Há muito que não aparecem os fariseus para uma discussão pública com Jesus, mas pelos vistos não desistiram, e hoje a questão posta é, como habitualmente, maliciosa, porque não há preocupação de conhecer a verdade, mas tão só de entalar o Mestre: “Pode um homem repudiar a sua mulher?” Jesus, como sempre, diz o que pensa sobre as questões, mesmo quando ardilosamente colocadas, e lembra-lhes que na família, segundo o projecto de Deus, entre homem e mulher, não há concorrência mas convergência, não há oposição mas complementaridade e comunhão, não há lugar a machismos ou feminismos mas ao respeito pelas diferenças e reconhecimento da comum dignidade, com iguais direitos e deveres. E os que assim não pensassem, concluía Jesus, tinham o coração duro e a mente perversa. E hoje seria diferente a resposta de Jesus? A igreja diz-nos que não. E não serão as dificuldades por que passam tantas e tantas famílias e as várias modalidades de (des)construção familiar existentes, a impedir a família de ser, segundo a vontade de Deus,”Igreja doméstica” e “comunidade de vida e de amor uno e indissolúvel”. O que vai além é da Misericórdia de Deus que cobre as nossas misérias e desvarios. P. Fausto in diálogo 1486 (XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreA tentação não é de agora, está entranhada na medula dos ossos. A tentação de separar as pessoas da nossa família, do nosso grupo, do nosso partido, da nossa condição social, da nossa paróquia… e as outras sempre existiu. E é especialmente contra isso que Jesus, no evangelho de hoje, quer prevenir os discípulos. “Mestre, nós vimos um homem que não nos segue a expulsar demónios em Teu nome. Como ele não nos segue procurámos impedir-lho”. O Senhor condena a intolerância, o espírito sectário, a defesa de privilégios e interesses por parte dos Seus, enunciando um princípio que nunca deveria ser esquecido pelos cristãos: “ninguém pode fazer um milagre em Meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós”. Ora aí está algo de que não podemos abdicar, sob pena de construirmos capelinhas e não Igreja, de termos grupos de pressão e não de comunhão, de fazermos das Paróquias quintas religiosas “do quero, posso e mando” (de clérigos e não só!) e não espaços de comunhão e reconciliação e de festa, numa palavra, sob pena de estiolarmos e pervertermos o mandato que Jesus confiou à Sua Igreja de combater todos os muros e ir a todos os cantos proclamar a Boa Nova do Amor Misericordioso de Deus. P. Fausto in diálogo 1485 (XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano B)...
Learn MoreNa sequência do domingo passado, Jesus, confidencia aos discípulos que o Seu futuro próximo vai passar pelo sofrimento e pela morte, mas que a última palavra é do Pai, que O há-de ressuscitar, três dias depois. A verdade, porém, é que o assunto, apesar de grave, não mereceu qualquer atenção por parte dos discípulos, porque o mais importante era garantir lugares influentes e próximos do poder e assegurar condições para carreiras brilhantes. Era sobre isso que discutiam uns com os outros no caminho! Chegados a casa, Jesus aproveita para lembrar aos discípulos um dos princípios fundamentais de que não abdica e quer ver aplicado na comunidade dos Seus amigos: “quem quiser ser o primeiro há-de ser o último e o servo de todos”. E chamando uma criança, abraça-a com ternura, como quem diz que o que importa não é o lugar que se ocupa, mas o amor posto naquilo que se faz, mesmo que seja sóbrio, pequeno e discreto… Não nos escandalizemos, porém, com os discípulos, porque replicamos frequentemente o seu comportamento. Ainda não há muito, diante da fotografia de um corpo de criança, sem vida, que o mar deu à praia, o mundo comoveu-se e estremeceu. Comoveu-se, mas pouco se adiantou. É preciso pôr em prática as lições que Jesus deixou aos Seus, se queremos fazer desta nossa terra um lugar de justiça e de paz. Quando os interesses pessoais, étnicos, religiosos ou de nação, falarem mais alto que o respeito pela vida e pelo bem comum, haverá mais muros e barreiras de arame farpado e menos acolhimento, ternura e humanidade. E também menos lugar para Deus. P. Fausto in diálogo 1484 (XXV Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreSe até agora, Jesus, na perspectiva de S. Marcos, privilegia o contacto com as multidões, não fugindo mesmo ao confronto com os seus opositores, parece fazer da catequese aos discípulos, a partir de hoje, o centro das suas preocupações. Jesus não quer gente como papagaios, dispensa jornalistas e não se deixa influenciar por comentários; quer saber dos Seus discípulos o que realmente pensam. Quer respostas pessoais e não decoradas: “E vós quem dizeis que Eu sou?” Passados dois mil anos, a pergunta continua oportuna, porque o cristão não pode ser mero repetidor de fórmulas, ainda que conformes à verdade, e para esta resposta não servem os livros nem os catecismos. Há-de ser a experiência pessoal com Cristo que nos leve a proclamar, pessoalmente e sem ambiguidades, como Pedro, “Tu és o Messias”. Quem é Cristo para mim? Que significado tem Ele para mim? Que lugar ocupa na minha vida? Estas são questões cuja resposta, sem vir em livros ou catecismos, devemos dar hoje a quem nos “perguntar das razões da nossa esperança”. Ser teólogo não é condição para ser discípulo de Cristo mas, sim, levar a cruz e segui-Lo, livre e fiel no serviço, até à morte. Querer fugir à cruz, além de lhe duplicar o peso, faz-nos incorrer no risco de trair a própria vocação e desdizer a nossa fé no valor redentor do sofrimento e morte do Senhor. P. Fausto in diálogo 1483 (XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreSabemos que o Senhor nos ama e nos quer felizes, e vai, de muitos modos, ao longo da história, revelando o Seu plano de salvação; mas às vezes esta convicção parece ficar limitada ao nível intelectual e por vezes até hipotecada pela crueza da realidade. A acção de Cristo no Evangelho de hoje mostra a solicitude e proximidade de Deus, que, com infinita bondade, delicadeza e respeito, mesmo sem nos apercebermos ou acreditarmos, olhos nos olhos, diz não apenas a quem sofre: “Effathá”, isto é, abre-te, levanta-te, liberta-te… E cada um de nós é que sabe o que na vida cega, desvia, paralisa, bloqueia!… Prestes a iniciarmos mais um ano, também Jesus a cada um de nós, segurando delicadamente a nossa cabeça nas suas mãos, nos diz com amor: “Abre-te”. Abre-te aos desafios e imprevistos de um novo ano apostólico, desata-te para ocupares o teu lugar, com esforço e fidelidade, na construção da comunidade, liberta-te para assumires as dificuldades e frustrações, mas também para viveres as alegrias e esperanças de quem semeia. Levanta-te e não tenhas medo. O ano não vai ser fácil, mas será, como sempre, de infinita Misericórdia. Disponhamo-nos, então, desde já, para os desafios que Deus hoje nos faz. P. Fausto in diálogo 1482 (XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreFoi dura e bela a experiência missionária feita pelos discípulos enviados por Jesus, dois a dois, no domingo passado! Exaustos mas felizes, vinham eufóricos pelos resultados. Jesus ouve-os com atenção, sem matar o entusiasmo e a alegria compreensíveis pelo êxito da missão nem juntar a voz ao coro dos que cantam vitória pelos sucessos obtidos, e arremata: “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”. O mais importante não era contabilizar os êxitos, mas levar os discípulos a confiar plenamente no Mestre e a fazê-los descobrir que na vida há que fazer as coisas com empenho e dedicação, com entusiasmo e… convicção, como se tudo dependesse de nós, sabendo embora que Deus tem sempre a última palavra. Se assim não for, corre-se o risco daqueles que fazem a festa, deitam os foguetes, recolhem as canas… e também as ilusões do festim. Fazer sempre tudo quanto se pode e aceitar a liberdade de Deus para fazer tudo o resto é lição que Jesus quer deixar aos Seus discípulos e que continua plena de actualidade. Jesus, hoje, não querendo pôr água gelada na fervura, convida os discípulos, e a nós também, a fazer assentar a poeira e reduzir o ruído que o sucesso frequentemente provoca, a preferir a eficácia à eficiência dos resultados da acção e a descobrir que seremos tanto mais eficazes, quanto mais dóceis, disponíveis e confiantes, sem medos nem meios, apenas ancorados na Graça de Quem nos envia e na força transformadora do Evangelho que nos cabe anunciar. O resto é acessório. P. Fausto in diálogo 1481 (XVI Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreA liturgia da Palavra continua neste domingo a mostrar-nos o interesse de Deus pelo Seu Povo, através da acção de homens que Ele livremente escolhe e envia para serem Seus mensageiros: Amós na primeira leitura e os Apóstolos no Evangelho. Depois de termos contemplado, nas últimas semanas, a figura de Ezequiel, assistimos hoje à vocação de Amós, que humanamente nada tem que o recomende para a missão confiada. Oriundo de família humilde, sem jeito nem estudos, sem horizontes nem outra ambição que cuidar do rebanho de outros e tratar das árvores do quintal, é o escolhido: “vai, que hás-de ser o profeta do Meu povo de Israel”. As dúvidas e resistências de Amós, compreensíveis e comuns na história de qualquer chamamento, foram superadas pela confiança em Deus, que sabe bem o que quer e capacita aqueles que chama e envia. A iniciativa, porque é sempre de Deus, confere ao profeta a liberdade, a independência e a capacidade necessárias para o desempenho da missão, cabendo-lhe apenas que seja fiel e corajoso, pobre e desprendido. O resto é das contas de Deus. Assim aconteceu com Amós e os Profetas, com os Apóstolos e com todos os que o Senhor, ao longo da história, escolheu. E ainda não desistiu nem cansou de chamar. Digam-no os Diáconos João Santos e Pedro Barros, ordenados na nossa Igreja Catedral, neste domingo, para a ordem dos presbíteros… P. Fausto in diálogo 1480 (XV Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreO Evangelho deste domingo mostra como a vida de Jesus, apesar de muitas vezes aplaudido e fervorosamente seguido, não é propriamente um mar de rosas, com passadeira vermelha, fanfarra e guarda de honra. Hoje encontramo-Lo em Sua terra, Nazaré, talvez para descansar, visitar a família, rever amigos… sem nunca esquecer que a Sua missão não é matar saudades ou fazer turismo, mas anunciar a Boa Nova do Reino, revelando na vida quotidiana a presença amorosa, benevolente e misericordiosa de Deus, que nunca abandona o Seu Povo. Mas os conterrâneos conhecem-nO bem. Sabem que as suas mãos ainda mostram os calos do trabalho na carpintaria, conhecem pelo nome a mãe, os irmãos e irmãs, toda a família, admiram a sua pregação e até Lhe reconhecem poderes especiais de cura, mas nada que O recomende como Messias. A sua origem humilde e sem pergaminhos não o credita como Filho de Deus. ” E ficavam perplexos a seu respeito”! Porquê? Porque Deus, sem rosto, nem coração, nem mãos, não se deixa contaminar pela proximidade com as pessoas, nem pode ser solidário com os mais necessitados; em suma, não se pode preocupar com os problemas mesquinhos do dia a dia… e é tudo o que Jesus não faz. Daí o escândalo! Apesar de rejeitado, Jesus não recrimina, nem condena os seus conterrâneos e não deixa de fazer o melhor que pode em favor do seu povo, porque a Sua missão é mostrar o coração e o rosto de Deus, que nos ama infinitamente e que nunca desiste de todos e de cada um de nós. Mas isto não quiseram entender os habitantes de Nazaré! P. Fausto in diálogo 1479 (XIV Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreNo domingo passado, em plena tempestade que punha em risco a vida dos ocupantes da barca, Jesus dormia, a sono solto, como a dizer-nos que, quem não se põe todos os dias nas mãos de Deus, vive em sobressalto e não experimenta verdadeira segurança e liberdade, especialmente nos momentos mais difíceis da vida. Neste domingo, assistimos a mais dois desses momentos. Com os apóstolos, integramos a multidão que acompanha Jesus a casa de Jairo, cuja filha, de doze anos, estava a morrer. A situação grave e urgente obrigava a passos largos e apressados. No caminho, porém, uma mulher, que sofria de fortes hemorragias, e há muito desenganada pelos médicos, abeira-se de Jesus e toca-Lhe no manto, com fundada esperança de cura. “Minha filha, disse Jesus, foi a tua fé que te salvou! Vai em paz e fica sarada do teu mal”. Ainda não refeitos deste encontro inesperado, chega a notícia de que a filha de Jairo falecera, pelo que era escusado continuar o caminho; Jesus, porém, virando-se para o chefe da sinagoga, com os olhos marejados de lágrimas, apenas disse: “Não tenhas receio. Crê somente”. E prosseguimos o caminho. O alarido era enorme e a confusão também. Chegados a casa, Jesus, acompanhado apenas pelos pais da menina defunta e por Pedro, Tiago e João, devolve aos pais, com vida, a sua filha querida. Duas pessoas em situações diferentes, impelidas pela fé, dois momentos de final feliz, a recompensarem a confiança, a humildade, a ousadia e a coragem de quem crê que é sempre de Deus a última palavra. P. Fausto in diálogo 1478 (XIII Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreO facto de Jesus prometer “não vos deixarei órfãos” e querer “estar sempre connosco até ao fim dos tempos”, não evita que se levantem tempestades, não nos torna imunes à doença, não livra de injustiças e incómodos, não é passaporte de vida longa, saúde robusta ou garantia de trabalho… e, às vezes, perguntamos: “onde está Deus”? Sim, “Onde está Deus”, no meio de tanta dor inocente, de tantas situações de injustiça gritante e de violência bárbara…? É compreensível a questão. Até os discípulos a puseram em dia de tempestade, ao verem Jesus a dormir, a sono solto, com o barco a meter água e prestes a afundar-se! Não te importas que morramos afogados? Atiram à cara do Mestre os discípulos desnorteados. A resposta de Jesus não se fez esperar, com sabor de repreensão amorosa, depois de acalmado o vento e o mar: “Porque estais tão assustados? Como é que ainda não tendes fé?” Deus onde estás? – Está bem próximo. Reza e chora connosco e diz-nos entre soluços: estou no íntimo do teu coração, para te ajudar a vencer todos os medos, em todas as circunstâncias, porque te amo e não desisto de ti. P. Fausto in diálogo 1477 (XII Domingo do Tempo Comum – Ano...
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