A força do grito!

O evangelho deste domingo relata mais um encontro de Jesus com gente da margem, desta vez um homem, de nome Bartimeu, que pouco tinha que o recomendasse. Pedinte e cego, estava sentado à beira da estrada, à saída da cidade de Jericó. Para ele não havia sol, nem horizontes e o dia era sempre noite. Invisual e dependente, mantinha-se sentado e abandonado à sorte, até ouvir dizer que Jesus passava e gritou, gritou até incomodar os transeuntes: “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim”. E uma réstia de esperança nasceu! O episódio deste evangelho repete-se hoje e o exemplo de Jesus mantém-se luminoso, e, ainda que não sejamos capazes de erradicar uma forma sequer de pobreza que afecte a humanidade, não podemos baixar os braços e fazer de conta que nada se passa… Os cristãos não podem tomar a atitude daqueles que mandam calar o cego, para que não incomode e deixe livre o caminho. Devem sim imitar a atitude de Jesus: parar, escutar, tomar conhecimento e fazer o possível por responder à situação concreta. Não há outra maneira de manifestar hoje a vontade salvadora de Deus, nem de viver as Obras de Misericórdia, que continuam a ser para todos, crentes e não crentes, a tradução concreta do Evangelho. P. Fausto in diálogo 1489 (XXX Domingo do Tempo Comum – Ano...

Learn More

Apenas…Servir!

Apesar da intensa e já prolongada catequese de Jesus aos discípulos, Tiago e João não dão mostras de ter mudado o coração. E os outros dez também não. A tentação do poder, das luzes, do palco… é grande e espreita mesmo os mais virtuosos. Como é difícil trabalhar na sombra, nos bastidores e aceitar ser apenas andaime que se desmonta e amontoa terminada a construção! Jesus vem, hoje, no Evangelho, dizer aquilo que já não era novidade: “o Filho do Homem não veio para ser servido, veio para servir…” Na verdade, nunca alimentara outra ambição, nem tivera outro projecto. E os discípulos sabiam-no bem; apesar de tudo, a preocupação pelos primeiros lugares era comum, e se possível logo à direita e à esquerda, bem junto ao Mestre. Sempre “dá mais jeito”! E a tentação… não é só dos apóstolos. Há e haverá sempre cristãos que não entendem a mensagem de Jesus e não tornam seu o Seu projecto, mas cabe a nós levar por diante a alternativa cristã, que não passa pelo poder, domínio e sucesso… mas pelo serviço humilde e generoso, feito com liberdade e amor. “O Filho do Homem não veio para ser servido, veio para servir e dar a vida pela redenção de todos”. O que Jesus disse aos apóstolos diz também a cada um de nós, porque é esta a fonte de honra e glória a que devem aspirar os discípulos e que os torna verdadeiramente grandes. P. Fausto in diálogo 1488 (XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano...

Learn More

Oportunidade perdida!

Era uma vez um rapaz simpático, cumpridor, bem prendado, de vida desafogada e de boas famílias… um bom partido para qualquer judia. Tinha tudo, mas queria algo mais que a lei, para se realizar e ser feliz: “Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?” E Jesus, de resposta pronta, fixando-lhe os olhos, vai da obrigação à opção, do devido ao generoso, da observância dos mandamentos à pobreza voluntária. Até ao limite. Bastava apenas renunciar a todos os seus bens em favor dos pobres, com a garantia de um tesouro nos céus. Quando toda a gente pensava que era aposta ganha, o jovem, “de semblante anuviado por estas palavras, retirou-se entristecido”. O desafio lançado não era um juízo de valor sobre a riqueza, mas condição para, de coração livre e indiviso, poder seguir Jesus. Como sempre lhe tinham ensinado, se a riqueza era recompensa, prova de amizade e bênção de Deus, porquê renunciar aos bens? E na cabeça do jovem tudo era confuso! Deixar tudo foi o desafio feito por Jesus particularmente a este jovem, mas desapegar o coração das riquezas, e até das pessoas, é para todos. E todos nós sabemos como isso é difícil. Mas é a condição para o prometido tesouro nos céus. P. Fausto in diálogo 1487 (XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano...

Learn More

Machismo ou feminismo?

Há muito que não aparecem os fariseus para uma discussão pública com Jesus, mas pelos vistos não desistiram, e hoje a questão posta é, como habitualmente, maliciosa, porque não há preocupação de conhecer a verdade, mas tão só de entalar o Mestre: “Pode um homem repudiar a sua mulher?” Jesus, como sempre, diz o que pensa sobre as questões, mesmo quando ardilosamente colocadas, e lembra-lhes que na família, segundo o projecto de Deus, entre homem e mulher, não há concorrência mas convergência, não há oposição mas complementaridade e comunhão, não há lugar a machismos ou feminismos mas ao respeito pelas diferenças e reconhecimento da comum dignidade, com iguais direitos e deveres. E os que assim não pensassem, concluía Jesus, tinham o coração duro e a mente perversa. E hoje seria diferente a resposta de Jesus? A igreja diz-nos que não. E não serão as dificuldades por que passam tantas e tantas famílias e as várias modalidades de (des)construção familiar existentes, a impedir a família de ser, segundo a vontade de Deus,”Igreja doméstica” e “comunidade de vida e de amor uno e indissolúvel”. O que vai além é da Misericórdia de Deus que cobre as nossas misérias e desvarios. P. Fausto in diálogo 1486 (XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano...

Learn More

Os nossos e os outros.

A tentação não é de agora, está entranhada na medula dos ossos. A tentação de separar as pessoas da nossa família, do nosso grupo, do nosso partido, da nossa condição social, da nossa paróquia… e as outras sempre existiu. E é especialmente contra isso que Jesus, no evangelho de hoje, quer prevenir os discípulos. “Mestre, nós vimos um homem que não nos segue a expulsar demónios em Teu nome. Como ele não nos segue procurámos impedir-lho”. O Senhor condena a intolerância, o espírito sectário, a defesa de privilégios e interesses por parte dos Seus, enunciando um princípio que nunca deveria ser esquecido pelos cristãos: “ninguém pode fazer um milagre em Meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós”. Ora aí está algo de que não podemos abdicar, sob pena de construirmos capelinhas e não Igreja, de termos grupos de pressão e não de comunhão, de fazermos das Paróquias quintas religiosas “do quero, posso e mando” (de clérigos e não só!) e não espaços de comunhão e reconciliação e de festa, numa palavra, sob pena de estiolarmos e pervertermos o mandato que Jesus confiou à Sua Igreja de combater todos os muros e ir a todos os cantos proclamar a Boa Nova do Amor Misericordioso de Deus. P. Fausto in diálogo 1485 (XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano B)...

Learn More

Desafinados !

Na sequência do domingo passado, Jesus, confidencia aos discípulos que o Seu futuro próximo vai passar pelo sofrimento e pela morte, mas que a última palavra é do Pai, que O há-de ressuscitar, três dias depois. A verdade, porém, é que o assunto, apesar de grave, não mereceu qualquer atenção por parte dos discípulos, porque o mais importante era garantir lugares influentes e próximos do poder e assegurar condições para carreiras brilhantes. Era sobre isso que discutiam uns com os outros no caminho! Chegados a casa, Jesus aproveita para lembrar aos discípulos um dos princípios fundamentais de que não abdica e quer ver aplicado na comunidade dos Seus amigos: “quem quiser ser o primeiro há-de ser o último e o servo de todos”. E chamando uma criança, abraça-a com ternura, como quem diz que o que importa não é o lugar que se ocupa, mas o amor posto naquilo que se faz, mesmo que seja sóbrio, pequeno e discreto… Não nos escandalizemos, porém, com os discípulos, porque replicamos frequentemente o seu comportamento. Ainda não há muito, diante da fotografia de um corpo de criança, sem vida, que o mar deu à praia, o mundo comoveu-se e estremeceu. Comoveu-se, mas pouco se adiantou. É preciso pôr em prática as lições que Jesus deixou aos Seus, se queremos fazer desta nossa terra um lugar de justiça e de paz. Quando os interesses pessoais, étnicos, religiosos ou de nação, falarem mais alto que o respeito pela vida e pelo bem comum, haverá mais muros e barreiras de arame farpado e menos acolhimento, ternura e humanidade. E também menos lugar para Deus. P. Fausto in diálogo 1484 (XXV Domingo do Tempo Comum – Ano...

Learn More

“E vós quem dizeis que Eu sou?”

Se até agora, Jesus, na perspectiva de S. Marcos, privilegia o contacto com as multidões, não fugindo mesmo ao confronto com os seus opositores, parece fazer da catequese aos discípulos, a partir de hoje, o centro das suas preocupações. Jesus não quer gente como papagaios, dispensa jornalistas e não se deixa influenciar por comentários; quer saber dos Seus discípulos o que realmente pensam. Quer respostas pessoais e não decoradas: “E vós quem dizeis que Eu sou?” Passados dois mil anos, a pergunta continua oportuna, porque o cristão não pode ser mero repetidor de fórmulas, ainda que conformes à verdade, e para esta resposta não servem os livros nem os catecismos. Há-de ser a experiência pessoal com Cristo que nos leve a proclamar, pessoalmente e sem ambiguidades, como Pedro, “Tu és o Messias”. Quem é Cristo para mim? Que significado tem Ele para mim? Que lugar ocupa na minha vida? Estas são questões cuja resposta, sem vir em livros ou catecismos, devemos dar hoje a quem nos “perguntar das razões da nossa esperança”. Ser teólogo não é condição para ser discípulo de Cristo mas, sim, levar a cruz e segui-Lo, livre e fiel no serviço, até à morte. Querer fugir à cruz, além de lhe duplicar o peso, faz-nos incorrer no risco de trair a própria vocação e desdizer a nossa fé no valor redentor do sofrimento e morte do Senhor.   P. Fausto in diálogo 1483 (XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano...

Learn More

Olhos nos olhos.

Sabemos que o Senhor nos ama e nos quer felizes, e vai, de muitos modos, ao longo da história, revelando o Seu plano de salvação; mas às vezes esta convicção parece ficar limitada ao nível intelectual e por vezes até hipotecada pela crueza da realidade. A acção de Cristo no Evangelho de hoje mostra a solicitude e proximidade de Deus, que, com infinita bondade, delicadeza e respeito, mesmo sem nos apercebermos ou acreditarmos, olhos nos olhos, diz não apenas a quem sofre: “Effathá”, isto é, abre-te, levanta-te, liberta-te… E cada um de nós é que sabe o que na vida cega, desvia, paralisa, bloqueia!… Prestes a iniciarmos mais um ano, também Jesus a cada um de nós, segurando delicadamente a nossa cabeça nas suas mãos, nos diz com amor: “Abre-te”. Abre-te aos desafios e imprevistos de um novo ano apostólico, desata-te para ocupares o teu lugar, com esforço e fidelidade, na construção da comunidade, liberta-te para assumires as dificuldades e frustrações, mas também para viveres as alegrias e esperanças de quem semeia. Levanta-te e não tenhas medo. O ano não vai ser fácil, mas será, como sempre, de infinita Misericórdia. Disponhamo-nos, então, desde já, para os desafios que Deus hoje nos faz. P. Fausto in diálogo 1482 (XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano...

Learn More

“Descansai um pouco”

Foi dura e bela a experiência missionária feita pelos discípulos enviados por Jesus, dois a dois, no domingo passado! Exaustos mas felizes, vinham eufóricos pelos resultados. Jesus ouve-os com atenção, sem matar o entusiasmo e a alegria compreensíveis pelo êxito da missão nem juntar a voz ao coro dos que cantam vitória pelos sucessos obtidos, e arremata: “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”. O mais importante não era contabilizar os êxitos, mas levar os discípulos a confiar plenamente no Mestre e a fazê-los descobrir que na vida há que fazer as coisas com empenho e dedicação, com entusiasmo e… convicção, como se tudo dependesse de nós, sabendo embora que Deus tem sempre a última palavra. Se assim não for, corre-se o risco daqueles que fazem a festa, deitam os foguetes, recolhem as canas… e também as ilusões do festim. Fazer sempre tudo quanto se pode e aceitar a liberdade de Deus para fazer tudo o resto é lição que Jesus quer deixar aos Seus discípulos e que continua plena de actualidade. Jesus, hoje, não querendo pôr água gelada na fervura, convida os discípulos, e a nós também, a fazer assentar a poeira e reduzir o ruído que o sucesso frequentemente provoca, a preferir a eficácia à eficiência dos resultados da acção e a descobrir que seremos tanto mais eficazes, quanto mais dóceis, disponíveis e confiantes, sem medos nem meios, apenas ancorados na Graça de Quem nos envia e na força transformadora do Evangelho que nos cabe anunciar. O resto é acessório. P. Fausto in diálogo 1481 (XVI Domingo do Tempo Comum – Ano...

Learn More

E porque não eu?

A liturgia da Palavra continua neste domingo a mostrar-nos o interesse de Deus pelo Seu Povo, através da acção de homens que Ele livremente escolhe e envia para serem Seus mensageiros: Amós na primeira leitura e os Apóstolos no Evangelho. Depois de termos contemplado, nas últimas semanas, a figura de Ezequiel, assistimos hoje à vocação de Amós, que humanamente nada tem que o recomende para a missão confiada. Oriundo de família humilde, sem jeito nem estudos, sem horizontes nem outra ambição que cuidar do rebanho de outros e tratar das árvores do quintal, é o escolhido: “vai, que hás-de ser o profeta do Meu povo de Israel”. As dúvidas e resistências de Amós, compreensíveis e comuns na história de qualquer chamamento, foram superadas pela confiança em Deus, que sabe bem o que quer e capacita aqueles que chama e envia. A iniciativa, porque é sempre de Deus, confere ao profeta a liberdade, a independência e a capacidade necessárias para o desempenho da missão, cabendo-lhe apenas que seja fiel e corajoso, pobre e desprendido. O resto é das contas de Deus. Assim aconteceu com Amós e os Profetas, com os Apóstolos e com todos os que o Senhor, ao longo da história, escolheu. E ainda não desistiu nem cansou de chamar. Digam-no os Diáconos João Santos e Pedro Barros, ordenados na nossa Igreja Catedral, neste domingo, para a ordem dos presbíteros… P. Fausto in diálogo 1480 (XV Domingo do Tempo Comum – Ano...

Learn More