“Como Eu vos amei…”

  Já lá vão algumas semanas em que surpreendentemente o sepulcro foi encontrado vazio, sem que se vislumbrasse qualquer explicação, que trouxesse a paz ao coração dos amigos de Jesus. Logo, porém, nessa tarde, sem ninguém contar, Jesus inicia um ciclo de aparições aos apóstolos, tratando logo de lhes recuperar a memória, com a graça do Espírito Santo, ao soprar sobre todos. E assim tem conservado um ritmo de encontros, em casa ou à beira mar, em que concede aos apóstolos o “poder de perdoar os pecados”, responde às dúvidas de Tomé, confirma Pedro num serviço especial à Igreja, e agora parece aproveitar o tempo a preparar proximamente a Sua partida para o Pai. Não está mesmo nada fácil. É neste contexto de afastamento físico de Jesus, que devemos ler e reter o discurso feito na última ceia: “Meus filhos… como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos”. É um mandamento novo, radicalmente novo, dirigido a todos os discípulos de todos os tempos e lugares, sem excepção, porque propõe como ideal e regra de vida não apenas “amarmo-nos uns aos outros”, mas amarmo-nos como Ele nos amou. É e será sempre este o distintivo do agir cristão. Precisaremos de saber mais coisas, ou apenas de cumprir o “Mandamento Novo do Amor”, para sermos reconhecidos como verdadeiros discípulos? P. Fausto in Diálogo nº1657 (V Domingo de Páscoa – Ano...

Learn More

“Dá-me, Senhor, um coração que escute”.

  “As minhas ovelhas escutam a minha voz”, diz Jesus no Evangelho deste Domingo do Bom Pastor. Tudo à nossa volta, porém, não convida, nem favorece a escuta. Não há tempo para nada, corre-se para tudo e levantamo-nos às vezes já cansados… e a consequência é não termos tempo para ninguém. E assim a vida vai arrefecendo e o espaço para Deus e para os outros diminuindo… Vamo-nos subjugando à tirania do relógio, na ânsia voraz de rentabilização do tempo, que até nos rouba o prazer de saborear gratuitamente o momento. Neste Domingo do Bom Pastor, e dia especial de oração pelas vocações consagradas, e não só, quero rezar com o Rei Salomão: “Dá-me, Senhor, um coração que escute”, para não reduzir os sonhos a poder, dinheiro e coisas. Se todos fizessem sua esta oração, não haveria mais tempo para escutar Deus e os outros, a começar pelos de casa, e não seríamos, assim, mais felizes? P. Fausto in Diálogo nº1656 (IV Domingo da Páscoa – Ano...

Learn More

“Tu amas-me ?”

  A vida vai-se recompondo à medida que os apóstolos vencem o medo, saram o coração das feridas pela morte do Amigo e convivem com o sepulcro inexplicavelmente encontrado vazio. Talvez por isso os encontros de Jesus, a partir de agora, aconteçam junto ao mar, local próprio de quem tem de tirar daí o sustento para a família. Sim, porque as obrigações familiares não esperam. Assim acontece também com os apóstolos. Depois de uma faina pouco conseguida e de outra, a conselho de Jesus, surpreendentemente abundante, assistimos a um encontro especial com Pedro. Já na semana passada acontecera, no mesmo dia, com Tomé, estando todos ainda em casa, de portas bem fechadas. Hoje, recolhidas as redes e guardado o peixe, e depois de uma boa refeição preparada por Jesus, seguiu-se um verdadeiro exame de amor a Pedro: “Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?” A resposta não saiu clara, e Jesus voltou: “Simão, filho de João, tu amas-me?” E uma terceira vez Pedro foi interrogado sobre matéria tão delicada e séria. A insistência da pergunta levou Pedro a reconhecer diante de todos, com humildade, de lágrimas nos olhos, que, semanas atrás, ao mesmo exame, merecia reprovação. Agora mereceu um excelente. Jesus não insistiu e confirmou: “Apascenta as minhas ovelhas”. A Misericórdia recuperou definitivamente Pedro e faz-nos compreender que tudo na vida é uma questão de Amor e que só o Amor torna a autoridade verdadeiro serviço, de que Pedro, de hora em diante, estava pessoalmente investido. P. Fausto in Diálogo nº1655 (II Domingo da Pascoa – Ano...

Learn More

“não sejas incrédulo…”

  O sepulcro foi encontrado vazio e no seu interior apenas as ligaduras testemunhavam algo surpreendentemente inexplicável. Em todos reinava a perplexidade, mas o medo dos judeus e a vergonha pelas traições da semana tornavam a tarde ainda mais desagradável e convidavam os apóstolos ao refúgio seguro de casa. Aí, sem Se anunciar, os foi encontrar Jesus, de portas bem fechadas, na tarde do primeiro dia da semana. Todos O reconhecem pela suavidade da voz e doçura do olhar. É Ele! Está vivo! E com a saudação, surge a mais bela prenda de Páscoa: “Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos”. E mais não disse. Assim como apareceu também se retirou. Mas nada ficou na mesma. Havia agora a certeza de que Jesus estava vivo. Apresentava-se, é verdade, diferente, luminoso, mas era Ele. A voz, o olhar, a doçura e proximidade de trato tornavam-nO inconfundível. E em todos nascia uma alma nova. Em todos menos em Tomé, que não estava presente. Oito dias depois, estando as portas também fechadas, apresenta-se Jesus, de novo, ao grupo, desta feita completo, e dirige-se particularmente a Tomé: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos… e não sejas incrédulo mas crente”. E Tomé rendeu-se. Mais uma vez a Misericórdia venceu, porque é o que melhor revela a profundidade e grandeza do Mistério do Amor de Deus por todos e cada um de nós. P. Fausto in Diálogo nº1654 (II Domingo da Páscoa – Ano...

Learn More

Ressuscitou !

  A semana foi por demais atribulada e não houve tempo para se dar sepultura digna a quem passou a vida, como Jesus, a fazer só o bem. Respeitadas, porém, as prescrições sabáticas, algumas mulheres antecipam-se ao dia e correm ao sepulcro, com as mãos cheias de aromas e o coração dominado por uma profunda tristeza. Correm ansiosas para um último gesto de amor ao que fora Crucificado. E chegaram, mas do Amado nem sinais! Tudo era silêncio e cheirava a primavera. Uns Personagens que pareciam Anjos interpelam as mulheres aflitas e desorientadas: “Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui: Ressuscitou.” Sem mais explicações, continuam: “Lembrai-vos como Ele vos falou, quando ainda estava na Galileia…”. Não pode ser mentira, é realidade: Ressuscitou! Está vivo! E elas voltaram apressadas com um rio de Alegria, que mesmo os discípulos pensaram que tudo não passava dos efeitos etílicos de um matabicho abundante. Mas as mulheres não se enganaram, não. O seu anúncio continua vigoroso a soar aos nossos ouvidos e o seu testemunho provoca em nós ondas de Alegria que nos permitem cantar Aleluia, mesmo com lágrimas nos olhos. O Amor venceu definitivamente a morte. Que nada e ninguém, alguma vez, nos roube a Alegria e a Esperança que vêm de Cristo, o Crucificado e Ressuscitado. Uma Santa Páscoa para todos. Aleluia! Aleluia! P. Fausto in Diálogo nº1653 (Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor – Ano...

Learn More

Semana Santa !

  Com a celebração do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor começa a Semana Santa, a mais Santa de todas as semanas. A semana da Fé cristã, em que celebramos de forma solene, e vivemos intensamente, os momentos mais significativos da História da Salvação. Nesta semana única e paradoxal veremos acontecer muita coisa: O Senhor a lavar pés, o Justo e Inocente a ser condenado, o Amigo a ser atraiçoado, o Deus da vida a morrer na cruz… abraços e beijos de traição no Jardim das Oliveiras, lágrimas abundantes de arrependimento por momentos de cobardia no pretório e outras de vergonha e desespero por projectos político-religiosos fracassados. Tudo e muito mais veremos nesta semana. Não podemos, pois, ser meros expectadores de plateia, mas todos actores de cena, que aprendem de Maria, extremamente discreta nas palavras, o segredo das lágrimas que Lhe escorrem silenciosa e abundantemente do Seu rosto, ao contemplar o Seu Filho na Cruz. Sim, porque a Cruz não é fim de linha, mas porta que se abre definitivamente para a vida. Não é para entender, mas contemplar. Agradecer. Adorar. P. Fausto in Diálogo 1652 (Domingo de Ramos na Paixão do Senhor – Ano...

Learn More

Quem se atreve ?

  Para Jesus a pessoa nunca perde a dignidade, apesar do seu pecado, mas é o sofrimento o que mais o aflige. Assim mostra o episódio do Evangelho de hoje. Diante de uma mulher apanhada em adultério, Jesus não a julga, não a condena, olha-a e comove-se com o sofrimento e a angústia de quem, apanhada em flagrante, sabe que não lhe vão perdoar. Ao seu redor, com os bolsos cheios de pedras, todos se dispõem ao linchamento desta mulher frágil e pecadora. Para cumprimento da Lei. Jesus, que não veio para condenar o mundo e tantas vezes disse que a alegria de Deus está em perdoar… levanta-se, e, sem negar o valor da lei, olhos nos olhos, lança a todos o mais radical desafio: “Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”. Os que passam a vida a criticar e se dispõem sempre a condenar, os que vêem melhor o argueiro na vista dos outros que a trave nos seus olhos, os religiosos e cumpridores zelosos da lei mas em situação de incumprimento incorrigível dos deveres de justiça, de verdade, de solidariedade…, todos acusavam e se acotovelavam para fazer justiça. “Aproximam-se os dias solenes da paixão salvadora e da ressurreição gloriosa”. Aproveitemos este tempo de Graça para deixar cair as pedras que temos nas mãos, esvaziar os bolsos daquelas que queremos atirar aos outros e deixemos que Deus nos arrume o coração, para celebrarmos na santidade as próximas Solenidades Pascais. P. Fausto in Diálogo 1651 (V Domingo da Quaresma – ano...

Learn More

Haja Festa !

  Este já é o quarto Domingo da Quaresma e os apelos à conversão têm sido numerosos. Desta feita, porém, Jesus, em resposta às críticas pela proximidade e convívio que mantinha com os publicanos e pecadores, brinda-nos com uma história, a mais bela e comovente das que contou em toda a Sua pregação. Numa página, numa apenas, Jesus, magistralmente, em palavras simples, dá-nos conta da Sua missão, revela as profundezas do coração misericordioso e terno de Deus e descreve com realismo o limite a que a história libertina e vagabunda pode levar um homem. Uma Maravilha! O personagem central da história contada no Evangelho de hoje é o de um pai que ama incondicionalmente os seus filhos, respeita os seus projectos de vida e aguarda sempre com infinita paciência a ocasião para lhes demonstrar o seu amor compreensivo, terno e misericordioso. É um pai que conhece bem os filhos, e, apesar de discordar das suas opções de vida, não os julga nem absolve, não repreende nem castiga, não faz contas às lagrimas vertidas e faz festa rija quando vê, finalmente, a família reconciliada e feliz. É um pai que mantém sempre a porta de casa aberta para acolher e que corre ansioso ao encontro dos filhos, para lhes demonstrar toda a alegria e ternura do seu amor. É assim que Jesus nos revela Deus, que nos ama sem lógica e sem medida. Excessivo em ternura e misericórdia, este Deus não será nunca compreendido e aceite pelos fariseus de qualquer tempo, mas é o Único e Verdadeiro. É o nosso Deus! O Deus de Festa! P. Fausto in Diálogo 1650 (IV Domingo da Quaresma – Ano...

Learn More

“Se não vos arrependerdes…”

  Sempre ao longo da história aconteceram fenómenos que deixaram rastos profundos de destruição e morte. Agora, porém, a sua frequência e violência são de tal modo notórias, que nos aconselham a levar ainda mais a sério o alerta de Jesus no Evangelho deste domingo, porque é cada vez mais clara a mão do homem neste rosário doloroso de acontecimentos, que afectam a humanidade. Terá Deus perdido o controle das forças cósmicas ou gozará em tornar mais infernal a vida dos homens? Ter-se-á zangado connosco e apressado o calendário na execução de penas a infligir à humanidade? Nada é mais errado. O desabamento da torre em Siloé ou das Gémeas em Nova York, os ciclones, as secas, e muitos outros fenómenos que afetaram ou afetam dramaticamente a humanidade, não podem ficar apenas no rol noticioso das catástrofes, mas devem ser um apelo forte à nossa conversão. Na verdade, se o homem não arredar caminho, se não respeitar mais a vida e a natureza, se não se tornar mais solidário e construtor de justiça e de paz, e, sobretudo, se apostar num mundo à margem de Deus, esta casa comum, que é a nossa terra, vai-se desmoronando, com consequências cada vez mais dramáticas. E o alerta de Jesus está no Evangelho de hoje: “se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante”. O que nos vale é a paciência infinita de Deus, que aguarda a nossa conversão e “passa a vida” a consolar-nos, a limpar as nossas lágrimas e a manter viva a nossa esperança. P. Fausto in Diálogo 1649 (Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano...

Learn More

Desafios da Quaresma… [2]

No 2º Domingo da Quaresma é o Evangelho da Transfiguração que nos ilumina. Com Pedro, João e Tiago, também nós subimos ao monte, para acompanhar Jesus na oração, e “enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente”. Tudo era luz e beleza, e era tão intensa a felicidade, que Pedro desabafou: “Mestre, como é bom estarmos aqui”. Não ficámos, porém, muito tempo, porque uma nuvem escura e densa nos devolveu à realidade e obrigou-nos a descer à planície. E Jesus veio connosco. Na vida há momentos de tudo, de descida, de sofrimento e de deserto, mas também de exultação, de entusiasmo, de conforto, quase de plenitude, mas Jesus ensina-nos que, em qualquer circunstância, só a Oração e a Escuta, tornando luminosa a existência, apesar de tantas vezes dispersa, corrida e sofrida, nos devolvem a serenidade ao rosto, a limpidez aos olhos e misericórdia ao coração. Todos estamos em processo de transfiguração que só acaba quando Deus entender, porque se realiza no tempo da nossa existência, vivida em chave de peregrinação em crescendo de intimidade com Deus e de comunhão com os outros. O jejum, a oração e a esmola continuam a ser, em síntese, os desafios comuns que a Igreja faz, há séculos, para se viver o tempo santo da Quaresma. P. Fausto in Diálogo 1648 (II Domingo da Quaresma – Ano C)...

Learn More