Despedida

Desta vez foi. Os discípulos já estavam habituados aos encontros com o Ressuscitado em cada domingo. Foram momentos surpreendentes e bem aproveitados para refrescar a memória, esclarecer dúvidas, limpar lágrimas e arrumar o coração. Ao contrário das outras vezes, porém, desta, deixou trabalho de casa: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado”. Jesus não ensinou um guião doutrinal, não deixou manual de instruções para conquistar o poder ou converter o coração, não inventou qualquer varinha mágica, não deu chave de solução para os problemas e inquietações que afectam cada homem e a sociedade de cada tempo, deu apenas aos discípulos a missão de pregar o Evangelho. Ontem e hoje, pregar o Evangelho consiste fundamentalmente em anunciar que Deus ama a todos, quer-nos felizes e não desiste de ninguém. Esta é a Boa Nova que importa fazer chegar ao coração dos homens de todas as latitudes e culturas. Hoje cabe-nos fazê-lo. Alguns pela palavra e todos pelo testemunho. É o desafio de Jesus na Solenidade da Sua Ascensão. P. Fausto in Diálogo 1609 (Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano...

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Sem medida…

  Prestes a despedir-se, Jesus, neste Domingo, o VI da Páscoa, foi longe demais. “É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei”. Mais tarde, Santo Agostinho dirá que Jesus apenas quis dizer que “a única medida do amor é amar sem medida”. A fasquia está no máximo, para além de todos os limites. A fasquia é o próprio Deus. Nunca Jesus ousou desafiar a tanto, a tanto que não é possível atingir à frágil natureza humana. Apesar de tudo, não retira uma palavra e repete categoricamente: “o que vos mando é que vos ameis uns aos outros”. O específico do cristão não é, então, amar, porque disso fala e faz toda a gente e de muitos modos. O específico dos cristãos é amar como Cristo. Amar a todos, sem escolher rostos, nomes, culturas ou religiões. Amor desinteressado, sem restrições, inclusivo.“Puro dom, pura graça, pura entrega”. E isto Só Deus! Hoje, Jesus diz-nos, em jeito de despedida, que é assim que quer que os seus discípulos vivam, se querem ser fiéis, felizes e luminosos. Não nos diz que é fácil, mas compromete-se a estar sempre do nosso lado, apesar dos nossos limites e falhas. Ousemos nós, todos os dias, pôr a fasquia sempre mais alta. P. Fausto in Diálogo 1608 (VI Domingo da Páscoa – Ano...

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Lições do campo

Há dias fui a Fátima, e como as viagens de carro dão para muita coisa, rezei e cantei e saboreei a paisagem fugaz do caminho. Reparei em áreas de vinha bem cuidada e direitinha e já com talos à vista, a dar esperança de boa colheita. Vi também algumas vinhas velhas e abandonadas, de longos e adelgaçados ramos a rastejar, entrelaçados pelo chão. Vinhas cansadas, tristes e doentes. Neste Domingo, o V da Páscoa, Jesus convida-nos a um passeio pelo campo e visitar uma vinha. Simples no seu modo de pensar e dizer, Jesus recorre ao campo para nos falar de coisas muito importantes. A uma sociedade fluída, consumista e individualista como a nossa, Jesus declara: “Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim… sem Mim nada podeis fazer”. Palavras ao arrepio do mundo de hoje, mais dado à reivindicação de direitos que ao assumir de deveres, mais ocupado na busca do sucesso individual e imediato do que esforçado na fidelidade a compromissos, mesmo que apenas assentes na honra e na palavra… Num mundo assim, torna-se difícil compreender a poda e outros cuidados indispensáveis à saúde da vinha, para que dê boas e saborosas uvas. “Para bom entendedor meia palavra basta”. Jesus, porém, ao dizer-nos tudo tão claramente, convida-nos a levar a sério a Sua palavra. P. Fausto in diálogo 1607 (V Domingo de Páscoa – Ano B)...

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“Eu sou o Bom Pastor”

  O Domingo IV da Páscoa é conhecido por Domingo do Bom Pastor e Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Compreende-se tal associação das palavras com que Jesus, várias vezes, Se identifica, no Evangelho deste domingo: “Eu sou o Bom Pastor”. Não um, mas o Bom Pastor. Celebrar Jesus com este título, é reconhecê-Lo como Único Salvador e dizer claramente que pretender construir à margem de Cristo é condenar-se ao fracasso. Neste tempo que Jesus dedica particularmente aos Seus discípulos, continua a dizer à Igreja e a cada um de nós: “Eu sou o Bom Pastor”. E cada vez mais é necessário ouvir a Sua voz, tantas e tão confusas são as vozes que nos chegam a cada momento e de todos os cantos. Nas contrariedades do tempo presente e na escuridão em que por vezes caminhamos, só em Jesus, o Bom Pastor, temos a certeza de que somos conduzidos por Deus, que nunca nos abandona ou engana. Este Domingo também é o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Sabemos que todos os cristãos são responsáveis na Igreja. Mas alguns, por vontade de Jesus, estão-Lhe intimamente ligados no Seu ministério de santificar, conduzir e ensinar. Oportuno é, pois, pedirmos sempre, mas particularmente hoje, ao Senhor, que continue a dar ao Seu Povo pastores segundo o Seu coração. P. Fausto in Diálogo nº 1606 (IV Domingo da Páscoa – Domingo do Bom Pastor – Ano B)...

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Caminho difícil !

  Celebramos o Domingo III da Páscoa e já são vários os encontros de Jesus com os discípulos. Mas as dúvidas mantêm-se e o medo, qual erva daninha, está longe de ser erradicado do coração. É verdade que O reconhecem, mas, incapazes de explicar as mudanças, deixam-se invadir pelo receio de algum fantasma. E não é para menos, porque Jesus é o mesmo que conheceram, mas é diferente, está transformado. Continua a ser Ele, mas é outro. Nem a saudação habitual, que o Ressuscitado usa quando aparece, lhes traz sossego e Paz! “Não sou um espírito, um fantasma…, tocai-me e vede… tendes aí alguma coisa para comer?” E, mesmo assim, com a alegria a encher os olhos e a admiração estampada no rosto, nem querem acreditar! É demasiado. A paciência de Jesus, porém, não se esgotou e ainda não deu por terminado o tempo para fazer dos discípulos não apenas mestres, mas testemunhas corajosas e fiéis da Ressurreição. Para tal não era apenas necessário refrescar–lhes a memória, mas, sobretudo, arrumar-lhes o coração. E isso leva o seu tempo! P. Fausto in Diálogo nº1605 (III Domingo da Páscoa – Ano...

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Oito dias depois…

  De portas trancadas, foram dias de sobressalto. No coração dos discípulos pouco espaço havia para tantos e tão confusos sentimentos. O medo e a vergonha, porém, eram dominantes. Medo dos judeus e vergonha pela traição de um, negação de outro e cobardia de todos. Oito dias depois veio, de novo, Jesus, estando as portas fechadas! A sua presença não intimida, o seu olhar brilhante não acusa e amigavelmente saúda todos os presentes: “A paz esteja convosco”. Ao canto da sala, cabisbaixo, está Tomé. Quer ter a certeza de que não é vítima de histeria colectiva ou da imaginação doentia de alguém. Exige ver e tocar. Com paciência infinita, Jesus aproxima-se, mostra-lhe a marca fresca dos cravos nas mãos e o golpe profundo de lança no peito e convida-o à prova exigida. “Meu Senhor e meu Deus!”, reconhece Tomé, finalmente rendido. No rosto de Jesus não há sinais de repreensão ou impaciência, mas de respeito, compreensão e de amor. A Misericórdia venceu e convenceu! P. Fausto in Diálogo 1604 (II Domingo da Páscoa – Divina Misericórdia – Ano...

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“Não vos assusteis !”

  “Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou, não está aqui. Não vos assusteis”, disse o jovem, de túnica branca, às mulheres, que, ainda de noite, foram ao sepulcro, onde tinham depositado à pressa o corpo de Jesus. O encontro imprevisto com um desconhecido assustou-as, mas não as demoveu de entrarem no sepulcro e examinarem as ligaduras no chão e o lençol dobrado. Mas do corpo procurado, nem sinais. Fora reinava o silêncio e o cheiro a primavera florida! Algo estranho se passara naquela noite, que fez remover a grande pedra e desaparecer o corpo de Jesus. Um misto de sentimentos enchia o coração das mulheres, que, sem saber que fazer e cada vez mais assustadas, voltaram para casa a correr. Não era, porém, possível, calar a experiência da madrugada! Aos discípulos e a Pedro chegou logo a notícia. E começou o alvoroço que perdura e nos faz cantar, com toda a alma, dois mil anos passados, “Cristo Ressuscitou, Aleluia!”. Que a certeza e a alegria da Ressurreição nos tornem testemunhas credíveis de Deus, que, em Cristo, Se revela cheio de Amor e rico de Misericórdia para com a humanidade. Uma Santa Páscoa para todos. P. Fausto in Diálogo nº1603 (Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor – Ano...

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Entre hossanas e vaias !

  Começamos hoje a Semana Santa, com um acto litúrgico que nos pode desconcertar: se, por um lado, celebramos o triunfo de Cristo, entre hossanas e com palmas, evocando uma manifestação vigorosa e genuína do povo, por outro, na proclamação do Evangelho, somos já introduzidos na celebração do Mistério Pascal. A dois milénios destes acontecimentos, estamos a celebrar o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, o primeiro dia de uma semana muito intensa, a Semana Santa e também “Maior”. Uma semana em que não faltam palmas e hossanas, vaias e impropérios, chicotadas e beijos, traidores e cobardes e também lágrimas de vergonha e de arrependimento.Uma semana original e única! Teremos, sobretudo a partir de quinta-feira, ocasião para viver, em pormenor, os momentos mais significativos e importantes da História da Salvação. Não percamos esta oportunidade, que, sendo única em cada ano, pode ser a última da nossa vida. Não deixemos que circunstâncias, meteorológicas ou outras, nos impeçam de viver a riqueza de todas as celebrações do Tríduo Pascal. Porque são os “Dias Sagrados da Paixão salvadora de Jesus e da Sua Ressurreição gloriosa”, merecem ser vividos por todos, com amor e gratidão. P. Fausto in Diálogo 1602 (Domingo de Ramos na Paixão do Senhor – Ano...

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“Se o grão de trigo não morrer…”

Há tempos apareceu numa parede lateral da nossa Igreja, com escândalo para alguns, a frase: “Deus morreu”. Custe ou não, ainda lá está, porque a sua limpeza tem-se revelado muito difícil. Tal afirmação, porém, não pode abalar a nossa Fé, envergonhar-nos ou impôr-nos o silêncio, bem pelo contrário, porque Jesus, Filho de Deus, gerado e nascido de Maria, padeceu e morreu, mas ressuscitou e está vivo. É por isso que continua a incomodar todos quantos Lhe passaram a certidão de óbito. Para uns é ponto final parágrafo, para nós a frase deixada na parede da Igreja é a mais vigorosa prova do amor inexcedível de Jesus, verdadeiro Deus e Homem, a convidar–nos incessantemente à gratidão. Hoje, 5° domingo da quaresma, vamos encontrar Jesus, em Jerusalém, no templo. Poucos dias faltam para a sua paixão e morte. O seu discurso é grave e pausado, e no seu rosto não há sinais de medo, apenas determinação em cumprir a vontade do Pai. Já não tem muitos ouvintes, é certo, mas àqueles que O querem conhecer pessoalmente, não deixa de avisar que “se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer dará muito fruto”. Ainda que não entendam o alcance destas palavras, elas ficam como denúncia vigorosa de projectos de vida sem sentido, de aparências e futilidades,… Porque inúteis, o seu destino é a falência. P. Fausto in Diálogo 1601 (V Domingo da Quaresma – Ano...

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Apesar de tudo…

  Francamente, se olharmos o nosso mundo desde a Síria, e restantes países do Médio Oriente, à África, passando por outros continentes, vemos que a fome, a violência e a guerra têm as mãos livres. Formas vis e subtis de exploração humana e de violência inimaginável, disseminadas pelos quatro cantos da terra, acrescidas ao peso da cruz que cada um carrega, podem roubar-nos a força para a alegria e reduzir o horizonte da esperança. E é neste mundo, assim, que a Igreja nos convida a celebrar o Domingo da Alegria. Só Deus nos faz rebuscar nos fundos do baú da memória razões para cantarmos a antífona de entrada da Missa de hoje: “Alegra – te, Jerusalém!… Exultai de alegria”. Por muito que nos custe a realidade nua e crua, a alegria é possível, mais, é necessário e urgente dar-lhe rosto e voz. E ninguém mais e melhor que os cristãos poderá fazê-lo. Não ignorando a realidade, temos a graça de ancorar a nossa alegria no amor incansável de Deus pelos homens, que, apesar das suas “infidelidades e costumes abomináveis”, não demovem Deus do Seu projecto de salvação. É isto que faz de nós incorrigíveis optimistas! P. Fausto in Diálogo 1600 (IV Domingo da Quaresma – Ano...

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