano, pelo desleixo e abuso com que se “cuida” a casa comum, que é o nosso planeta, etc, etc. Há terramotos, inundações, tsunamis, fomes, pestes e outros acontecimentos trágicos, sim, mas também ódios que se alimentam, guerras que se promovem e injustiças que se fazem … num caldo de violência e de morte, de que somos responsáveis. No meio de tudo isto, porém, a última palavra é de Deus. Uma palavra de ternura e conforto que sustenta a nossa esperança, uma palavra reveladora de atenção permanente aos mais pequenos detalhes da nossa vida, porque nem um cabelo se perderá, se formos perseverantes. P. Fausto in Diálogo nº1675 (XXXIII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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E depois ?

  Para todos o tempo vai passando… e a morte também chega. E depois? O que “vê” para “além” quem não tem fé? Nada, uma parede de betão, um precipício sem luz nem fundo? O que resta? Apenas saudade efémera, própria de memórias curtas? Com a fé abre-se uma janela para o futuro, a vida ganha sentido e a existência não esbarra com uma parede, nem termina num precipício, mas num encontro, num encontro pessoal com Deus, que amorosamente nos aguarda com generosidade e sem ressentimentos. É o que há-de acontecer, se o caminho das Bem-aventuranças também fôr o nosso caminho, trilhado todos os dias, apesar das nossas fraquezas, dúvidas e hesitações. A eternidade não é, pois, coisa para rir ou troçar, como faziam os saduceus, mas para levar a sério. É segredo que também não abarco, mas sei que não é coisa de somar ou subtrair, nem resulta de méritos pessoais ou direitos de posse ou propriedade, mas de intensidade de amor de Deus e em Deus e de comunhão de uns com os outros. É isto a plenitude de vida. E é para esta plenitude que me ultrapassa, que sei que os batentes da porta da morte se abrem. Definitivamente. P. Fausto in Diálogo nº 1674 (XXXII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Queria ver Jesus…

  Jesus no seu caminho para Jerusalém passa por Jericó, onde O aguarda um verdadeiro banho de multidão. Todos querem ver e ouvir Jesus. No meio deles há um homem de pequena estatura, mas com um enorme coração. Era muito rico e desempenhava um cargo de topo na hierarquia dos cobradores de impostos. Chamava-se Zaqueu. Socialmente nem bem visto nem querido e religiosamente marginal, alimentava o desejo profundo de ver Jesus, mas a sua pequena estatura não o permitia. E ei-lo em cima de uma árvore para satisfazer o que não era só curiosidade, mas necessidade de encontrar alguém que lhe apontasse um sentido para a vida, o olhasse como homem e o respeitasse, apesar de não pertencer a qualquer elite religiosa ou social. E Jesus, ao passar, levanta os olhos, e com grande familiaridade e infinito respeito apenas diz “Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa”. “Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria”. E sem lugar a juízos, condenações, prédicas ou sermões, aconteceu a Festa, apenas a Festa, porque “Zaqueu também é filho de Abraão”. Num tempo em que as relações são apenas utilitárias e pouco gratuitas e o medo do futuro parece tolher o sonho, será que Jesus deixou de despertar curiosidade e gerar empatia, ou deixámos nós de O procurar ver e ouvir, para darmos em qualquer circunstância razões da nossa esperança? P. Fausto in Diálogo 1673 (XXXI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Conversa fiada !

  A oração continua a ser o tema da catequese de Jesus, ao comentar o comportamento de dois homens na Sinagoga. Um era fariseu e o outro publicano. Duas pessoas de condição social e religiosa bem diferente. O fariseu passava o tempo da sua oração a informar Deus dos seus méritos: eu jejuo, eu cumpro, eu pago, eu não sou como os outros, a começar por aquele ali atrás, e o publicano, pelo contrário, só pede misericórdia. Enquanto o fariseu se ufana das suas virtudes, o publicano, sem ousar levantar sequer os olhos, bate no peito, ao ver o filme da sua vida com misérias sem fim. Ambos foram ao templo para orar, mas só um saiu justificado. E adivinhamos facilmente quem foi. Quanto menos na oração empregarmos a palavra “eu”, mais agradável esta se torna aos olhos de Deus. Repare-se que no Pai Nosso, modelo de todas as orações, nunca encontramos “eu” ou “meu”, mas sempre “teu” e “nosso”. O fariseu da história regressou a casa convicto das suas virtudes e presumida santidade, cheio de água benta, mas não purificado. O publicano, pelo contrário, não ousa comparar-se, não se justifica, assume o passado com humildade e reencontra-se consigo mesmo e com Deus. E regressa a casa em paz. P. Fausto in Diálogo 1672 (XXX Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Orar Sempre ?

  Um belo dia um dos discípulos pediu a Jesus: “Senhor, ensina-nos a orar, como João também ensinou os seus discípulos”. E ensinou-lhes o Pai Nosso. Hoje, para nos falar de oração, convida-nos para a escola de uma mulher pobre e viúva, que pede insistentemente ao juiz corrupto que lhe faça justiça. Jesus propõe-na como modelo porque, apesar de frágil e indefesa, tem consciência da sua dignidade, não se conforma com a injustiça, não cede à arrogância do juiz, nem desanima com o passar do tempo. É uma mulher que sabe o que quer e luta pelo que quer, mesmo que tudo aconselhe a desistir. É uma lutadora! Na nossa vida há altos e baixos. Há momentos em que tudo parece ruir. E Deus em silêncio, parecendo mesmo desinteressado da nossa situação e indiferente à nossa sorte, apesar dos nossos pedidos e orações! Precisará mesmo Deus de ouvir os nossos pedidos, ou não teremos nós de aprender a “orar sempre sem desanimar”? Não são as orações e pedidos que fazem da nossa vida uma oração, mas a consciência de que somos de Deus e vivemos com e para Ele. Quando rezamos é para pedir coisas a Deus, mas o que Deus verdadeiramente nos quer dar é a Si Mesmo. E é isso que nos faz falta. E é isso que não pedimos. P. Fausto in Diálogo nº1671 (XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“A tua fé te salvou”

    A caminho de Jerusalém, Jesus cruza-se com muita gente, gente de todas as categorias sociais, culturais e religiosas. Para todos há sempre uma palavra, um gesto, uma atenção, e de todos se torna próximo, mesmo que a lei imponha distâncias, como hoje, com um grupo de dez leprosos. “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós”, gritam em coro. “Ide mostrar-vos aos sacerdotes”, responde prontamente Jesus. E no caminho ficaram limpos da lepra. Eram dez, mas apenas um, que era samaritano, voltou, para louvar a Deus e agradecer a cura. Aos nove miraculados apenas interessava a cura física, que lhes permitia de novo regressar ao convívio e retomar a vida normal. Bastava-lhes a saúde para serem felizes. Ao samaritano não. Por isso, é curado física e espiritualmente. É o único que de curado passa a salvo: “Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou”. Virado do avesso, este ex-leproso mostra-nos que a felicidade não vem de coisas, nem mesmo da saúde, é questão de relação com os outros e consigo mesmo. Mas também com Deus. E esta adquiriu-a finalmente no encontro com Jesus. P. Fausto in Diálogo nº1670 (XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Fé ou crença?

  São tantos os baptizados que dizem ter muita fé ou, pelo menos, fé suficiente, que o pedido de uma fé maior, feito hoje pelos apóstolos a Jesus, parece infantil. Mas não é. A fé não é coisa de quantidade e de peso, mas de qualidade e relação. Não se compra, não se troca, não se exige, não se reivindica; apenas se acolhe, porque é dom e mistério, mas pode morrer se não for alimentada. Sem confiança não há amizade, não há amor e também não há fé. Como seria possível viver sem confiar em alguém? Humanizamo-nos pelas relações de confiança com os outros e com Deus. Quando alguém diz “eu tenho muita fé” ou “eu cá tenho a minha fé” não se refere certamente à fé, como dom de Deus ou virtude teologal, mas apenas a uma crença em algo ou alguém…, porque a Fé, virtude teologal, tendo na base a confiança em Deus, introduz-nos num processo de intimidade, que, em crescendo, nos leva ao compromisso e à fidelidade. Sempre com riscos e às vezes com dúvidas. Assim acontece com o amor e também com a Fé. Ter fé não é dizer com autoridade a uma árvore: “arranca-te daí e vai plantar-te no mar”, coisa que Jesus nunca fez, mas é algo que nos leva a ocupar no dia a dia o nosso posto, a cumprir os nossos deveres, a cultivar os nossos talentos para melhor servirmos, pondo tudo nas mãos de Deus, sem pretensões, expectativas ou esperanças. Sem precisarmos de louvores ou recompensas. Sem medo do castigo ou das sanções como servos inúteis. Afinal, o que nos parece infantil no pedido dos apóstolos é o que mais precisamos de pedir a Deus, para sermos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo. P. Fausto in Diálogo 1669 (XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Pecados de omissão

  Jesus continua a apresentar-nos parábolas, a que jamais o tempo tira o brilho e a actualidade. Desta feita é a parábola de um homem rico, que vivia “à grande e à francesa”, indiferente ao que se passava à sua volta. Eram tantos os banquetes que dava e tão preenchida tinha a vida, que nem tempo tinha para dar pela presença de um pobre faminto e doente, mas com nome, que jazia à porta da sua quinta. Felizmente o tempo corre para todos e a hora de ambos chegou. Mas com desfechos diferentes. A diferente sorte final do rico não se deve à sua condição social ou financeira, porque não se condena pelo facto de ser rico, mas porque dispensa Deus do seu projecto de vida e se nega a partilhar um pouco que seja dos seus bens com o pobre, que está a morrer de fome à sua porta. O rico não faz mal a Lázaro. Apenas o ignora. O seu pecado é a indiferença. É o representante acabado de uma sociedade de consumo e egoísta. Há pecados de acção, mas, a esta luz, pode-se continuar a dizer que o mal maior que podemos fazer é não fazer o bem. P. Fausto in Diálogo 1668 (XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Que vale mais?

  O povo diz que “anda meio mundo a enganar outro meio”. Mas há-de chegar o momento de prestar contas. Todos e cada um. E agora? Que vale mais, o que se acumulou ou o que se partilhou? Na óptica de Deus, na hora da verdade, o que se tem não se leva, porque só tem valor o que se deu com amor. Jesus, na história que hoje conta, ao dizer que “não podemos servir a Deus e ao dinheiro”, não diaboliza a riqueza, mas chama a atenção dos discípulos de todos os tempos para a impossibilidade de termos na vida dois senhores ou “dois amores”. Quem “serve o dinheiro” procura acumular… faz contas e recontas, constrói celeiros maiores, põe alarmes e reforça as medidas de segurança para se acautelar. Ao contrário deste, quem aposta no “modo solidário de habitar o mundo” já serve a Deus, mesmo que não seja movido explicitamente pela fé. A esta luz, podemos, então, dizer que não são as riquezas que nos “levam ao céu”, mas o bem que fazemos com as riquezas que temos. E os cristãos, sabendo que “a fé sem obras é morta”, são duplamente responsáveis pelo bom uso dos seus bens. P. Fausto in Diálogo 1667 (XXV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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De que lado estamos ?

  Lucas, o evangelista da misericórdia, brinda-nos com três parábolas genialmente contadas por Jesus e conhecidas de todos: a da ovelha tresmalhada, a da dracma perdida e a do pai bondoso, conhecida também por parábola do filho pródigo. Qualquer delas reflecte preciosamente o rosto e o coração de Deus, que nos ama com paixão, de forma ilógica e para muitos injusta, excessiva e ilimitada. A vida de muitos cristãos, porém, não reflecte esta boa nova trazida por Jesus Cristo. E nós, qual o Deus que temos no coração? O Deus distante, frio e calculista, ou o Deus próximo, sorridente e compassivo…? Que rosto de Deus gostaríamos de encontrar um dia, “no nosso dia”…? O do tribunal, apenas disponível para absolver ou condenar, ou o da festa,surpreendidos com a grandeza da sua misericórdia? Cristo encontrou no seu tempo dois grupos de pessoas: os puritanos (escribas e fariseus) e os outros (pecadores, ignorantes da lei, pobres, publicanos, prostitutas…) e em nenhum momento se colocou no primeiro grupo como juiz do segundo. Mas é o que muitas vezes fazemos, esquecendo facilmente, ainda que o digamos sempre no início de cada Eucaristia, de que todos somos pecadores, apesar de chamados à santidade. P. Fausto in Diálogo nº1666 (XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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