“Se não vos arrependerdes…”

  Sempre ao longo da história aconteceram fenómenos que deixaram rastos profundos de destruição e morte. Agora, porém, a sua frequência e violência são de tal modo notórias, que nos aconselham a levar ainda mais a sério o alerta de Jesus no Evangelho deste domingo, porque é cada vez mais clara a mão do homem neste rosário doloroso de acontecimentos, que afectam a humanidade. Terá Deus perdido o controle das forças cósmicas ou gozará em tornar mais infernal a vida dos homens? Ter-se-á zangado connosco e apressado o calendário na execução de penas a infligir à humanidade? Nada é mais errado. O desabamento da torre em Siloé ou das Gémeas em Nova York, os ciclones, as secas, e muitos outros fenómenos que afetaram ou afetam dramaticamente a humanidade, não podem ficar apenas no rol noticioso das catástrofes, mas devem ser um apelo forte à nossa conversão. Na verdade, se o homem não arredar caminho, se não respeitar mais a vida e a natureza, se não se tornar mais solidário e construtor de justiça e de paz, e, sobretudo, se apostar num mundo à margem de Deus, esta casa comum, que é a nossa terra, vai-se desmoronando, com consequências cada vez mais dramáticas. E o alerta de Jesus está no Evangelho de hoje: “se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante”. O que nos vale é a paciência infinita de Deus, que aguarda a nossa conversão e “passa a vida” a consolar-nos, a limpar as nossas lágrimas e a manter viva a nossa esperança. P. Fausto in Diálogo 1649 (Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano...

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Desafios da Quaresma… [2]

No 2º Domingo da Quaresma é o Evangelho da Transfiguração que nos ilumina. Com Pedro, João e Tiago, também nós subimos ao monte, para acompanhar Jesus na oração, e “enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente”. Tudo era luz e beleza, e era tão intensa a felicidade, que Pedro desabafou: “Mestre, como é bom estarmos aqui”. Não ficámos, porém, muito tempo, porque uma nuvem escura e densa nos devolveu à realidade e obrigou-nos a descer à planície. E Jesus veio connosco. Na vida há momentos de tudo, de descida, de sofrimento e de deserto, mas também de exultação, de entusiasmo, de conforto, quase de plenitude, mas Jesus ensina-nos que, em qualquer circunstância, só a Oração e a Escuta, tornando luminosa a existência, apesar de tantas vezes dispersa, corrida e sofrida, nos devolvem a serenidade ao rosto, a limpidez aos olhos e misericórdia ao coração. Todos estamos em processo de transfiguração que só acaba quando Deus entender, porque se realiza no tempo da nossa existência, vivida em chave de peregrinação em crescendo de intimidade com Deus e de comunhão com os outros. O jejum, a oração e a esmola continuam a ser, em síntese, os desafios comuns que a Igreja faz, há séculos, para se viver o tempo santo da Quaresma. P. Fausto in Diálogo 1648 (II Domingo da Quaresma – Ano C)...

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Desafios da Quaresma …

  Entrámos na Quaresma e, como sempre, é-nos proposto o Evangelho das tentações de Jesus, no deserto, como Palavra iluminadora e provocadora para vivermos, como diz S. Paulo, este “tempo favorável”. Vivemos imersos numa cultura que não preza o silêncio, numa cultura do imediato e do eficiente, sempre à procura de resultados, em que se confunde tantas vezes eficácia com actividade febril e se tem cada vez menos tempo para Deus, para os outros e para nós mesmos. Face a esta cultura, precisamos de silêncio que dê tempo às pessoas para crescerem e amadurecerem… Tempo para saborearmos o tempo tão fugidio da nossa existência. O que se diz, porém, do nosso “corre corre” diário, também o podemos dizer da nossa vida religiosa a todos os níveis, paroquial e diocesano. Tantos cursos, reuniões, caminhadas, estratégias… que não ajudam à comunhão e promovem a dispersão. Também Isto é ruído, que importa evitar. Que o Senhor nos dê a Graça de vivermos a Quaresma, com redobrada atenção à escuta de Deus e nos faça descobrir o segredo de Jesus para vencermos, como Ele, todas as tentações, mesmo as mais graves e subtis da nossa natureza humana. P. Fausto in Diálogo 1647 (I Domingo da Quaresma – Ano...

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A viagem necessária

Jesus, na sequência dos conselhos dados aos discípulos e que Lucas condensa no Evangelho deste domingo, desafia-nos a uma viagem ao interior. Uma viagem ao nosso íntimo mais íntimo, porque “a boca fala do que transborda do coração”. Sem sentimentos de culpa, nem tão pouco de superioridade. E de que mais falam as pessoas à nossa volta? A ser verdade que a língua fala da abundância do coração, mal vamos todos, porque não é de justiça, solidariedade, diálogo, paz, convivência, respeito… o centro das nossas conversas, mas antes ordenados, lucros, direitos, andares, carros, viagens, férias, seguros, amores e desamores… Justamente preocupados com o ambiente e as alterações climáticas, vivemos também intoxicados por uma espessa camada de fofoquices e atordoados por níveis nada saudáveis de poluição sonora, moral e religiosa. Vivemos num mundo de ruídos, dentro e fora de nós. É face a esta sociedade que produz e vende informação, polui a alma e impõe um ritmo incontrolável de consumo, que Jesus nos propõe uma descida ao nosso mais profundo, para, no silêncio e na oração, cuidarmos da árvore que dá frutos preciosos de vida nova, expressos nas Bem-aventuranças. A Quaresma está aí. Aproveitemo-la desde o início. P. Fausto in Diálogo 1646 (VIII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Evangelho incómodo !

  O discurso de Jesus deste domingo vem na linha do das bem-aventuranças. De tão sublime e quase impossível torna-se incómodo, e a tentação de rasgar ou virar rapidamente a página é compreensível. Mais parecem palavras proferidas por um sonhador que desconhece o coração humano e não sente no mais profundo de si mesmo a força da “lei de talião”, que nos inclina para o ódio e para a vingança. Jesus, porém, conhecedor da natureza humana e do que é capaz, não hesita em propôr hoje um caminho de libertação e felicidade, que eleva o relacionamento entre humanos à fasquia máxima do amor e do perdão. Só possível com a Graça de Deus. Apesar de incómodo e difícil, este Evangelho é para todos. E não nos podemos escandalizar com o que vai à nossa volta, porque somos todos muito bons e educados enquanto nos sorriem e tudo nos corre ao gosto, mas facilmente perdemos as maneiras e estala-se-nos o verniz diante de algum contratempo, incompreensão ou mau trato. Precisamos da graça de Deus, para exercitar sempre o amor, o perdão, a compreensão e a benevolência na relação com os outros, porque passa por aqui o agir próprio do discípulo de Cristo. P. Fausto in Diálogo 1645 (VII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Para ser Feliz…

  Se no domingo, à beira mar, Jesus teve dificuldade em se ouvir por causa da multidão, hoje os que o querem ver e ouvir são bem mais e de mais longe. E Jesus aproveita para proferir um dos mais belos e desconcertantes discursos de toda a sua vida pública, sem falar de leis, de moral, mas apenas de felicidade. Ao arrepio do pensar comum, Jesus deixa-nos as bem-aventuranças, não como receita masoquista para a felicidade, mas como o único caminho capaz de recriar o mundo que tanto desejamos, consolidado na paz, na justiça, na bondade e na sinceridade. Ao contrário do que muitos possam pensar, Jesus não abençoa a pobreza, as lágrimas, ou qualquer tipo de sofrimento que bata à nossa porta, mas diz claramente que se pode ser feliz, apesar da pobreza, do sofrimento e das perseguições…, porque o segredo da felicidade não está na carteira recheada, na saúde de ferro, no grupo de “amigos”, ou em qualquer outra circunstância, mas na qualidade da nossa relação com Deus, com os outros e connosco mesmo. Neste sentido, a bem-aventurança nunca estará ao alcance de quem faz depender a felicidade das circunstâncias do presente, ou de quem tem o coração tão cheio, que Deus e os outros não têm lugar. Quem tiver dúvidas, pergunte a Francisco de Assis, a Teresa de Ávila ou a Teresa de Calcutá (ou a qualquer outro santo) o segredo para ser feliz. E concluirá que o único caminho continua a ser o das bem-aventuranças. P. Fausto in Diálogo 1644 (VI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Todos chamados !

  Ainda estamos nos princípios da vida pública e Jesus já experimentou, da parte dos Seus ouvintes, momentos de curiosidade, admiração e até de rejeição, tendo mesmo já sido vítima de tentativa de homicídio, na sua terra de Nazaré. Mas não desistiu. Hoje, porém, é daqueles momentos que enchem a alma. Foi um autêntico banho de multidão, à beira-mar, a ponto de pedir a Pedro que o deixasse falar da sua barca. No fim, convidou Pedro, que lavava as redes depois de uma faina infrutífera, a pescar, em condições bem desfavoráveis. E o resultado ultrapassou todas as previsões. Este facto abre os olhos a Simão: “Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador”. Ao que Jesus responde, de imediato: “Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens”. A vocação de Pedro e dos outros apóstolos, como a dos Profetas no Antigo Testamento, é um acto gratuito da parte de Deus, que escolhe quem quer e capacita quem chama. Assim foi ontem e continua a ser hoje. O chamamento não anula a natureza de quem é chamado, que, continuando a ser limitado e com defeitos, recebe de Deus uma graça própria, que o ajuda a superar as limitações, se a resposta for pronta e generosa como a de Pedro e dos seus companheiros, que deixaram tudo para seguir Jesus. P. Fausto in Diálogo 1643 (V Domingo do Tempo Comum  Ano...

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Lições de Nazaré!

  O culto na Sinagoga de Nazaré decorria em ambiente de muita curiosidade, e até de admiração, com o discurso claro e luminoso de Jesus. Depressa, porém, os olhos, que desde o princípio nEle estavam fixos, se viraram para a porta de saída, e o coração, antes desperto pela novidade da doutrina, tornou-se duro e frio. E todos se levantaram para lançar Jesus ao precipício e calar a Sua voz incómoda. O Deus que os de Nazaré esperavam que Jesus anunciasse, era um Deus ao jeito de cada um, que desse pão quando necessário e saúde quando preciso. Um Deus de milagres e de soluções à medida. Dos judeus preferencialmente. E esse não é o verdadeiro Deus. O Deus dos milagres e das soluções salvíficas ao alcance das mãos, também querido por muitos cristãos, é um Deus que se afirma pelo poder, um Deus que gosta ser obedecido e reconhecido, a ser amado em liberdade. Um Deus de todos, mas que ama especialmente alguns. Este não é o Deus anunciado pelo profeta Isaías, e confirmado por Jesus, na Sinagoga de Nazaré. Este também não é o nosso Deus, que nos quer felizes, luminosos e livres de máscaras e medos, apesar das “partidas” que a vida nos prega. A tentação de querer um Deus “à nossa imagem e semelhança”, sujeito aos nossos amores, humores e necessidades, é permanente. Há que estar prevenidos e sempre atentos à mensagem e ao comportamento de Jesus, para vivermos hoje à altura da missão de Seus discípulos e missionários. P. Fausto in Diálogo 1642 (IV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Cumpriu-se…”

  Assistido pelo Espírito Santo, e sempre ocupado com a solidez da sua escrita, é S. Lucas quem, este ano, nos vai ajudar a caminhar como discípulos de Jesus. A exigência na procura incessante de fontes de informação é notória. De hoje em diante, então, vamos segui-lo. Neste 3º domingo do Tempo Comum, aceitamos o convite amável para participarmos no culto da Sinagoga de Nazaré, onde Jesus estava também e leu uma passagem do Profeta Isaías. No fim, sentou-se e rematou: “Cumpriu-se hoje mesmo… o que acabais de ouvir”. O silêncio era geral e os olhos tinham todos a mesma direcção. Bem conhecido no meio, Jesus aproveita a ocasião para dizer que não quer infernizar a existência, com mais pesos e mais leis, mas vem, em nome de Deus, anunciar a todos uma vida nova, livre e feliz. E continua o seu discurso a proclamar que o Deus em que acredita não faz favores em troca de obséquios e sacrifícios, mas é um Deus que ama todos sem esperar qualquer troco, um Deus Bom, só Bom, exclusivamente Bom. Um Deus feliz e que nos quer felizes também. “Ouvir estas coisas” no princípio de ano dispõe-nos ao caminho e é tónico vigoroso para os que querem, como nós, aprender a ser discípulos de Jesus. P. Fausto in Diálogo 1641 (III Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Fazei tudo…”

  Hoje participamos numa festa de casamento, para a qual foram convidados Jesus e sua Mãe, e nós também, dadas as nossas relações de convivência com Jesus. O ambiente era festivo e a mesa farta de boa comida e bom vinho. A certa altura, a Mãe de Jesus, apercebendo-se do nervosismo dos serventes, vem, com discrição, junto do Filho, dizer-Lhe que se esgotara o vinho. Jesus acedeu e tudo discretamente se resolveu. Com esta intervenção, Jesus quer anunciar, desde a primeira hora, um Deus próximo, alegre e compreensivo, que aprecia a festa e se compraz com a alegria dos homens, mas não nos poupa às dificuldades, nem nos livra de aflições. Na vida há momentos de tudo… e pode “faltar o vinho”, o vinho da alegria, do entusiasmo, do sonho, da paixão, da generosidade… E agora? Viver para o passado a que doentiamente nos agarramos? Resignarmo-nos a um presente sem horizontes, nem oxigénio? Baixar os braços de vencidos pelas contrariedades? Nada disto é sádio e não é da vontade de Deus. Para sair deste pântano, há que lembrar as palavras avisadas da Mãe de Jesus aos serventes, “Fazei tudo o que Ele vos disser”, e as de Jesus aos mesmos funcionários, “Enchei essas talhas de água… Tirai agora e levai ao chefe de mesa”. Se tivermos em conta a recomendação amorosa e sensata da Mãe de Jesus e se formos obedientes e diligentes como os serventes, não serão as dificuldades da vida, ainda que fortes, a roubar-nos o ânimo, a alegria e a frescura espiritual dos discípulos de Cristo. P. Fausto in Diálogo 1640 (II Domingo do Tempo Comum – Ano...

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