A caminho de Jerusalém, Jesus cruza-se com muita gente, gente de todas as categorias sociais, culturais e religiosas. Para todos há sempre uma palavra, um gesto, uma atenção, e de todos se torna próximo, mesmo que a lei imponha distâncias, como hoje, com um grupo de dez leprosos. “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós”, gritam em coro. “Ide mostrar-vos aos sacerdotes”, responde prontamente Jesus. E no caminho ficaram limpos da lepra. Eram dez, mas apenas um, que era samaritano, voltou, para louvar a Deus e agradecer a cura. Aos nove miraculados apenas interessava a cura física, que lhes permitia de novo regressar ao convívio e retomar a vida normal. Bastava-lhes a saúde para serem felizes. Ao samaritano não. Por isso, é curado física e espiritualmente. É o único que de curado passa a salvo: “Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou”. Virado do avesso, este ex-leproso mostra-nos que a felicidade não vem de coisas, nem mesmo da saúde, é questão de relação com os outros e consigo mesmo. Mas também com Deus. E esta adquiriu-a finalmente no encontro com Jesus. P. Fausto in Diálogo nº1670 (XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreSão tantos os baptizados que dizem ter muita fé ou, pelo menos, fé suficiente, que o pedido de uma fé maior, feito hoje pelos apóstolos a Jesus, parece infantil. Mas não é. A fé não é coisa de quantidade e de peso, mas de qualidade e relação. Não se compra, não se troca, não se exige, não se reivindica; apenas se acolhe, porque é dom e mistério, mas pode morrer se não for alimentada. Sem confiança não há amizade, não há amor e também não há fé. Como seria possível viver sem confiar em alguém? Humanizamo-nos pelas relações de confiança com os outros e com Deus. Quando alguém diz “eu tenho muita fé” ou “eu cá tenho a minha fé” não se refere certamente à fé, como dom de Deus ou virtude teologal, mas apenas a uma crença em algo ou alguém…, porque a Fé, virtude teologal, tendo na base a confiança em Deus, introduz-nos num processo de intimidade, que, em crescendo, nos leva ao compromisso e à fidelidade. Sempre com riscos e às vezes com dúvidas. Assim acontece com o amor e também com a Fé. Ter fé não é dizer com autoridade a uma árvore: “arranca-te daí e vai plantar-te no mar”, coisa que Jesus nunca fez, mas é algo que nos leva a ocupar no dia a dia o nosso posto, a cumprir os nossos deveres, a cultivar os nossos talentos para melhor servirmos, pondo tudo nas mãos de Deus, sem pretensões, expectativas ou esperanças. Sem precisarmos de louvores ou recompensas. Sem medo do castigo ou das sanções como servos inúteis. Afinal, o que nos parece infantil no pedido dos apóstolos é o que mais precisamos de pedir a Deus, para sermos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo. P. Fausto in Diálogo 1669 (XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreJesus continua a apresentar-nos parábolas, a que jamais o tempo tira o brilho e a actualidade. Desta feita é a parábola de um homem rico, que vivia “à grande e à francesa”, indiferente ao que se passava à sua volta. Eram tantos os banquetes que dava e tão preenchida tinha a vida, que nem tempo tinha para dar pela presença de um pobre faminto e doente, mas com nome, que jazia à porta da sua quinta. Felizmente o tempo corre para todos e a hora de ambos chegou. Mas com desfechos diferentes. A diferente sorte final do rico não se deve à sua condição social ou financeira, porque não se condena pelo facto de ser rico, mas porque dispensa Deus do seu projecto de vida e se nega a partilhar um pouco que seja dos seus bens com o pobre, que está a morrer de fome à sua porta. O rico não faz mal a Lázaro. Apenas o ignora. O seu pecado é a indiferença. É o representante acabado de uma sociedade de consumo e egoísta. Há pecados de acção, mas, a esta luz, pode-se continuar a dizer que o mal maior que podemos fazer é não fazer o bem. P. Fausto in Diálogo 1668 (XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreO povo diz que “anda meio mundo a enganar outro meio”. Mas há-de chegar o momento de prestar contas. Todos e cada um. E agora? Que vale mais, o que se acumulou ou o que se partilhou? Na óptica de Deus, na hora da verdade, o que se tem não se leva, porque só tem valor o que se deu com amor. Jesus, na história que hoje conta, ao dizer que “não podemos servir a Deus e ao dinheiro”, não diaboliza a riqueza, mas chama a atenção dos discípulos de todos os tempos para a impossibilidade de termos na vida dois senhores ou “dois amores”. Quem “serve o dinheiro” procura acumular… faz contas e recontas, constrói celeiros maiores, põe alarmes e reforça as medidas de segurança para se acautelar. Ao contrário deste, quem aposta no “modo solidário de habitar o mundo” já serve a Deus, mesmo que não seja movido explicitamente pela fé. A esta luz, podemos, então, dizer que não são as riquezas que nos “levam ao céu”, mas o bem que fazemos com as riquezas que temos. E os cristãos, sabendo que “a fé sem obras é morta”, são duplamente responsáveis pelo bom uso dos seus bens. P. Fausto in Diálogo 1667 (XXV Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreLucas, o evangelista da misericórdia, brinda-nos com três parábolas genialmente contadas por Jesus e conhecidas de todos: a da ovelha tresmalhada, a da dracma perdida e a do pai bondoso, conhecida também por parábola do filho pródigo. Qualquer delas reflecte preciosamente o rosto e o coração de Deus, que nos ama com paixão, de forma ilógica e para muitos injusta, excessiva e ilimitada. A vida de muitos cristãos, porém, não reflecte esta boa nova trazida por Jesus Cristo. E nós, qual o Deus que temos no coração? O Deus distante, frio e calculista, ou o Deus próximo, sorridente e compassivo…? Que rosto de Deus gostaríamos de encontrar um dia, “no nosso dia”…? O do tribunal, apenas disponível para absolver ou condenar, ou o da festa,surpreendidos com a grandeza da sua misericórdia? Cristo encontrou no seu tempo dois grupos de pessoas: os puritanos (escribas e fariseus) e os outros (pecadores, ignorantes da lei, pobres, publicanos, prostitutas…) e em nenhum momento se colocou no primeiro grupo como juiz do segundo. Mas é o que muitas vezes fazemos, esquecendo facilmente, ainda que o digamos sempre no início de cada Eucaristia, de que todos somos pecadores, apesar de chamados à santidade. P. Fausto in Diálogo nº1666 (XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreHá perguntas e perguntas, e esta é uma das sérias para qualquer homem que se preze: “E quem é o meu próximo?” Quem pergunta é um doutor da lei, a quem Jesus responde com uma das mais belas páginas do Evangelho, em jeito de parábola. Para os judeus, apenas os laços de consanguinidade e de religião convidavam ao dever de assistência, sendo todos os demais “estranhos”… Ora, é precisamente contra esta mentalidade, que Jesus quer chamar a atenção. O homem assaltado, ferido e roubado, é um indocumentado, sem nome, sem família, sem pátria, sem nada que o credencie. É apenas um homem, a quem roubam tudo e deixam “meio morto”, à beira do caminho; mas nem por isso, diz-nos Jesus, perde a dignidade própria de um ser criado à imagem e semelhança de Deus. O sacerdote e o levita olham-no e passam em frente, porque, mais importante que sujar as mãos e as vestes na ajuda à vítima, é preservar a sua pureza legal. E lá se vão, de passo apressado e consciência tranquila… Ao contrário, um samaritano passou junto do infeliz “e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão”. Faz tudo, tudo mesmo, livre de quaisquer preconceitos e, ainda por cima, com discrição e enorme generosidade. Uma sociedade em que a noção do outro é cada vez mais ténue e a distância entre o “meu mundo” e o resto é maior, facilmente se torna campo fértil para a indiferença e para a rivalidade, que matam a proximidade e solidariedade, que nos caracterizam verdadeiramente como humanos. P. Fausto in Diálogo 1665 (XV Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn More“Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias, nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho…” (Lc. 10, 3-4) Assim mesmo, sem tirar nem pôr! E os discípulos, dois a dois, lá se foram sem pão, sem bolsa, sem dinheiro, sem telemóvel… sem mesmo as coisas mais indispensáveis em qualquer saída. Leves e ligeiros, apenas confiados na força da Palavra e apostados na urgência da Missão. Nestas últimas semanas, somos particularmente provocados por Jesus com desafios que nos parecem pouco razoáveis e não ajustados à realidade, como os deste Domingo. A verdade, porém, é que a força do Evangelho e do Cristianismo não é questão primordialmente de organização e estratégia, e muito menos de dinheiro, meios, poder e números… É questão de coração, de disponibilidade e prontidão, de ardor e paixão dos discípulos de todos os tempos. Era isto mesmo que Jesus queria que os setenta e dois do Evangelho descobrissem. E é tão importante essa experiência, ao arrepio de toda a lógica empresarial e de sucesso, que Jesus a quer estender a todos os Seus discípulos, porque ninguém está imune da tentação do ter e do poder que torna acomodada, menos evangélica e mais insignificante a própria Igreja. P. Fausto in Diálogo 1664 (XIV Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreSegundo a Palavra de Deus deste XIII Domingo do Tempo Comum, a disponibilidade e a prontidão são as características fundamentais e comuns a todos os que Deus chama a uma missão especial. Exemplo claro é a vocação de Eliseu na 1°leitura e, a avaliar pela reacção de Jesus àqueles que desejavam segui-Lo, o grau de exigências do Evangelho não é menor. Outra coisa, hoje, não pede Jesus a quem chama, apesar da linguagem parecer radicalmente inoportuna e inadequada ao comum pensar a vocação. Na verdade, a radicalidade da proposta de Jesus é pouco convidativa, mesmo inaceitável para a grande maioria dos nossos contemporâneos; apesar de tudo, Jesus não retira uma vírgula ao que disse : “Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o Reino de Deus”. Só pessoas disponíveis e prontas entendem e são capazes de responder às exigências da Missão, numa sociedade cada vez mais “líquida”, como a nossa. E quando se fala em Missão, não nos referimos somente ao chamamento à vida consagrada, religiosa e secular, ou ao ministério ordenado, mas também à vida matrimonial, pois todas são caminho de santidade, incompatível com formas “light” de viver. Em tempo algum Jesus vai mudar a linguagem ou baixar a fasquia de exigência do chamamento, nós é que temos de mudar de vida. P. Fausto in Diálogo 1663 (XIII Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn More“Quem dizem as pessoas que eu sou”? A avaliar pelas respostas dos discípulos, vemos que Jesus está com níveis de cotação bem elevados. Mas não é isso o que pretende e não trabalha para as sondagens. Porém, o tempo de caminhada com os discípulos justifica já um exame, com apenas uma pergunta: “E vós quem dizeis que eu sou?” Aqui não valem as opiniões dos outros, as respostas dos livros ou as sínteses de doutrina, retiradas do fundo do baú da memória. A resposta a esta questão só pode ser dada “coração a coração”, desarmada e sem filtros. Assim aconteceu com Pedro. Como então, Jesus coloca hoje a mesma questão a cada baptizado: Quem sou eu para ti ? Mais uma vez não convence a resposta teórica de livros ou catecismos, mas tão só aquela pessoal, imperfeita, de cada um, diferente da de Pedro em que se apoia a fé da Igreja. Para ser cristão, hoje como ontem, não basta decorar fórmulas e cumprir preceitos… mas entender o que Jesus diz “Se alguém quiser seguir-Me, renegue-se a si mesmo, pegue na sua cruz todos os dias e siga-Me”. E a questão não é procurar a cruz, porque ela nasce e vive connosco, mas integrá-la de modo sádio na nossa escala de valores. Numa sociedade tão obcecada na eliminação do sofrimento e na procura desenfreada do progresso, torna-se cada vez mais incompreensível esta linguagem e difícil o desafio, mas é o único que Jesus faz aos discípulos de todos os tempos. P. Fausto in Diálogo nº. 1662 (XII Domingo do Tempo Comum – Ano C) ...
Learn More“Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena”, como nos diz o discurso da última Ceia, hoje lembrado no Evangelho. Jesus não se refere, de certo, ao conhecimento de matéria obrigatória ainda por dar, mas à incapacidade humana de, por si mesma, abarcar o Mistério de Deus. De facto, “um só Deus em três Pessoas” é Mistério que se explica mas não se abarca, é realidade que nos transcende mas, apesar da nossa pequenez, não nos esmaga, antes envolve num Abraço de Amor infinito, de Ternura e de Misericórdia. Que Deus é Único já sabíamos há muito, mas o que Jesus nos revela é que Deus é Uno e Trino, não é solidão mas comunhão, não vive sozinho, centrado em Si mesmo, e de costas para os homens. É Comunidade, é Família de três Pessoas que, sem se anularem, complementam-se, têm a mesma natureza divina, o mesmo poder e majestade e é-Lhes devida a mesma Honra, Glória e Louvor. Mistério da Santíssima Trindade, Mistério de Deus Uno e Trino, perscrutado e acolhido no coração porque é Mistério de Amor, não se traduz em discurso mas na fidelidade ao Mandamento Novo. A esta luz o verdadeiro ateu não é o que diz não acreditar em Deus, mas o que não se esforça por criar laços, fazer pontes, promover a fraternidade, a justiça, a paz… É assim que o homem se realiza como ser criado à imagem e semelhança de Deus, porque, mesmo sem o saber, reflete verdadeiramente que Deus é Família Trinitária, Comunidade Plena, Amor Infinito… É este o Deus em quem acreditamos. P. Fausto in Diálogo 1661 (Solenidade da Santíssima Trindade – Ano...
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