Começamos hoje a Semana Santa, com um acto litúrgico que nos pode desconcertar: se, por um lado, celebramos o triunfo de Cristo, entre hossanas e com palmas, evocando uma manifestação vigorosa e genuína do povo, por outro, na proclamação do Evangelho, somos já introduzidos na celebração do Mistério Pascal. A dois milénios destes acontecimentos, estamos a celebrar o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, o primeiro dia de uma semana muito intensa, a Semana Santa e também “Maior”. Uma semana em que não faltam palmas e hossanas, vaias e impropérios, chicotadas e beijos, traidores e cobardes e também lágrimas de vergonha e de arrependimento.Uma semana original e única! Teremos, sobretudo a partir de quinta-feira, ocasião para viver, em pormenor, os momentos mais significativos e importantes da História da Salvação. Não percamos esta oportunidade, que, sendo única em cada ano, pode ser a última da nossa vida. Não deixemos que circunstâncias, meteorológicas ou outras, nos impeçam de viver a riqueza de todas as celebrações do Tríduo Pascal. Porque são os “Dias Sagrados da Paixão salvadora de Jesus e da Sua Ressurreição gloriosa”, merecem ser vividos por todos, com amor e gratidão. P. Fausto in Diálogo 1602 (Domingo de Ramos na Paixão do Senhor – Ano...
Learn MoreHá tempos apareceu numa parede lateral da nossa Igreja, com escândalo para alguns, a frase: “Deus morreu”. Custe ou não, ainda lá está, porque a sua limpeza tem-se revelado muito difícil. Tal afirmação, porém, não pode abalar a nossa Fé, envergonhar-nos ou impôr-nos o silêncio, bem pelo contrário, porque Jesus, Filho de Deus, gerado e nascido de Maria, padeceu e morreu, mas ressuscitou e está vivo. É por isso que continua a incomodar todos quantos Lhe passaram a certidão de óbito. Para uns é ponto final parágrafo, para nós a frase deixada na parede da Igreja é a mais vigorosa prova do amor inexcedível de Jesus, verdadeiro Deus e Homem, a convidar–nos incessantemente à gratidão. Hoje, 5° domingo da quaresma, vamos encontrar Jesus, em Jerusalém, no templo. Poucos dias faltam para a sua paixão e morte. O seu discurso é grave e pausado, e no seu rosto não há sinais de medo, apenas determinação em cumprir a vontade do Pai. Já não tem muitos ouvintes, é certo, mas àqueles que O querem conhecer pessoalmente, não deixa de avisar que “se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer dará muito fruto”. Ainda que não entendam o alcance destas palavras, elas ficam como denúncia vigorosa de projectos de vida sem sentido, de aparências e futilidades,… Porque inúteis, o seu destino é a falência. P. Fausto in Diálogo 1601 (V Domingo da Quaresma – Ano...
Learn MoreFrancamente, se olharmos o nosso mundo desde a Síria, e restantes países do Médio Oriente, à África, passando por outros continentes, vemos que a fome, a violência e a guerra têm as mãos livres. Formas vis e subtis de exploração humana e de violência inimaginável, disseminadas pelos quatro cantos da terra, acrescidas ao peso da cruz que cada um carrega, podem roubar-nos a força para a alegria e reduzir o horizonte da esperança. E é neste mundo, assim, que a Igreja nos convida a celebrar o Domingo da Alegria. Só Deus nos faz rebuscar nos fundos do baú da memória razões para cantarmos a antífona de entrada da Missa de hoje: “Alegra – te, Jerusalém!… Exultai de alegria”. Por muito que nos custe a realidade nua e crua, a alegria é possível, mais, é necessário e urgente dar-lhe rosto e voz. E ninguém mais e melhor que os cristãos poderá fazê-lo. Não ignorando a realidade, temos a graça de ancorar a nossa alegria no amor incansável de Deus pelos homens, que, apesar das suas “infidelidades e costumes abomináveis”, não demovem Deus do Seu projecto de salvação. É isto que faz de nós incorrigíveis optimistas! P. Fausto in Diálogo 1600 (IV Domingo da Quaresma – Ano...
Learn MoreHoje acompanhamos Jesus ao Templo de Jerusalém, a poucos dias da celebração da Páscoa. O ambiente era de feira, com vacas, cabras, ovelhas e pombas, por todo o lado. O negócio fazia-se entre vozes barulhentas, que regateavam o melhor preço dos animais a oferecer em sacrifício. E os cambistas aproveitavam-se diligentemente do fluxo turístico da diáspora religiosa. O Templo construído por Salomão, orgulho de todo o judeu, mais parecia uma feira de gado e praça financeira, que casa de oração. A ira de Jesus não se fez justamente esperar, com palavras enérgicas e atitudes de autoridade, a raiar a violência. “Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo”, perguntam. A resposta surge rápida, mas enigmática: “Destruí este templo e em três dias o levantarei”. Mesmo os discípulos, só mais tarde, depois da Ressurreição, descobríram que Jesus falava do templo do seu corpo. A atitude de Jesus, para muitos violenta e desproporcionada, é a demonstração vigorosa de que a Sua relação com Deus é de comunhão plena, confiança total e abandono filial e reprovação clara dos projectos de vida, sujeitos às leis de mercado económico, de religião ou de moda. Jesus tem o coração arrumado e a consciência tranquila. Sabe que Deus é de todos, ama todos e não se deixa corromper por ninguém. Por esta causa está disposto a morrer. Com dignidade. P. Fausto in Diálogo 1599 (Domingo III da Quaresma – Ano...
Learn MoreNo domingo passado, acompanhámos Jesus ao deserto e ainda não esquecemos o estímulo para vencermos o medo da “austeridade quaresmal” e o convite ao silêncio para ouvirmos melhor a voz de Deus. Sabendo que nem todos podemos viver da mesma maneira a quaresma, cada um deve encontrar o seu modo de a viver. Este domingo faz-nos dar um passo mais na caminhada de preparação para a Páscoa e de renovação da nossa vida cristã, com o Evangelho da Transfiguração a dar o tom a toda a celebração. A cena constitui uma manifestação de tal modo jubilosa de Deus, que S. Pedro, anos mais tarde, evocava ainda a força dessa experiência pessoal e intensa (2° Ped. 1,16ss), que o fez esquecer os deveres diários e desejar que esse momento de inesquecível felicidade se prolongasse indefinidamente: “como é bom estarmos aqui!” E as nuvens não se fizeram esperar. A descida impunha-se. Pedro ainda procurava mais as consolações de Deus que o Deus de todas as consolacões. Há momentos belos na vida e também os há de tristezas, dúvidas e perplexidades, mas em todos o Pai está presente, porque, a subir ou a descer, o caminho faz-se com Deus, sempre por perto. Contemplar Jesus transfigurado no início da quaresma é desafio a um esforço maior para escutar a Palavra e ordenar o coração, em processo de transfiguração permanente a que nos desafia a Páscoa. P. Fausto in Diálogo 1589 (II Domingo da Quaresma – Ano...
Learn MoreEstamos na quaresma. Muitos, porém, ainda não se deram conta. A ressaca dos dias de carnaval, acrescida neste ano ao ruído do “Dia dos Namorados”, não motiva ao rito penitencial das cinzas, com que tradicionalmente se inicia este tempo fecundo, e também alegre, que Deus nos concede como graça, para prepararmos, “na alegria do coração purificado”, a celebração das festas pascais. Parecendo triste, cinzento e pesado, a Quaresma é um tempo alegre, libertador e feliz, que, vivido à maneira de retiro espiritual e orientado pela Palavra de Deus, deve ser marcado pela “oração mais intensa e pela caridade mais diligente”, sem esquecer, de modo algum, a participação na Eucaristia dominical e celebração do sacramento da Reconciliação. O Evangelho de hoje leva-nos ao deserto, onde Cristo permaneceu largos dias, jejuou, foi tentado e se preparou para a vida pública. As nossas ocupações habituais, não permitindo fazermos o mesmo na Quaresma, não dispensam do esforço de organizarmos momentos de “deserto” pessoal, que permitam o encontro libertador de cada um com Deus, com os outros e consigo mesmo, sempre inspirados no exemplo acabado de Jesus, que partilha connosco o segredo para vencermos as tentações de que a vida é tão fértil. P. Fausto in Diálogo 1597 (I Domingo da Quaresma – Ano...
Learn MoreA liturgia deste domingo mantém a temática do anterior: Jesus em face do sofrimento, qualquer que seja o seu tipo e gravidade. Seja de homem ou mulher, judeu ou pagão. Hoje, o nosso amigo Marcos, no Evangelho que seguimos, mostra-nos a atitude de Jesus para com um doente especial, um leproso, que, além de doente, tinha de carregar permanentemente a cruz da humilhação social e do ostracismo imposto pela Lei. A avaliar pela sua súplica, trata-se de um homem humilde, delicado, cheio de confiança e consciente da sua dignidade: “Se quiseres, podes curar-me“. E Jesus, sem se fazer rogado, toca-o e responde-lhe “Quero: fica limpo“. A mesma bondade e compreensão, a mesma solicitude e atenção! Diante de quem sofre, física ou moralmente, a reacção pronta de Jesus é ajudar, aliviar, curar. E a nossa não pode ser outra. Não temos o dom de curar, mas sempre podemos ajudar, com pequenos serviços, com uma presença discreta e amiga, às vezes silenciosa, mas sempre atenta. A voz dos pobres, doentes e esquecidos… chega também hoje aos nossos ouvidos, como outrora, ao coração de Jesus, a voz do leproso: “se quiseres, podes curar-me“. E basta, às vezes, uma palavra e um sorriso! P. Fausto in Diálogo 1596 (Domingo VI do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreNa vida há de tudo, momentos de euforia e cansaço, de nostalgia e sonho, de desejos e realizações… de fraquezas e ilusões. Também os há de doenças. Há de tudo. Só que a memória curta e a resistência limitada dificultam a leitura da vida em chave de realismo pragmático e de esperança sadia e cristã. Ora, nada melhor que dar lugar à Palavra de Deus, para apreendermos o valor das dificuldades e do sofrimento, que, queiramos ou não, afecta a todos. No livro de Job, vemos um personagem feliz, abastado e de bem com a vida, repentinamente reduzido à miséria, à solidão e incompreensão, mesmo pelos de casa. Atingido por tanta desgraça e no meio dos seus lamentos angustiados, Job exibe a única bandeira que lhe resta, a da esperança! Impotente, mas não vencido. Sem nada nem ninguém. Apenas agarrado à única coisa que pode fazer um homem morrer de pé. Job entendera o sentido e o valor do sofrimento e como Deus, mesmo em silêncio, se mantivera atento. E Jesus, como se comporta face aos que sofrem? No Evangelho, vemos como é significativa a Sua atenção aos doentes e, a passagem que hoje lemos, sem ser exaustiva, relata-nos um dia do Seu trabalho. Entre o ensino, a pregação e a oração, ainda há tempo, nunca regateado, para os que sofrem, porque, atendê-los, parece dizer Jesus, é uma das formas mais verdadeiras e convincentes de pregar o Evangelho. E deixou-nos o exemplo. P. Fausto in Diálogo 1595 (Domingo V do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreHabitualmente as nossas assembleias dominicais proporcionam uma bela experiência religiosa, porque enriquecidas por cristãos, alguns vindos de bem longe. Aqui, cada qual, vindo do seu pequeno/grande mundo, sente mais viva a sua pertença ao Povo de Deus que se reune, como outrora os judeus na Sinagoga, para escutar a Palavra e cantar os Salmos. Como judeu cumpridor, Jesus não se dispensava do culto sinagogal, tomando a palavra, sempre que solicitado. E hoje O encontramos em Cafarnaúm, a ensinar. Ninguém perdia uma palavra. A surpresa era geral! Habituados à casuística dos escribas e ao discurso falacioso dos doutores da lei, bem distinto da linguagem viva e compreensivel de Jesus, interrogavam-se: “Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade…!” Dois mil anos passados, a mesma Palavra é em cada domingo proclamada nas nossas assembleias, mas não provoca o mesmo impacto, nem a mesma surpresa, nem a mesma sedução… E a culpa não é só dos padres…! Faltará no nosso projecto pessoal e familiar tempo para a Palavra de Deus e disponibilidade para a formação permanente, e, nessa medida, Deus se vai remetendo ao espaço que cada um Lhe reserva, conforme a sua medida e interesses, ou, quando muito, para o recôndito envergonhado dos nossos templos. P. Fausto in Diálogo 1594 (IV Domingo do tempo Comum – Ano...
Learn MoreDepois de termos assistido no domingo passado ao encontro feliz de dois discípulos de João Baptista com o “Cordeiro de Deus”, em pleno deserto da Judeia, Jesus não perde tempo, e, agora, nas margens do mar da Galileia, não se cansa de dizer ao que vem, correndo o risco de se repetir: “Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”. A linguagem vigorosa e provocante, semelhante à do Seu Precursor, parece dizer que Deus esgotara a paciência, mas não. Deus não esgotou, nem há-de jamais esgotar a Sua paciência connosco, porque nos ama infinitamente e a todos oferece a salvação. O alerta, porém, que vem de João Baptista e confirmado por Jesus, mantém-se pleno de actualidade. A Igreja, ao proclamar hoje este Evangelho, continua a mesma pregação, insistindo sempre na necessidade de conversão pessoal e comunitária como condição de entrada no Reino. Deus por nós já fez tudo, resta-nos fazer o “trabalho de casa”. E só a cada um cabe fazê-lo. Daí o apelo: “Convertei-vos”. P. Fausto in Diálogo 1593 (III Domingo do Tempo Comum – Ano...
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