“Quem tem ouvidos…”

  Mais uma vez a Palavra de Deus nos fala em dinheiro e bens materiais. Tanto o Profeta Amós como Jesus na parábola do rico avarento, falam claramente sobre a riqueza e pobreza, sem jamais emitirem um juízo de valor sobre uma e outra. Nem a pobreza é bendita nem a riqueza diabolizada. Jesus não condena a riqueza pela riqueza, mas o uso egoísta que dela se faz; por isso, nada no texto do Evangelho diz que o pobre era boa pessoa e o rico mau ou desonesto. O rico não é então condenado por ser rico, ou por ter comportamentos agressivos em relação ao pobre, mas apenas, e sobretudo, pelo facto de o ignorar. Para o rico da parábola o pobre era insignificante, simplesmente não existia. É a pior das condenações e a que faz mais doer na relação com os outros. “Quem tem ouvidos para ouvir ouça”. Tenhamos nós a coragem de ouvir, reflectir e tirar as devidas conclusões da Palavra que celebramos. Assim como Deus não desiste de nós, também não esquecerá os gemidos e gritos de dor dos injustiçados, abandonados e perseguidos…. É isto que nos arranca do coração a força para cantar “Ó minha alma louva o Senhor”, porque é d’Ele sempre a última Palavra e essa Palavra há-de realizar-se plenamente na eternidade. P. Fausto in diálogo 1530  (XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Elogio da esperteza!

A liturgia de hoje acautela-nos para a tentação que se apresenta ao homem convencido de encontrar a felicidade no dinheiro e cujo projecto de vida se resume a enriquecer, e quanto mais depressa melhor, mesmo à custa da paz da consciência e dos direitos dos outros. Para este tipo de gente os fins justificam os meios, desde que se enriqueça! A tentação, que não afectava apenas um grupo de pessoas no tempo de Amós e de Jesus, revela-se hoje de modo subtil, criativo e sofisticado, torna cada vez mais difícil o exercício da justiça e faz aumentar o número dos que pensam que o crime compensa. Há, pois, que ter cuidado, porque a honestidade enfraquece com a preocupação de fazer crescer a riqueza. O trecho do Evangelho, ao chamar a atenção para a esperteza do administrador desonesto, podendo suscitar dúvidas e perplexidades, e até provocar rejeição por parte de algumas pessoas, não é elogio à aldrabice, à desonestidade e ao roubo, mas um apelo à esperteza e inteligência no bom uso do tempo e dos bens. Na hora da verdade, na hora de se prestar contas da qual nunca se sabe a hora, não valem as contas bancárias, os investimentos altamente rentáveis ou a carteira imobiliária, mas somente o bem feito com os bens de que, afinal, somos meros administradores. P. Fausto in diálogo 1529  (XXV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Um Pai à espera para sair

Com Setembro, depois da ida a banhos chega a hora do regresso e dos recomeços. Também o nosso boletim paroquial “Diálogo” não foge ao ritmo do tempo, nem às vicissitudes da história que passa, e assim se vai constituindo, dinamicamente. Com todo o dinamismo, chega-nos também um Deus em movimento, em saída, um Pai à espera para sair, para abraçar e fazer festa. No Ano Santo que vivemos, assentando-nos que nem luva, este Cristo, o rosto da misericórdia e da esperança, assegura que ninguém está irremediavelmente perdido. É riquíssimo este texto, uma das páginas mais belas da Escritura, e seria quase um atentado não ler a página toda, a versão longa, a fim de que a loucura, postura e a ternura de Deus que se perde atrás de um só, nos atinja em cheio e por inteiro. Atingidos seremos se nos colocarmos no sítio certo para receber a profundidade da Palavra. Sim, por muito que gostemos de nos rever na imagem do filho mais novo, talvez sejamos muitas vezes, o filho mais velho. À primeira vista, o aviso é claro: tanto nos perdemos longe de casa como dentro dela, ou então, a rebeldia torna-nos escravos, mas a falta dela também nos pode tornar. Todavia ficará sempre aquém a lição se não ficarmos assombrados com a loucura da misericórdia desse Pai. No fundo, é a imagem que temos de Deus que a parábola nos ajuda questionar. Portanto: quem é Deus para mim? Pai ou patrão? Nesta hora dos recomeços, também do ano pastoral, como não ver na atitude da saída do pastor, a razão e o motivo, a inspiração e o mandato para uma saída permanente? Ir e sair ao encontro, individual ou comunitariamente, será o caminho de quem quer ser fiel a Cristo. Afinal, somos todos ovelhas ou dracmas perdidas e encontradas, reencontraras e reunidas pela misericórdia do Senhor. P. JAC in diálogo 1528  (XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Saber acolher

Jesus, no domingo passado, apontou-nos o samaritano como modelo de quem vence distâncias, não olha a perigos e gastos, nem se deixa bloquear por preconceitos para se tornar próximo e fazer o bem. Hoje, os textos sagrados dizem-nos que a virtude da hospitalidade não passa despercebida a Deus, que recompensa quem acolhe com respeito e delicadeza, como Abraão. Jesus dir-nos-á noutra altura: “o que fizerdes ao mais pequeno… é a Mim que o fazeis” e “quem vos recebe a Mim recebe”. O evangelho, ao recordar a hospitalidade de Marta e Maria, põe-nos diante de duas maneiras de acolher, que, longe de se oporem, completam-se. Marta, desejosa de acolher bem, não se poupa aos cuidados da cozinha e Maria, atenta à pessoa do Mestre, começa por Lhe dar tempo e atenção e escuta-O com prazer. Há fome de muitas coisas… e não só de pão! Maria parece estar mais atenta à pessoa e Marta às circunstâncias. Para amigas tão sinceras Jesus tem palavras de elogio para uma e de alerta amoroso e compreensivo para outra, porque, sem darmos conta, o quotidiano frenético esvazia-nos e rouba sempre espaço a Deus, aos outros e a nós próprios. Deus deixa-Se encontrar tanto na cozinha, entre os tachos e panelas, como na oração, em capela de qualquer convento, desde que um e outro lugar não sejam refúgio e se tornem desculpa para não escutar Deus e dar primazia ao Amor. O alerta não é só para Marta e cada um sabe bem como se mantém actual. P. Fausto in diálogo 1527  (XVI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Vai e faz o mesmo”!

  A parábola do samaritano, tão comovedora e bem conhecida, ajuda-nos a descobrir que é nosso próximo apenas aquele de quem nos aproximamos, viva em nossa casa, nas vizinhanças ou longe de nós. Cessem as palavras e falem as obras! Calem-se os teóricos…, porque a primazia não é a da retórica mas da prática. Não basta saber o que está escrito, não basta compreender o alcance da Palavra de Deus: é preciso “fazer o mesmo”, isto é, pô-la em prática. A 1ª leitura da Liturgia da Palavra deste domingo, ao falar-nos da Lei de Deus e dos seus preceitos, longe de nos fazer viver uma religião de temor, de ordens e prescrições, propõe-nos um projecto de vida de obediência amorosa a Deus, como única maneira de correspondermos ao amor que Ele nos tem. Tudo na vida é questão de Amor. A todos os níveis e em todas as situações. Quem é o meu próximo? A pergunta do doutor da lei também nós a fazemos às vezes para justificar as nossas hesitações e faltas de generosidade… Os problemas não se resolvem apenas com boas teorias, mas com boas obras. Os judeus tinham tudo escrito na lei acerca do amor a Deus e ao próximo. O doutor sabia tudo e respondeu bem a tudo. Só perguntou para experimentar Jesus, habituado como estava às discussões académicas e à casuística, e Jesus respondeu que o que verdadeiramente lhe faltava era passar da teoria à prática, do livro à vida. Ontem como hoje, a Palavra de Deus não é tanto para saber, mas para se fazer. “Faz assim e viverás… vai e faz o mesmo, tu também” ( Ev.) O desafio mantém-se actual e é dirigido a todos nós!   P. Fausto in diálogo 1526  (XV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Entrar mudo e sair calado”!

  A Missa, especialmente ao domingo, deveria ser vivida em contexto festivo. Mesmo sem música. É encontro com a Palavra de Deus e com Cristo na Eucaristia. É verdade que um coro, acompanhado com bons instrumentistas e com cânticos adequados, é um óptimo apoio para a Assembleia cristã viver conscientemente, em ambiente de acção de graças, adoração e súplica e de “santa alegria”, cada Missa, como verdadeira antecipação, ainda que não plena, da Liturgia celeste. E razões não nos devem faltar para fazermos em cada domingo essa experiência. Ao fim de uma semana de trabalhos e dissabores, com alegrias e dores, projectos inacabados e desejos adiados…, não há lugar à Missa por obrigação. Deus nos convida ao descanso saboroso e merecido e a viver a Missa verdadeiramente como prelúdio da felicidade eterna. Como é, então, o nosso Domingo e nele a vivência da Missa? O Evangelho de hoje fala-nos do Reino de Deus, da actividade missionária da Igreja e do espírito que há-de animar os pregadores do Evangelho. Continuam a ser actuais as palavras de Cristo e a actividade missionária da Igreja continua a ser hoje tão actual quanto nos primeiros tempos. E para obra tão vasta continuam a ser poucos os trabalhadores. Para o anúncio da Boa Nova não basta falar bem de Jesus, ler nacos de bom e suculento discurso teológico, organizar tertúlias de temática religiosa ou recorrer a artes de encenação… porque, embora tudo isso seja importante e se tenha de cuidar, o que mais importa é que a vida dos mensageiros, que são todos os baptizados, se identifique com a Palavra celebrada e com a Vida do Cristo comungado. Só assim seremos a prova de que o Reino de Deus está no meio dos homens. É para isso que servem os planos e as estratégias pastorais. P. Fausto in diálogo 1525  (XIV Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Sem medo!

  No domingo passado, o desafio foi radical: “se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me”. Não sendo obrigatório, é dirigido a todos. Sem papas na língua. Face a isto, alguma dose de medo, hesitação …é compreensível, mas, longe de escamotear o problema ou suavizar o apelo, Jesus, hoje, não baixa a fasquia, nem omite nada do que anteriormente dissera. E foi absolutamente claro nas respostas dadas no Evangelho. Para Jesus não há vocações de primeira e de segunda, nem lugar a juízos de valor sobre o que quer que seja. O que Jesus nos diz neste domingo tem a ver com generosidade, determinação, confiança e fidelidade ao desafio que Deus faz a cada um. Qualquer que seja o caminho a que Deus nos chame é sempre caminho de santidade e não há vida cristã sem exigência … Assim, se o matrimónio é a vocação a que Deus chama, há que se entregar com fidelidade e sem reservas; Se é o serviço eclesial, ordenado ou não, que Deus nos pede, há que o assumir com coragem e confiança … Em circunstância alguma, o que não vale mesmo é olhar para trás, pôr condicionantes ou fazer cálculos à espera de outra recompensa, além da que Deus, na riqueza da Sua Misericórdia, reserva a quantos, de coração sincero, se confiam e entregam com generosidade. Não seremos felizes e santos por sermos padres, religiosos ou leigos, casados ou solteiros, mas sê-lo-emos tanto mais quanto mais fiéis ao projecto que Deus tem em relação a cada um e para o qual nos capacita e chama com amor. P. Fausto in diálogo 1524  (XIII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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E tu que dizes?

Jesus não está preocupado com sondagens, quando pergunta: “Quem dizem as multidões que Eu sou”; sabia bem que a opinião das pessoas Lhe era francamente favorável, que a verdade não é questão de moda, de tendências, de oportunidade e daí a questão: “e vós, quem dizeis que Eu sou”? Cada qual deve dar a sua resposta, sem recurso a fórmulas aprendidas de memória, sem pensamentos pensados ou escritos por outros. O que Jesus quer é o que vai no coração, é o que cada um vive e sai espontaneamente sem preconceitos ou discursos rebuscados e teologicamente fundamentados. A questão posta é respondida de coração a coração: “Quem sou eu para ti?” Com a tua história de luzes e sombras, de fracassos e entusiasmos, com medos e esperanças, sonhos e frustrações… a resposta não é de livros ou universidades, mas de vida. Se fôssemos hoje com a mesma questão para a rua, as respostas acerca de Jesus continuariam certamente bem positivas, mas não basta para ser cristão ser baptizado e manifestar simpatia e admiração por Cristo, é necessário renegar-se a si mesmo, tomar a cruz todos os dias e segui-Lo… É isto que têm de fazer os amigos para serem discípulos e não perderem o jogo da vida. P. Fausto in diálogo 1523  (XII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Equívoco insanável!

  A Misericórdia de Deus é, sem dúvida, um dos temas fundamentais da pregação de Jesus e hoje tão bem expressa na liturgia da Palavra no perdão ao Rei David e à mulher – “uma pecadora que vivia na cidade”. Na 1ª leitura escandaliza-nos, por certo, o pecado de David, mas enternece-nos o Amor misericordioso de Deus, face ao humilde reconhecimento da culpa e ao verdadeiro arrependimento do santo rei. Quem dera, mesmo que não imitando David na queda, o imitássemos no arrependimento e na conversão! E no Evangelho, Jesus parece dizer que a misericórdia e o perdão são questões de amor, de Deus pelos homens e destes para com Deus: “os seus numerosos pecados ficam perdoados, uma vez que manifestou tanto amor”. A chave das relações entre nós e Deus é, então, o amor, donde provém o verdadeiro arrependimento e, sendo “próprio de Deus ter compaixão e perdoar”, não pode ficar insensível a quem ama. Enquanto David e a pecadora pública reconhecem os seus pecados, assumem o seu passado e se convertem, o fariseu mantém-se na postura típica de quem reduz a santidade e a perfeição ao cumprimento externo dos preceitos legais, não compreende a linguagem do amor e do perdão e esconde o pecado com a aparência de virtude. Vive irremediavelmente no equívoco insanável de pensar que conquista o coração de Deus, cumprindo, apenas, ainda que rigorosamente, os preceitos da lei, esquecendo-se que à santidade, a que todos somos chamados, só podem aspirar os pecadores arrependidos. A misericórdia e a salvação não são bens que se mereçam ou reivindiquem, apenas se esperam como dom do Amor infinito de Deus. P. Fausto in diálogo 1522  (XI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Onde está Deus?

Desde sempre, Deus gosta de nós, olha-nos com amor, atende-nos com atenção e nunca perde a paciência connosco, mesmo quando perdemos a paciência com Ele. Quando queremos que Deus faça a nossa vontade e não nos conformamos com a Sua, nem aguardamos a Sua hora, impacientamo-nos, e muitos até dizem que perdem a fé, quais crianças zangadas quando os pais não lhes fazem a vontade. A 1ª leitura ao relatar-nos a ressurreição do filho de uma viúva de Sarepta, que acolhia habitualmente o profeta Elias, e o Evangelho que nos fala da ressurreição do filho de uma viúva de Naim, operada por Jesus, mostra que Deus não é insensível à gratidão, à delicadeza e, sobretudo, ao sofrimento, especialmente quando se trata do mistério da morte. Ele não nos quer ver sofrer, nem a morte é o nosso destino. Porque é Deus da vida, aprecia a vida e nos quer felizes, jamais estará ausente da nossa história. Não serão tão espectaculares como os casos de ressurreição da 1ª leitura e do Evangelho de hoje, mas também dão vida, porque são de vida, os gestos que matam a fome ou a sede ou dão roupa a quem precisa, que proporcionam alegria aos tristes e coragem aos desanimados, que tornam prioritárias as causas da justiça e da paz, enfim, quando se faz das obras de misericórdia cartilha do agir diário. Passa por aqui, hoje, a presença de Deus, a favor do Seu povo, através de tantos e tantos gestos de solidariedade e atenção aos outros. E só deste modo, em gestos simples e passos pequenos, se vão construindo os “novos céus e a nova terra” e fazendo avançar o Reino de Deus entre nós. P. Fausto in diálogo 1521  (X Domingo do Tempo Comum – Ano...

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