“Erguei-vos !”

Terminámos o ano com o Evangelista Marcos e, com o Advento começamos outro, pela mão de Lucas, sempre com o horizonte num futuro violentamente carregado. Aos olhos incautos parece que Deus se compraz com a tragédia, aprecia ambientes depressivos e quer que vivamos de modo severo e austero, tornando mais pobres os dias da nossa existência. Nada disso! Quem acreditaria num Deus assim? Quem teria prazer em preparar a Sua vinda? Que acolhimento merecia a Sua mensagem? Não é apavorados que Deus gosta de nos ver, nem paralisados pela angústia do futuro, mas quer-nos atentos e vigilantes, aproveitando o Advento como tempo belo e precioso para o exercício da virtude da Esperança, apesar dos gemidos da humanidade e das convulsões da história. Como a mulher, prestes a dar à luz, vive a alegria antecipada por quem vai nascer, apesar do desconforto próprio do momento, também assim devemos viver em alegria e esperança o Advento. Para quem ousa ver além da borrasca, facilmente dará conta que o Evangelho não tem por objectivo descrever o fim do mundo e provocar o pânico, mas ajudar a descobrir o sentido da história. E esse sentido último, para o qual tudo se encaminha e converge, é Deus. Por isso, “Erguei-vos e levantai a cabeça”. O Advento é esse tempo belo e propício para meditar e deixar vir ao de cima “estas coisas”. P. Fausto in Diálogo 1633 (Domingo I do Advento – Ano...

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Um Rei diferente !

  Com a Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo, encerramos o ano litúrgico. E fazêmo-lo, assistindo ao interrogatório de Pilatos a Jesus, no pretório, num frente a frente revestido de intenso dramatismo, perturbado pelo eco das vozes da turba que aguarda, na praça, impaciente, o desfecho do julgamento. De um lado, bem protegido por vigoroso corpo da guarda, versátil na lógica do poder e apoiado no direito, está Pilatos; do outro, Jesus, de rosto empastado por sangue ressequido, só e indefeso, mas de postura digna e nobre, a ponto de desarmar o seu interlocutor: “Tu és o Rei dos judeus?” Sim, “é como dizes: sou rei”, mas não é dos judeus, nem deste mundo, apressou-se a responder serenamente Jesus. Não tenhas, pois, medo, porque o meu Reino não recruta mercenários, nem se defende pelas armas. O meu Reino é constituído por homens e mulheres livres, comprometidos apenas na fraternidade, na paz e na justiça…, em que ninguém manda mas todos servem, porque se sentem iguais em dignidade e Filhos de Deus, que é meu Pai. Como vês, Pilatos, o meu reino não é deste mundo, embora nasça no coração de cada pessoa e se realize em cada tempo. Não venho, pois, competir com ninguém, mas tão só mostrar e criar uma história completamente diferente, baseada na lógica do Serviço e na força do Amor. O discurso de Jesus não terá convencido Pilatos, mas continua actual e a merecer de todos nós, baptizados, o maior empenho nas tarefas da construção, aqui e agora, dos “Novos Céus e da Nova Terra”. É desse Reino de que Jesus é verdadeiramente Rei. P. Fausto in Diálogo 1632 (Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo – Ano...

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E depois ?

  Estamos a aproximar-nos do final do ano litúrgico e a Palavra de Deus, em linguagem pouco habitual, alerta-nos para uma realidade que ninguém pode evitar: o futuro. E DEPOIS ? Se há questões de que não temos resposta, esta é uma delas. Por mais que se explique, muito mais fica por explicar… E Jesus também não desvenda o mistério, não porque o desconheça, mas porque o mesmo ultrapassa os limites da nossa humana natureza. A verdade, porém, é que se trata de uma crise universal, de uma ruptura que altera estruturalmente todos os elementos humanos e cósmicos e a que nenhuma força pode resistir. Se as palavras de Jesus para anunciar a Sua vinda nos alertam para a tragédia e nos sabem a drama, não pretendem inculcar o medo e matar a esperança, mas garantir-nos a presença consoladora de Deus que não desiste de nós, mesmo no limite dos nossos limites. O Deus que Jesus nos revela não se compraz com o sofrimento, nem o Seu projecto é de morte. São de paz os Seus pensamentos, de felicidade o Seu projecto e de amor a Sua aliança. No entanto, à crise ninguém escapa. Que fazer? Vivamos cristãmente o presente, hoje e cada dia, no cumprimento dos nossos deveres e confiemos o futuro à Providência Amorosa de Deus. Isto é o que está nas nossas mãos. “Quanto ao dia e à hora”, não é das nossas contas. P. Fausto in Diálogo 1631 (XXXIII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Acautelai-vos” !

Há comportamentos que merecem sempre de Jesus um vivo repúdio. E sempre que pode, não deixa de precaver os seus discípulos e ouvintes para não se deixarem contaminar pela hipocrisia mascarada de virtude e de religiosidade, de que eram mestres consumados os escribas e outros ilustres do tempo. Na verdade, o que fazem, dizem e rezam, apenas mostra a sua sede de protagonismo e ganância desmedida, alimentada pelos pobres indefesos e incautos. As palavras não são meigas: “Acautelai-vos” de quantos, como os escribas, gostam de dar nas vistas pelo que vestem, dos cumprimentos reverentes na rua e acham que o seu lugar em tudo, mesmo na Igreja, é sempre na primeira fila, mas são os primeiros a roubar a própria casa à viúva que lhes pede um favor. “Acautelai-vos”, porque são lobos com pele de cordeiro. Bem ao contrário, o que comove Jesus são os gestos simples e discretos de mestres sem palavras, a confiança plena em Deus e a generosidade sincera, revelada sobejamente pela viúva do Evangelho de hoje. A balança de Deus não é como as nossas. Mais que a quantidade pesa o Amor. Que Deus nos proteja não só dos espíritos malignos que vagueiam pelo mundo… mas também, e especialmente, dos lobos com pele de cordeiro ou, como diz o Papa Francisco, dos diabos bem educados. P. Fausto in Diálogo 1630 (XXXII Domingo do Tempo Comum – Ano B)  ...

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Escuta !

  Os encontros de Jesus com escribas, fariseus e doutores da lei são habitualmente tensos, mas o de hoje, porém, foge à regra, porque há honestidade e abertura de coração. Jesus percebeu, e até elogiou, o escriba pelo seu comentário à resposta sobre o primado dos mandamentos: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” Sem discorrer, Jesus recorda o texto bem conhecido do Deuteronómio: “Escuta, Israel. O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças”, e acrescenta “O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Não há, conclui Jesus, nenhum mandamento maior que estes. E o escriba concordou. Num tempo em que o homem se torna cada vez mais a medida de todas as coisas, se sente mais capaz e simultaneamente mais vulnerável, a tentação de inventar deuses, que melhor respondam às conveniências e cubram as necessidades pessoais, é muito grande, mesmo para os católicos. A proliferação de movimentos e seitas religiosas, a busca de espaços mais ou menos esotéricos, com recurso à bruxa, ao espiritismo e a outras práticas,… são sinal claro da oportunidade e justeza da Palavra de Deus. Dar a primazia a Deus, Uno e Único, e ao próximo como a nós mesmos, continua a ser o segredo para um projecto de vida verdadeiramente humano. E por isso, alegre, fecundo e feliz. P. Fausto in Diálogo 1629 (XXXI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Que queres…?”

  Bartimeu, homem cego e a pedir esmola, duplamente dependente e carenciado, com pouso à beira do caminho para não ser estorvo. Eis o homem que se encontra hoje com Jesus, prestes a sair de Jericó com os discipulos e uma grande multidão, na direcção de Jerusalém. A deficiência física e a indigência permanente, que condenavam à situação de dependência e isolamento social, não impediram, porém, este homem de sonhar e ousar gritar contra tudo e contra todos: “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim”. O que era barreira intransponível proporcionou um acontecimento de graça, graças à atenção de Jesus aos gritos angustiados de Bartimeu, que face aos seus limites não se conformou, nem se intimidou com as resistências sociais. A coragem, a determinação e a confiança de Bartimeu foram largamente recompensadas pela atenção e solicitude de Jesus que, reconhecendo-lhe fé viva, curou da cegueira os seus olhos e o seu coração. Os comportamentos de Jesus, como este, indicam-nos claramente que os gritos dos homens e mulheres que sofrem devem ser para todos os cristãos, sempre, escutados também como Palavra de Deus. P. Fausto in Diálogo 1268 (XXX Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Primeiros em quê?

Apesar da permanente e intensa catequese de Jesus, o grupo restrito dos discípulos vive hoje um momento de grande tensão. Nos seus corações há ainda muito a limar e purificar, pois a atenção às precedências e a pretensão aos primeiros lugares ainda não foram erradicadas. Tudo começa com uma estranha exigência dos filhos de Zebedeu, Tiago e João: “Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua esquerda e outro à tua direita”. Não sabiam verdadeiramente o que pediam. Preocupações de ribalta, de holofotes, de aparências, de poder… são tentações de ontem e de hoje, mesmo na Igreja. Tentações a que não resiste quem persegue obstinadamente um lugar airoso, conceituado, vistoso… e não se conduz pela lógica do serviço e da gratuidade, que requer humildade e discrição. Como nenhum dos discípulos quer ficar em segunda linha, todos se indignam com as pretensões de Tiago e João. Com voz serena e paciência infinita, Jesus enuncia para todos a regra de ouro dos verdadeiros discípulos: “quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos”. As palavras de Jesus são também para nós, porque a grandeza do coração e a beleza de um projecto de vida dependem da qualidade do serviço que se presta, que é tão mais importante quanto maior fôr o amor que se põe naquilo que se faz. Mesmo que ninguém valorize e dê conta. P. Fausto in Diálogo 1627 (XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Que hei-de fazer?”

  Habituados a toda a espécie de encontros com Jesus, hoje assistimos a um, pouco habitual, que nos deixou embaraçados. E a Jesus também, a avaliar pela sua reacção à questão posta: “Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?” Ninguém conhecia o rosto, nem sabia o nome do homem que, ajoelhado diante de Jesus, fazia tal pergunta, sem dúvida importante e determinante para a sua vida e também para cada um de nós. Jesus olhou-o e indicou-lhe os mínimos: respeita a vida, a tua e a de todos os outros, não te deixes cegar pelo que não tens, vigia o coração e não esqueças que os teus pais merecem todo o apoio, e, além do mais, conheces os mandamentos de Deus. A resposta do homem não se fez esperar: “Mestre, tudo isto tenho eu cumprido desde a juventude”. Jesus, reconhecendo estar diante de um homem cumpridor escrupuloso dos mandamentos, remata: “Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me”. Ao ouvir tais palavras, o rosto do homem tornou-se sombrio e triste e, de olhos baixos, retirou-se da nossa presença. “Porque era muito rico”, acrescenta S. Marcos. E ninguém mais o viu. Seguidor permanente das oscilações bolsistas e ancorado numa recheada carteira de títulos…, o homem do Evangelho de hoje não foi capaz de dar uma resposta livre, generosa, audaz e confiante a Jesus, que o desafiava a ser Seu discípulo. Preferiu continuar a ser apenas boa pessoa. Perdeu-se e perdeu tudo. P. Fausto in Diálogo 1626 (XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Casar para quê?

  “Não separe o homem o que Deus uniu”, é o que se diz no ritual do Matrimónio, apesar de serem por muitos consideradas retrógradas, vazias e até desumanas, as propostas da Igreja para o projecto de vida conjugal, sustentado no compromisso, na fecundidade e na unidade. Com efeito, é cada vez mais difícil falar de matrimónio uno, fecundo e indissolúvel, numa sociedade caracterizada por ser descartável, individualista, consumista, instável e erotizada… Neste contexto, porém, têmo-nos mesmo de calar e “entrar na onda”? De modo nenhum, apesar do incómodo, às vezes sentido em reuniões de preparação para o Matrimónio ou na sua celebração, com Assembleias frequentemente pouco participativas. Cabe-nos apenas, respeitando outras opções, aprender com Jesus, a quem os fariseus ardilosamente põem a questão: “pode um homem repudiar a sua mulher?”. Há matérias que não se devem discutir e esta é uma delas. Consciente disso, Jesus evita a casuística em que os fariseus o querem enredar, valoriza a beleza do plano de Deus que une o homem e a mulher para serem felizes, lembra a sua comum dignidade e consequente complementaridade e exalta a grandeza do Matrimónio, com base num amor, tão belo e tão forte, capaz de levar o homem a “deixar o pai e a mãe, para se unir à sua esposa”, a fim de constituírem uma verdadeira e íntima comunidade de vida e de amor, sem tempo. É isto que Jesus comunicou e que não podemos calar. Escusado será dizer que aos casais cristãos caberá, sempre e em primeiro lugar, o dever de testemunhar a sua felicidade, com as dificuldades e alegrias próprias da vida matrimonial, vivida segundo o projecto de Deus. P. Fausto in Diálogo 1625 (XVII Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“…não anda connosco”!

“Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco”. Assim se queixava João a Jesus. Aos apóstolos não interessava o bem feito aos doentes, mas a defesa do grupo a que pertenciam. Jesus, porém, aproveita a ocasião para lembrar mais uma vez que a pessoa está acima de qualquer instituição e que o bem é sempre bem, venha de onde vier. A tentação de defender privilégios de grupo, de raça ou religião, também é de hoje e continuamos a assistir ao levantamento de muros e cercas e até a limpezas étnicas… Esquecemo-nos de que somos todos uns dos outros e habitantes e corresponsáveis desta casa comum que é dada a toda a família humana… Esquecemo-nos tantas vezes que o Reino de Deus é maior que a Igreja, e que há muita gente a fazer o bem sem pertencer ao “grupo dos doze”, porque comprometida genuinamente na defesa da vida e da dignidade da pessoa humana, na promoção da paz e da justiça… O que importa é arregaçarmos as mangas, unirmos as mãos e usarmos os meios que temos ao alcance, mesmo os mais simples e discretos, sempre com a força do amor que se deve pôr naquilo que se faz. Para isto, não convém cortar as mãos ou os pés ou arrancar os olhos, mas cuidar o coração. P. Fausto in Diálogo 1624 (Domingo XXVI do Tempo Comum – Ano...

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