Os nossos e os outros.

A tentação não é de agora, está entranhada na medula dos ossos. A tentação de separar as pessoas da nossa família, do nosso grupo, do nosso partido, da nossa condição social, da nossa paróquia… e as outras sempre existiu. E é especialmente contra isso que Jesus, no evangelho de hoje, quer prevenir os discípulos. “Mestre, nós vimos um homem que não nos segue a expulsar demónios em Teu nome. Como ele não nos segue procurámos impedir-lho”. O Senhor condena a intolerância, o espírito sectário, a defesa de privilégios e interesses por parte dos Seus, enunciando um princípio que nunca deveria ser esquecido pelos cristãos: “ninguém pode fazer um milagre em Meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós”. Ora aí está algo de que não podemos abdicar, sob pena de construirmos capelinhas e não Igreja, de termos grupos de pressão e não de comunhão, de fazermos das Paróquias quintas religiosas “do quero, posso e mando” (de clérigos e não só!) e não espaços de comunhão e reconciliação e de festa, numa palavra, sob pena de estiolarmos e pervertermos o mandato que Jesus confiou à Sua Igreja de combater todos os muros e ir a todos os cantos proclamar a Boa Nova do Amor Misericordioso de Deus. P. Fausto in diálogo 1485 (XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano B)...

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Desafinados !

Na sequência do domingo passado, Jesus, confidencia aos discípulos que o Seu futuro próximo vai passar pelo sofrimento e pela morte, mas que a última palavra é do Pai, que O há-de ressuscitar, três dias depois. A verdade, porém, é que o assunto, apesar de grave, não mereceu qualquer atenção por parte dos discípulos, porque o mais importante era garantir lugares influentes e próximos do poder e assegurar condições para carreiras brilhantes. Era sobre isso que discutiam uns com os outros no caminho! Chegados a casa, Jesus aproveita para lembrar aos discípulos um dos princípios fundamentais de que não abdica e quer ver aplicado na comunidade dos Seus amigos: “quem quiser ser o primeiro há-de ser o último e o servo de todos”. E chamando uma criança, abraça-a com ternura, como quem diz que o que importa não é o lugar que se ocupa, mas o amor posto naquilo que se faz, mesmo que seja sóbrio, pequeno e discreto… Não nos escandalizemos, porém, com os discípulos, porque replicamos frequentemente o seu comportamento. Ainda não há muito, diante da fotografia de um corpo de criança, sem vida, que o mar deu à praia, o mundo comoveu-se e estremeceu. Comoveu-se, mas pouco se adiantou. É preciso pôr em prática as lições que Jesus deixou aos Seus, se queremos fazer desta nossa terra um lugar de justiça e de paz. Quando os interesses pessoais, étnicos, religiosos ou de nação, falarem mais alto que o respeito pela vida e pelo bem comum, haverá mais muros e barreiras de arame farpado e menos acolhimento, ternura e humanidade. E também menos lugar para Deus. P. Fausto in diálogo 1484 (XXV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“E vós quem dizeis que Eu sou?”

Se até agora, Jesus, na perspectiva de S. Marcos, privilegia o contacto com as multidões, não fugindo mesmo ao confronto com os seus opositores, parece fazer da catequese aos discípulos, a partir de hoje, o centro das suas preocupações. Jesus não quer gente como papagaios, dispensa jornalistas e não se deixa influenciar por comentários; quer saber dos Seus discípulos o que realmente pensam. Quer respostas pessoais e não decoradas: “E vós quem dizeis que Eu sou?” Passados dois mil anos, a pergunta continua oportuna, porque o cristão não pode ser mero repetidor de fórmulas, ainda que conformes à verdade, e para esta resposta não servem os livros nem os catecismos. Há-de ser a experiência pessoal com Cristo que nos leve a proclamar, pessoalmente e sem ambiguidades, como Pedro, “Tu és o Messias”. Quem é Cristo para mim? Que significado tem Ele para mim? Que lugar ocupa na minha vida? Estas são questões cuja resposta, sem vir em livros ou catecismos, devemos dar hoje a quem nos “perguntar das razões da nossa esperança”. Ser teólogo não é condição para ser discípulo de Cristo mas, sim, levar a cruz e segui-Lo, livre e fiel no serviço, até à morte. Querer fugir à cruz, além de lhe duplicar o peso, faz-nos incorrer no risco de trair a própria vocação e desdizer a nossa fé no valor redentor do sofrimento e morte do Senhor.   P. Fausto in diálogo 1483 (XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Olhos nos olhos.

Sabemos que o Senhor nos ama e nos quer felizes, e vai, de muitos modos, ao longo da história, revelando o Seu plano de salvação; mas às vezes esta convicção parece ficar limitada ao nível intelectual e por vezes até hipotecada pela crueza da realidade. A acção de Cristo no Evangelho de hoje mostra a solicitude e proximidade de Deus, que, com infinita bondade, delicadeza e respeito, mesmo sem nos apercebermos ou acreditarmos, olhos nos olhos, diz não apenas a quem sofre: “Effathá”, isto é, abre-te, levanta-te, liberta-te… E cada um de nós é que sabe o que na vida cega, desvia, paralisa, bloqueia!… Prestes a iniciarmos mais um ano, também Jesus a cada um de nós, segurando delicadamente a nossa cabeça nas suas mãos, nos diz com amor: “Abre-te”. Abre-te aos desafios e imprevistos de um novo ano apostólico, desata-te para ocupares o teu lugar, com esforço e fidelidade, na construção da comunidade, liberta-te para assumires as dificuldades e frustrações, mas também para viveres as alegrias e esperanças de quem semeia. Levanta-te e não tenhas medo. O ano não vai ser fácil, mas será, como sempre, de infinita Misericórdia. Disponhamo-nos, então, desde já, para os desafios que Deus hoje nos faz. P. Fausto in diálogo 1482 (XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Descansai um pouco”

Foi dura e bela a experiência missionária feita pelos discípulos enviados por Jesus, dois a dois, no domingo passado! Exaustos mas felizes, vinham eufóricos pelos resultados. Jesus ouve-os com atenção, sem matar o entusiasmo e a alegria compreensíveis pelo êxito da missão nem juntar a voz ao coro dos que cantam vitória pelos sucessos obtidos, e arremata: “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”. O mais importante não era contabilizar os êxitos, mas levar os discípulos a confiar plenamente no Mestre e a fazê-los descobrir que na vida há que fazer as coisas com empenho e dedicação, com entusiasmo e… convicção, como se tudo dependesse de nós, sabendo embora que Deus tem sempre a última palavra. Se assim não for, corre-se o risco daqueles que fazem a festa, deitam os foguetes, recolhem as canas… e também as ilusões do festim. Fazer sempre tudo quanto se pode e aceitar a liberdade de Deus para fazer tudo o resto é lição que Jesus quer deixar aos Seus discípulos e que continua plena de actualidade. Jesus, hoje, não querendo pôr água gelada na fervura, convida os discípulos, e a nós também, a fazer assentar a poeira e reduzir o ruído que o sucesso frequentemente provoca, a preferir a eficácia à eficiência dos resultados da acção e a descobrir que seremos tanto mais eficazes, quanto mais dóceis, disponíveis e confiantes, sem medos nem meios, apenas ancorados na Graça de Quem nos envia e na força transformadora do Evangelho que nos cabe anunciar. O resto é acessório. P. Fausto in diálogo 1481 (XVI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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E porque não eu?

A liturgia da Palavra continua neste domingo a mostrar-nos o interesse de Deus pelo Seu Povo, através da acção de homens que Ele livremente escolhe e envia para serem Seus mensageiros: Amós na primeira leitura e os Apóstolos no Evangelho. Depois de termos contemplado, nas últimas semanas, a figura de Ezequiel, assistimos hoje à vocação de Amós, que humanamente nada tem que o recomende para a missão confiada. Oriundo de família humilde, sem jeito nem estudos, sem horizontes nem outra ambição que cuidar do rebanho de outros e tratar das árvores do quintal, é o escolhido: “vai, que hás-de ser o profeta do Meu povo de Israel”. As dúvidas e resistências de Amós, compreensíveis e comuns na história de qualquer chamamento, foram superadas pela confiança em Deus, que sabe bem o que quer e capacita aqueles que chama e envia. A iniciativa, porque é sempre de Deus, confere ao profeta a liberdade, a independência e a capacidade necessárias para o desempenho da missão, cabendo-lhe apenas que seja fiel e corajoso, pobre e desprendido. O resto é das contas de Deus. Assim aconteceu com Amós e os Profetas, com os Apóstolos e com todos os que o Senhor, ao longo da história, escolheu. E ainda não desistiu nem cansou de chamar. Digam-no os Diáconos João Santos e Pedro Barros, ordenados na nossa Igreja Catedral, neste domingo, para a ordem dos presbíteros… P. Fausto in diálogo 1480 (XV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Estranha rejeição!

O Evangelho deste domingo mostra como a vida de Jesus, apesar de muitas vezes aplaudido e fervorosamente seguido, não é propriamente um mar de rosas, com passadeira vermelha, fanfarra e guarda de honra. Hoje encontramo-Lo em Sua terra, Nazaré, talvez para descansar, visitar a família, rever amigos… sem nunca esquecer que a Sua missão não é matar saudades ou fazer turismo, mas anunciar a Boa Nova do Reino, revelando na vida quotidiana a presença amorosa, benevolente e misericordiosa de Deus, que nunca abandona o Seu Povo. Mas os conterrâneos conhecem-nO bem. Sabem que as suas mãos ainda mostram os calos do trabalho na carpintaria, conhecem pelo nome a mãe, os irmãos e irmãs, toda a família, admiram a sua pregação e até Lhe reconhecem poderes especiais de cura, mas nada que O recomende como Messias. A sua origem humilde e sem pergaminhos não o credita como Filho de Deus. ” E ficavam perplexos a seu respeito”! Porquê? Porque Deus, sem rosto, nem coração, nem mãos, não se deixa contaminar pela proximidade com as pessoas, nem pode ser solidário com os mais necessitados; em suma, não se pode preocupar com os problemas mesquinhos do dia a dia… e é tudo o que Jesus não faz. Daí o escândalo! Apesar de rejeitado, Jesus não recrimina, nem condena os seus conterrâneos e não deixa de fazer o melhor que pode em favor do seu povo, porque a Sua missão é mostrar o coração e o rosto de Deus, que nos ama infinitamente e que nunca desiste de todos e de cada um de nós. Mas isto não quiseram entender os habitantes de Nazaré!   P. Fausto in diálogo 1479 (XIV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Momentos de final feliz!

No domingo passado, em plena tempestade que punha em risco a vida dos ocupantes da barca, Jesus dormia, a sono solto, como a dizer-nos que, quem não se põe todos os dias nas mãos de Deus, vive em sobressalto e não experimenta verdadeira segurança e liberdade, especialmente nos momentos mais difíceis da vida. Neste domingo, assistimos a mais dois desses momentos. Com os apóstolos, integramos a multidão que acompanha Jesus a casa de Jairo, cuja filha, de doze anos, estava a morrer. A situação grave e urgente obrigava a passos largos e apressados. No caminho, porém, uma mulher, que sofria de fortes hemorragias, e há muito desenganada pelos médicos, abeira-se de Jesus e toca-Lhe no manto, com fundada esperança de cura. “Minha filha, disse Jesus, foi a tua fé que te salvou! Vai em paz e fica sarada do teu mal”. Ainda não refeitos deste encontro inesperado, chega a notícia de que a filha de Jairo falecera, pelo que era escusado continuar o caminho; Jesus, porém, virando-se para o chefe da sinagoga, com os olhos marejados de lágrimas, apenas disse: “Não tenhas receio. Crê somente”. E prosseguimos o caminho. O alarido era enorme e a confusão também. Chegados a casa, Jesus, acompanhado apenas pelos pais da menina defunta e por Pedro, Tiago e João, devolve aos pais, com vida, a sua filha querida. Duas pessoas em situações diferentes, impelidas pela fé, dois momentos de final feliz, a recompensarem a confiança, a humildade, a ousadia e a coragem de quem crê que é sempre de Deus a última palavra. P. Fausto in diálogo 1478 (XIII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Deus, onde estás?

O facto de Jesus prometer “não vos deixarei órfãos” e querer “estar sempre connosco até ao fim dos tempos”, não evita que se levantem tempestades, não nos torna imunes à doença, não livra de injustiças e incómodos, não é passaporte de vida longa, saúde robusta ou garantia de trabalho… e, às vezes, perguntamos: “onde está Deus”? Sim, “Onde está Deus”, no meio de tanta dor inocente, de tantas situações de injustiça gritante e de violência bárbara…? É compreensível a questão. Até os discípulos a puseram em dia de tempestade, ao verem Jesus a dormir, a sono solto, com o barco a meter água e prestes a afundar-se! Não te importas que morramos afogados? Atiram à cara do Mestre os discípulos desnorteados. A resposta de Jesus não se fez esperar, com sabor de repreensão amorosa, depois de acalmado o vento e o mar: “Porque estais tão assustados? Como é que ainda não tendes fé?” Deus onde estás? – Está bem próximo. Reza e chora connosco e diz-nos entre soluços: estou no íntimo do teu coração, para te ajudar a vencer todos os medos, em todas as circunstâncias, porque te amo e não desisto de ti. P. Fausto in diálogo 1477 (XII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Nada sem Deus, nada sem nós”!

Após as solenidades do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo e do Sagrado Coração de Jesus, deparamo-nos com um tempo longo, entrecortado apenas pelas festas religiosas em honra dos Santos, tão frequentes em tempo de verão. E que nos diz Deus neste 11º domingo? Basta um olhar ao profeta Ezequiel para descobrimos que Deus nunca Se arrepende de investir no homem, nem volta atrás nos Seus planos de salvação, apesar das resistências e fracassos do Povo eleito. Isto mesmo confirma Jesus, nas duas parábolas deste domingo, ao sublinhar a gratuidade e o dinamismo do Reino de Deus, que não dispensa jamais o nosso contributo, cabendo-nos, na hora da sementeira, fazer tudo o que depende de nós, o nosso “trabalho de casa”, confiando os frutos à eficácia de Deus. Não se trata de fechar os olhos à realidade que nos circunda ou de nos deixarmos adormecer num espiritualismo desencarnado, mas tão só o reconhecimento de que as dificuldades dentro e fora da Igreja não devem levar o cristão ao desânimo ou à desilusão, mas à confiança sadia e ao optimismo realista, que vêm da certeza de que “a semente germina e cresce”, sem sabermos como. Graças a Deus! P. Fausto in diálogo 1476 (XI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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