Que vale mais?

  O povo diz que “anda meio mundo a enganar outro meio”. Mas há-de chegar o momento de prestar contas. Todos e cada um. E agora? Que vale mais, o que se acumulou ou o que se partilhou? Na óptica de Deus, na hora da verdade, o que se tem não se leva, porque só tem valor o que se deu com amor. Jesus, na história que hoje conta, ao dizer que “não podemos servir a Deus e ao dinheiro”, não diaboliza a riqueza, mas chama a atenção dos discípulos de todos os tempos para a impossibilidade de termos na vida dois senhores ou “dois amores”. Quem “serve o dinheiro” procura acumular… faz contas e recontas, constrói celeiros maiores, põe alarmes e reforça as medidas de segurança para se acautelar. Ao contrário deste, quem aposta no “modo solidário de habitar o mundo” já serve a Deus, mesmo que não seja movido explicitamente pela fé. A esta luz, podemos, então, dizer que não são as riquezas que nos “levam ao céu”, mas o bem que fazemos com as riquezas que temos. E os cristãos, sabendo que “a fé sem obras é morta”, são duplamente responsáveis pelo bom uso dos seus bens. P. Fausto in Diálogo 1667 (XXV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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De que lado estamos ?

  Lucas, o evangelista da misericórdia, brinda-nos com três parábolas genialmente contadas por Jesus e conhecidas de todos: a da ovelha tresmalhada, a da dracma perdida e a do pai bondoso, conhecida também por parábola do filho pródigo. Qualquer delas reflecte preciosamente o rosto e o coração de Deus, que nos ama com paixão, de forma ilógica e para muitos injusta, excessiva e ilimitada. A vida de muitos cristãos, porém, não reflecte esta boa nova trazida por Jesus Cristo. E nós, qual o Deus que temos no coração? O Deus distante, frio e calculista, ou o Deus próximo, sorridente e compassivo…? Que rosto de Deus gostaríamos de encontrar um dia, “no nosso dia”…? O do tribunal, apenas disponível para absolver ou condenar, ou o da festa,surpreendidos com a grandeza da sua misericórdia? Cristo encontrou no seu tempo dois grupos de pessoas: os puritanos (escribas e fariseus) e os outros (pecadores, ignorantes da lei, pobres, publicanos, prostitutas…) e em nenhum momento se colocou no primeiro grupo como juiz do segundo. Mas é o que muitas vezes fazemos, esquecendo facilmente, ainda que o digamos sempre no início de cada Eucaristia, de que todos somos pecadores, apesar de chamados à santidade. P. Fausto in Diálogo nº1666 (XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“E quem é o meu próximo?”

  Há perguntas e perguntas, e esta é uma das sérias para qualquer homem que se preze: “E quem é o meu próximo?” Quem pergunta é um doutor da lei, a quem Jesus responde com uma das mais belas páginas do Evangelho, em jeito de parábola. Para os judeus, apenas os laços de consanguinidade e de religião convidavam ao dever de assistência, sendo todos os demais “estranhos”… Ora, é precisamente contra esta mentalidade, que Jesus quer chamar a atenção. O homem assaltado, ferido e roubado, é um indocumentado, sem nome, sem família, sem pátria, sem nada que o credencie. É apenas um homem, a quem roubam tudo e deixam “meio morto”, à beira do caminho; mas nem por isso, diz-nos Jesus, perde a dignidade própria de um ser criado à imagem e semelhança de Deus. O sacerdote e o levita olham-no e passam em frente, porque, mais importante que sujar as mãos e as vestes na ajuda à vítima, é preservar a sua pureza legal. E lá se vão, de passo apressado e consciência tranquila… Ao contrário, um samaritano passou junto do infeliz “e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão”. Faz tudo, tudo mesmo, livre de quaisquer preconceitos e, ainda por cima, com discrição e enorme generosidade. Uma sociedade em que a noção do outro é cada vez mais ténue e a distância entre o “meu mundo” e o resto é maior, facilmente se torna campo fértil para a indiferença e para a rivalidade, que matam a proximidade e solidariedade, que nos caracterizam verdadeiramente como humanos. P. Fausto in Diálogo 1665 (XV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Leves e Ligeiros !

  “Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias, nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho…” (Lc. 10, 3-4) Assim mesmo, sem tirar nem pôr! E os discípulos, dois a dois, lá se foram sem pão, sem bolsa, sem dinheiro, sem telemóvel… sem mesmo as coisas mais indispensáveis em qualquer saída. Leves e ligeiros, apenas confiados na força da Palavra e apostados na urgência da Missão. Nestas últimas semanas, somos particularmente provocados por Jesus com desafios que nos parecem pouco razoáveis e não ajustados à realidade, como os deste Domingo. A verdade, porém, é que a força do Evangelho e do Cristianismo não é questão primordialmente de organização e estratégia, e muito menos de dinheiro, meios, poder e números… É questão de coração, de disponibilidade e prontidão, de ardor e paixão dos discípulos de todos os tempos. Era isto mesmo que Jesus queria que os setenta e dois do Evangelho descobrissem. E é tão importante essa experiência, ao arrepio de toda a lógica empresarial e de sucesso, que Jesus a quer estender a todos os Seus discípulos, porque ninguém está imune da tentação do ter e do poder que torna acomodada, menos evangélica e mais insignificante a própria Igreja. P. Fausto in Diálogo 1664 (XIV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Mudar de Vida !

  Segundo a Palavra de Deus deste XIII Domingo do Tempo Comum, a disponibilidade e a prontidão são as características fundamentais e comuns a todos os que Deus chama a uma missão especial. Exemplo claro é a vocação de Eliseu na 1°leitura e, a avaliar pela reacção de Jesus àqueles que desejavam segui-Lo, o grau de exigências do Evangelho não é menor. Outra coisa, hoje, não pede Jesus a quem chama, apesar da linguagem parecer radicalmente inoportuna e inadequada ao comum pensar a vocação. Na verdade, a radicalidade da proposta de Jesus é pouco convidativa, mesmo inaceitável para a grande maioria dos nossos contemporâneos; apesar de tudo, Jesus não retira uma vírgula ao que disse : “Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o Reino de Deus”. Só pessoas disponíveis e prontas entendem e são capazes de responder às exigências da Missão, numa sociedade cada vez mais “líquida”, como a nossa. E quando se fala em Missão, não nos referimos somente ao chamamento à vida consagrada, religiosa e secular, ou ao ministério ordenado, mas também à vida matrimonial, pois todas são caminho de santidade, incompatível com formas “light” de viver. Em tempo algum Jesus vai mudar a linguagem ou baixar a fasquia de exigência do chamamento, nós é que temos de mudar de vida. P. Fausto in Diálogo 1663 (XIII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Pergunta obrigatória !

  “Quem dizem as pessoas que eu sou”? A avaliar pelas respostas dos discípulos, vemos que Jesus está com níveis de cotação bem elevados. Mas não é isso o que pretende e não trabalha para as sondagens. Porém, o tempo de caminhada com os discípulos justifica já um exame, com apenas uma pergunta: “E vós quem dizeis que eu sou?” Aqui não valem as opiniões dos outros, as respostas dos livros ou as sínteses de doutrina, retiradas do fundo do baú da memória. A resposta a esta questão só pode ser dada “coração a coração”, desarmada e sem filtros. Assim aconteceu com Pedro. Como então, Jesus coloca hoje a mesma questão a cada baptizado: Quem sou eu para ti ? Mais uma vez não convence a resposta teórica de livros ou catecismos, mas tão só aquela pessoal, imperfeita, de cada um, diferente da de Pedro em que se apoia a fé da Igreja. Para ser cristão, hoje como ontem, não basta decorar fórmulas e cumprir preceitos… mas entender o que Jesus diz “Se alguém quiser seguir-Me, renegue-se a si mesmo, pegue na sua cruz todos os dias e siga-Me”. E a questão não é procurar a cruz, porque ela nasce e vive connosco, mas integrá-la de modo sádio na nossa escala de valores. Numa sociedade tão obcecada na eliminação do sofrimento e na procura desenfreada do progresso, torna-se cada vez mais incompreensível esta linguagem e difícil o desafio, mas é o único que Jesus faz aos discípulos de todos os tempos. P. Fausto in Diálogo nº. 1662 (XII Domingo do Tempo Comum – Ano C)  ...

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Quem são os ateus?

  “Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena”, como nos diz o discurso da última Ceia, hoje lembrado no Evangelho. Jesus não se refere, de certo, ao conhecimento de matéria obrigatória ainda por dar, mas à incapacidade humana de, por si mesma, abarcar o Mistério de Deus. De facto, “um só Deus em três Pessoas” é Mistério que se explica mas não se abarca, é realidade que nos transcende mas, apesar da nossa pequenez, não nos esmaga, antes envolve num Abraço de Amor infinito, de Ternura e de Misericórdia. Que Deus é Único já sabíamos há muito, mas o que Jesus nos revela é que Deus é Uno e Trino, não é solidão mas comunhão, não vive sozinho, centrado em Si mesmo, e de costas para os homens. É Comunidade, é Família de três Pessoas que, sem se anularem, complementam-se, têm a mesma natureza divina, o mesmo poder e majestade e é-Lhes devida a mesma Honra, Glória e Louvor. Mistério da Santíssima Trindade, Mistério de Deus Uno e Trino, perscrutado e acolhido no coração porque é Mistério de Amor, não se traduz em discurso mas na fidelidade ao Mandamento Novo. A esta luz o verdadeiro ateu não é o que diz não acreditar em Deus, mas o que não se esforça por criar laços, fazer pontes, promover a fraternidade, a justiça, a paz… É assim que o homem se realiza como ser criado à imagem e semelhança de Deus, porque, mesmo sem o saber, reflete verdadeiramente que Deus é Família Trinitária, Comunidade Plena, Amor Infinito… É este o Deus em quem acreditamos. P. Fausto in Diálogo 1661 (Solenidade da Santíssima Trindade – Ano...

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Como línguas de fogo…

  No Domingo, os Apóstolos, convidados para um pequeno passeio até Betânia, foram surpreendidos com a Ascensão de Jesus ao Céu, mas não havia sinais de tristeza ou insegurança pela partida, mas de enorme alegria, no seu regresso a Jerusalém. Jesus fizera muito bem o Seu “trabalho de casa” e preparou sabiamente durante estas semanas os discípulos para a Missão que os esperava. Ele saiu do seu convívio, é verdade, mas não se afastou dos Seus, a quem garantira fidelidade e a quem prometera o Paráclito. É o que celebramos hoje com esta solenidade, com que termina o Tempo Pascal e cujo Evangelho descreve alguns traços do Espírito Santo: “E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Paráclito, para estar sempre convosco… e que vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse”. No dia do Pentecostes, em Jerusalém, todos ouvem, estupefactos, os apóstolos falarem na sua língua materna, porque, graças ao Espírito Santo, bem cedo se percebeu que a única linguagem perceptível por todo o ser humano é a linguagem do Amor. Era o que faziam os apóstolos com grande alegria e entusiasmo. Também hoje é o mesmo Espírito que anima a Igreja e nos impele ao cumprimento do “Mandamento Novo”, que faz de cada baptizado um verdadeiro, audaz e destemido discípulo de Jesus Cristo. P. Fausto in Diálogo 1660 (Domingo de Pentecostes – Ano...

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“Abençoou-os”

  O encontro de Jesus com os Seus parece ter sido hoje mais breve, mas sempre intenso. Depois de lhes lembrar em poucas palavras o que na Escritura se referia ao Messias, convidou-os a um passeio até Betânia. O ambiente era descontraído e não previa o desfecho que Jesus vinha preparando cuidadosamente. Já perto de Betânia, “erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi elevado ao Céu”. O que, em circunstâncias normais, provocaria desconforto e tristeza, encheu de alegria o coração de todos, porque entenderam finalmente que o afastamento físico de Jesus não é sinal de abandono, mas forma de presença diferente, nem o Céu refúgio e descanso para férias, mesmo que entre núvens. “E, erguendo as mãos abençoou-os“. É o último gesto de Jesus na terra e a Sua última palavra aos seus. Sem lamentos, condenações, ressentimentos…Apenas uma Bênção e o sorriso de missão cumprida, pleno de confiança, de quem diz “até amanhã” e nos vai preparar um lugar… Agora o tempo é nosso. Cabe-nos continuar a Missão. P. Fausto in Diálogo nº 1659 (Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano...

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Em jeito de Despedida…

  “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”. Paz é a primeira palavra do Ressuscitado na saudação aos apóstolos, reunidos em casa com medo dos judeus, na tarde do primeiro dia da semana: “a Paz esteja convosco”. A Paz não é apenas fim ou ausência de guerra… é o fim do domínio de todos os medos passados, presentes ou futuros, é anúncio da derrota do mal e de todas as formas de violência e sofrimento, morte inclusivé, é certeza da Vitória do Amor. Porque Cristo é a nossa Paz, é também Dom imerecido, a acolher responsavelmente por cada um. E, não fora ainda bastante para serenar os corações e vencer de vez as resistências dos discípulos quanto ao futuro, promete-lhes hoje o Paráclito, o Espirito Santo, com a missão de lhes recordar tudo e ensinar todas as coisas, porque os poucos anos de catequese e as suas limitadas capacidades não permitiram ao Mestre ensinar tudo quanto desejava. A VI semana do Tempo Pascal faz parte, então, desse tempo belo de espera em que o Ressuscitado prepara o Seu próximo afastamento físico, com promessa de permanente fidelidade. Será na docilidade ao Espírito prometido, que os apóstolos se manterão sempre fiéis à missão, e, como eles, também nós, hoje, no exercício do mesmo mandato. P. Fausto in Diálogo nº 1658 (Domingo VI da Páscoa – Ano...

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