Na borda do poço…

    O encontro de Jesus neste domingo não é com fariseus, saduceus ou doutores da lei, homens instruídos e influentes, mas com uma mulher, samaritana, sem grandes letras, e de vida sombria e castigada. Não era de doutrina o assunto de conversa, mas simplesmente de água, de que ambos tanto necessitavam. No caminho longo e penoso para Jerusalém ficava o Poço de Jacob, perto de Sicar, em pleno coração da Samaria, verdadeira graça, aproveitada pelos passantes para matar a sede. Assim aconteceu hoje com Jesus que, sentado na borda do poço, aguardava pacientemente a chegada de alguém com um balde, para se poder saciar. Era meio dia, o sol queimava e nada previa o encontro de Jesus com uma samaritana. O encontro foi admirável porque, a partir dum simples pedido de água para beber, Jesus fez jorrar no coração daquela mulher, ressequido pela vida, uma tal sede de “Água Viva”, que a tornou apóstola junto dos seus e animadora da primeira comunidade de “adoradores do Pai”, em terra estrangeira. Verdadeiro mestre em humanidade, Jesus oferece-nos neste encontro o mais completo e actual manual de procedimentos, capaz de tornar fraterna e feliz, apesar das diferenças, a nossa relação com os outros. P. Fausto in Diálogo 1692 (III Domingo da Quaresma – Ano...

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“Escutai-O”

No Domingo passado vimos Jesus só, e com fome, a ser tentado pelo diabo, em pleno deserto; hoje vêmo-LO no alto do monte, resplandecente e acompanhado por Moisés e Elias, com um rosto de tal modo deslumbrante, que levou Pedro a desabafar: “Senhor, como é bom estarmos aqui”. É o mesmo Jesus em ambas as situações. Também temos momentos de tudo, de euforia e tristeza, de solidão e companhias, de aridez e fervor, de medos e tentações, mas nada disto, porém, é estranho a Jesus, porque a nada disto se quis dispensar, para nos ensinar a lidar mesmo com os momentos mais delicados da vida. A Quaresma mostra-se, então, para todos, um tempo privilegiado de conversão, de transfiguração, processo lento, nem sempre ascendente e linear, só possível na medida em que aprendemos com Jesus a Escutar a voz de Deus e obedecermos, como Ele, à Sua vontade. É isto mesmo que nos diz hoje a voz vinda do Céu: “Este é o meu Filho muito amado. Escutai-O”. Não se trata de um convite. É uma ordem, porque, só escutando “o Filho muito amado”, fazemos nosso o seu caminho, sem medos, apesar das dificuldades no processo de transfiguração permanente a que Deus nos desafia todos os dias, mas especialmente em cada Quaresma. P. Fausto in Diálogo 1691 (II Domingo da Quaresma – Ano...

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De novo a Quaresma !

Depois do carnaval entramos na Quaresma! Para muitos cristãos a Quaresma está apenas ligada ao jejum e imposição das cinzas, logo no primeiro dia, e à abstinência de carnes às sextas-feiras. Alguns, cada vez em menor número, também a ligam à obrigatoriedade de confissão anual. Mas a Quaresma é mais que isso. Não são apenas 40 dias que precedem a Páscoa , alguns de “dieta obrigatória”, mas dias privilegiados, que nos permitem arrumar o coração e aprender com Jesus a escolher sempre Deus e a fazer o que Ele quer. O Profeta Joel fala mesmo em tempo para rasgar o coração e não os vestidos… E a Igreja, Mãe e Mestra, continua a dizer-nos que a Oração, o Jejum e a Esmola, parecendo formas do passado, continuam a ser sólido tripé de um processo permanente de renovação pessoal e familiar, indispensável para prepararmos a Páscoa do Senhor. E não temos tempo litúrgico mais propício que a Quaresma. Vamos, assim, aprender as lições do Mestre que, no deserto, nos desafia a uma maior intimidade com Deus, a viver o dia a dia com moderação e simplicidade, sem excessos de qualquer natureza, e a descobrir nas Obras de Misericórdia as formas mais criativas e concretas para o cumprimento do dever da esmola. P. Fausto in Diálogo 1690 (Domingo I da Quaresma – Ano...

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Atenção aos verbos !

  De tão extensa e complexa, a matéria do “Sermão da Montanha” é faseada pelo Mestre, para que todos, sem desanimarem, a possam assimilar. É um processo permanente de renovação de coração para conjugar alguns verbos, como amar, dar, oferecer, emprestar, que, embora no imperativo, não são ordens para cumprir, mas portas generosas que indicam os caminhos capazes de quebrar qualquer espiral de violência. Quando Jesus diz para não resistirmos ao homem mau ou oferecermos a esquerda quando nos batem na direita ou amarmos os nossos inimigos e orarmos por aqueles que nos perseguem… não quer fazer de nós discípulos sem personalidade e apoucados ou pessoas felizes por sermos humilhados e espezinhados, nada disso, mas tão só lembar-nos os mecanismos mais eficazes em desactivar toda a espiral de vingança entre pessoas, nações e o próprio cosmos. Porque a violência produz sempre mais violência. Se então nos contentarmos em conjugar o verbo retribuir, não passamos de pagãos, apesar de muito religiosos. E o mesmo se passa, se não ajudarmos os filhos e os netos a descobrirem que no verbo amar está o segredo da felicidade, e o princípio estruturante de uma sociedade humana e feliz que todos desejamos, e que temos obrigação de construir, por sermos discípulos de Jesus Cristo. P. Fausto in Diálogo 1689 (VII Domingo do Tempo Comum – Ano A)...

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Palavras sem Tempo !

  Se atendermos à linguagem, parece que Jesus se levantou hoje de mau humor. A sua proposta é clara e radical. Não há meios termos ou respostas parciais em matéria obrigatória: “ouvistes o que foi dito… Eu, porém, digo-vos…” E não vale queixar-se ao Mestre que o sumário é grande, porque depressa nos responde que não dispensa nada da matéria anterior, ao dizer-nos como então: “se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus”. É o próprio Mestre que diz que veio para aperfeiçoar quanto estava escrito, ao libertar a Lei dos abusos e interpretações farisaicas e insistir no primado da Caridade para com Deus e para com o próximo. A esta luz é santo não o que se contenta meramente em cumprir a lei, mas quem faz o que deve com amor. No Evangelho de hoje parecem-nos duras e carregadas as palavras de Jesus, mas, por tão humanas, estão ao alcance de todos para sermos felizes, porque “quem quer o que Deus quer tem tudo quanto quer”. É essa felicidade que Jesus propõe em palavras que, parecendo-nos exageradas e radicais, não deixam de ser palavras de Vida Eterna. P. Fausto in Diálogo 1688 (VI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Vós sois…!”

  O Evangelho deste domingo contém afirmações surpreendentes a que, convenhamos, ainda não estamos habituados: “Vós sois o sal da terra… vós sois a luz do mundo”. Jesus diz “Vós sois…” e não vós deveis ser… ou esforçai-vos por ser… São afirmações e não elogios, que responsabilizam particularmente os baptizados, porque, continua o texto, “se o sal perder a força, com que há-de salgar-se?… Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens”. E quanto a sermos luz? De facto, somos luminosos, os mais luminosos entre todas as criaturas, mas a nossa luz não é própria, porque a recebemos de Deus, e podemos, sem perder a nossa dignidade de criaturas e filhos, deixar de iluminar os nossos ambientes de vida. Importa que cada um de nós, responsavelmente, saiba descobrir como há-de ser luz, pois, se a maneira como vivemos não orienta para o bem e para Deus, arriscamo-nos a ser como o sal estragado ou a luz debaixo do alqueire, porque nos tornamos insípidos, insignificantes e inúteis. P. Fausto in Diálogo 1687 (V Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Alegres e luminosos!

  Este ano, no 4° Domingo do Tempo Comum, celebramos a Festa da Apresentação do Senhor no templo, em Jerusalém, por seus pais, Maria e José. É festa da Luz, com benção de velas, que, acesas no Círio Pascal, hão-de traduzir a vontade de sermos luz na Luz, que é Jesus. E não há modo mais genuíno e radical de o fazer que viver as Bem-aventuranças. São o coração do Evangelho e a autêntica Carta Magna, que Jesus deixa aos homens, e não apenas aos cristãos, para serem Felizes. O velho Simeão intuiu este mundo novo inaugurado por Cristo, hoje apresentado no templo e reconhecido como Luz para todos os povos, e alegrou-se ao experimentar antecipadamente a felicidade de habitar num mundo, onde mais importante que ter riqueza ou poder, é ser misericordioso, puro, sincero, pobre, justo,… um mundo não de poderosos que disputam lideranças, mas de homens que promovem a solidariedade, a justiça e a paz. A Festa da Apresentação do Senhor é ocasião privilegiada para renovarmos a nossa Fé em Cristo, Luz para o mundo, cujos cantos, por mais recônditos, se tornarão, com a nossa presença, mais luminosos, se vivermos as Bem-venturanças. E isto só se consegue, como recomenda o Papa Francisco, com evangelizadores alegres e cheios de vida. P. Fausto in Diálogo 1686 (Festa da Apresentação do Senhor (4ºDTC) – Ano...

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Ser de Cristo

  Apresentado por João Baptista, no deserto, Jesus não perde tempo, e depressa O vemos, sem receios, a dar voz ao que vinha: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus”. Não é no templo de Jerusalém que inicia a sua pregação, nem mesmo na sinagoga da sua terra, mas fora e em terras adversas, sem a segurança de assembleias dispostas à escuta, nem o conforto de espaços familiares. Era na rua ou à beira-mar, e a pessoas anónimas, que dirigia a Palavra. Assim aconteceu hoje, para os lados de Cafarnaúm, onde encontrou pescadores, uns em plena faina de pesca e outros, em terra, a consertar as redes. E chamou-os. E todos deixaram tudo e seguiram-nO. Foi intensa e provocante a proposta, decidida e corajosa a resposta ! A partir de agora, veremos Pedro e André, João e Tiago e os outros que, entretanto chamados, disseram também sim ao chamamento de Jesus, para se inscreverem na Sua escola. E todos foram assíduos. E todos, excepto um que desistiu, aprenderam que pertencer a um grupo ou seguir tal tendência é legítimo e compreensível; mas sê-lo de maneira exclusiva, a ponto de não aceitar os outros ou de não os reconhecer, é dar a pessoas ou a ideias um valor absoluto, que só a Cristo pertence. P. Fausto in Diálogo 1685 (III Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Ainda que seja deserto !

    Com o Baptismo, Jesus inicia um período curto mas intenso comummente chamado vida pública. Se até agora era em Nazaré e em família que decorriam os seus anos, a partir do encontro, no deserto, com João Baptista, o horizonte geográfico alarga-se e os laços familiares, continuando a ser importantes, deixam de ser determinantes. Esperam-nos momentos de alegria e de tensão, de encontros e desencontros, de banhos de multidão e noites de oração a sós, dias desgastantes e momentos criativos e salutares de lazer. Tudo faz parte deste período muito curto, mas intensamente vivido por Jesus, que vamos revisitar, nos Domingos do Tempo Comum. Preparemo-nos, porque o Mestre tem Palavras de Vida Eterna, que não convém esquecer. Talvez por isso, enquanto houver mundo, a voz de João Baptista nunca se há-de calar, para indicar o Único que vale a pena ouvir e seguir, Jesus Cristo, “o Cordeiro de Deus”. P. Fausto in Diálogo 1684 (II Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Baptizados e Cristãos !

  O tempo da meninice, adolescência e juventude de Jesus já lá vai. Doravante percorre aldeias e cidades, calcorreia caminhos e encontra-se com multidões. É a vida pública. Hoje, porém, há um encontro muito especial no deserto entre dois primos, que primam pela humildade. Surpreendido por ver Jesus na fila dos penitentes, João Baptista exclama “Eu é que preciso de ser baptizado por ti e Tu vens ter comigo?”. E a resposta de Jesus, sem comentários nem explicações, é apenas “deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça”. E João, ao ministrar o baptismo de purificação a Jesus, no rio Jordão, torna-se testemunha qualificada da Epifania Trinitária de Deus. E assim começa a vida pública de Jesus. A voz, vinda do Céu, que declara Jesus “o Filho muito amado”, é a mesma voz que, mesmo sem se ouvir, também nos reconhece, no dia do nosso Baptismo, Seus filhos muito amados. Amados com o mesmo amor, intensidade e ternura, com que Deus Pai ama Jesus. Amados imerecida e sempre gratuitamente, mesmo quando viramos costas e nos afastamos de Deus. É esta Boa Nova, que nos dá tanta alegria e conforto, que importa acolher, agradecer, celebrar e viver na fidelidade, porque o caminho para nos realizarmos como Filhos de Deus passa pela nossa fidelidade à Palavra de Cristo. Só assim é que merecemos o nome de cristãos. P. Fausto in Diálogo nº. 1683 (Festa do Baptismo do Senhor – Ano...

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