“Não temas”

  Depois de uma atribulada viagem, que, apesar dos momentos de pânico e desespero de muitos, Jesus aproveitou para dormir tranquilamente na popa de um dos barcos, todos chegaram finalmente “à outra margem do lago”. O descanso, porém, foi breve, pois, mal puseram pé em terra, logo uma multidão rodeou Jesus e choveram pedidos aflitos de socorro, com um a merecer prioridade, que O leva apressadamente a dirigir-se a casa de Jairo, o chefe da sinagoga, que tinha a filha a morrer. No caminho, uma mulher, há muitos anos doente e sem esperança de cura, é atendida. A vida de Jesus era assim um corrupio permanente, em que os milagres confirmam uma das mais belas mensagens que calam no íntimo do coração dos homens. Deus não dorme e, mesmo quando já não há esperança e nada aconselha a lutar, continua a dizer hoje o que Jesus disse à filha de Jairo: “Levanta-te e anda”. É dificil aceitar a morte de uma filha aos 12 anos… é difícil aceitar uma doença que vai consumindo inexoravelmente a vida e os bens… é difícil compreender que ao mais profundo desejo de vida, tantas e tantas vezes a realidade responde com sofrimento e morte… é muito difícil resistir à tentação de perguntar “Deus, onde estás?” A resposta humilde de Deus será sempre a mesma: “Levanta-te e anda”. Estou contigo no mesmo barco e na mesma luta. “Não temas; basta que tenhas fé”. P. Fausto in Diálogo 1616 (Domingo XIII do Tempo Comum – Ano...

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Uma pergunta obrigatória !

    Este ano interrompemos o curso dos Domingos do Tempo Comum para celebrarmos o Nascimento do filho de Isabel e Zacarias, juntando as nossas às razões de contentamento e alegria dos vizinhos e parentes, pela dádiva que Deus lhes concedera de um filho, apesar de avançados na idade. O nome que Isabel escolhera, antes mesmo de ser consultado o marido, ao arrepio da tradição e costumes familiares, João, quer mesmo dizer “Dom de Deus”. E não seria apenas a circunstância de idade dos seus progenitores a motivar a pequena aldeia à alegria e à festa, pois todos se interrogavam “Quem virá a ser este menino?” Anos mais tarde é Jesus quem responde: “o maior entre os filhos de mulher”. A pergunta que toda a gente fazia mais ou menos explicitamente àcerca do pequenino João dever-se-ia fazer sempre diante de qualquer berço e cuja resposta não depende apenas dos pais, porque um filho, sendo sempre um Dom para a família, é-o também para a sociedade. Numa sociedade em que animais já disputam a atenção e a centralidade no agregado familiar e em que os seus direitos falam cada vez mais alto, é imperioso que se defenda a dignidade da vida humana, se reclame cada vez mais tempo, espaço e ternura para os filhos e se criem condições que tornem cada ser humano verdadeiramente um Dom único e irrepetível. P. Fausto in Diálogo 1615 (Solenidade do Nascimento de S. João Baptista – Ano...

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Deus e(m) nós !

  Neste Domingo, XI do Tempo Comum, Jesus surpreende-nos com duas parábolas: a da semente e a do grão de mostarda. É o seu estilo de pregação, com linguagem acessível a partir da vida, mas sempre disponível para esclarecer os discípulos, em lugar mais sereno e recolhido. Que actualidade têm, dois mil anos depois, estas parábolas, para nós, que vivemos na cidade ou no campo, independentemente da idade, profissão ou habilitações literárias? Muita, concerteza, porque é grande a tentação de impôr o nosso relógio, objectivos e programas a Deus, esquecendo-nos, com frequência, do Seu plano de salvação, de que não desiste, apesar dos nossos desvios e lógicas. Isto mesmo recorda a 1° leitura deste domingo, lembrando que é sempre de Deus a iniciativa amorosa, a condução paciente e a eficácia plena desse desígnio de salvação de toda a humanidade. Longe de serem convite à passividade, estas parábolas são desafio à criatividade, diligência e gratidão permanentes, porque sabemos que Deus não nos dispensa deste processo salvífico e liberta-nos da pressão e da tensão pela sua eficácia. Cabe-nos sempre “fazer a lavoura”, a tempo e horas. A colheita outros a farão, se não a pudermos fazer nós. No fim ninguém é prejudicado. O que importa é que seja abundante e de qualidade. Por isso não nos tiram o sono, nem bloqueiam as contradições e os obstáculos do caminho. Se assim não fosse, restariam a desilusão e o fracasso. P. Fausto in Diálogo 1614 (XI Domingo do Tempo Comum – Ano B)  ...

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Deus em primeiro

  Era tão intensa a vida diária de Jesus que muitas vezes não tinha tempo para comer ou dormir. Mas arranjava sempre tempo para estar com o Pai. Este ritmo, porém, trazia inquietos os familiares, e a Sua Mãe inclusivé, enquanto outros o achavam movido por uma qualquer força diabólica. É verdade que para todos a vida de Jesus parecia uma corrida contra o tempo, tão intensa que o obriga hoje a dar-lhes a resposta adequada. Aos que O diziam possuído por Belzebú, responde que a sua missão é precisamente combater satanás e destruir o seu poder, pelo que não serão as calúnias e as insinuações maliciosas dos escribas que o podem afastar do seu caminho. Quanto aos familiares que o julgavam “fora de si e se puseram a caminho para o deter”, olhando-os com infinita paciência, afirma solenemente que, sem desmerecimento dos laços de sangue, o mais importante é escutar a Palavra de Deus e cumprir a Sua vontade e esse é que é “meu irmão, minha irmã e minha Mãe”, como quem diz: acima de tudo e de todos só Deus e, com Deus em primeiro lugar, tudo no coração está devidamente ordenado para fazer o que se deve, no tempo que Deus nos dá. P. Fausto in Diálogo 1613 (X Domingo do Tempo Comum – Ano...

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Precedências!

  Do sábado, a instituição mais sagrada para todo o judeu, fala-nos a primeira leitura e o Evangelho do IX Domingo do Tempo Comum. Conhecedor profundo das leis judaicas, Jesus ousa hoje, também nesta matéria, deixar-nos lições que jamais devemos esquecer, porque “O Sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”. Para Jesus, acima da lei, mesmo a de sábado, está o homem; por isso, não hesita em curar o que tinha a mão atrofiada, em dia não permitido, contra todas as expectativas dos fariseus, e mostrar claramente, uma vez por todas, de que está sempre do lado das pessoas, especialmente as mais fragilizadas, e jamais do lado lei, mesmo a mais sagrada de todas. No plano de Deus, a pessoa está sempre em primeiro lugar e as leis só têm razão de ser se estiverem ao serviço da sua natureza e inviolável dignidade, independentemente da deficiência que apresente. Somos todos diferentes, é verdade, mas temos todos a mesma dignidade de Filhos de Deus, que deve ser defendida e respeitada por quem tem a missão de fazer leis. A irreverência de Jesus face à lei do sábado não é desrespeito, mas hino à liberdade face ao legalismo cego e proclamação solene do primado do Amor. P. Fausto in Diálogo 1612 (IX Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Deus é Amor”

Deus e religião sempre deram assunto de conversa e, não raro, de discussão entre pessoas, mesmo ditas ateias. Hoje, ao retomarmos o Tempo Comum, celebramos o Mistério fundamental da Fé, proclamando que Deus é Único, Uno e Trino, Pai, Filho e Espírito Santo, como Jesus revelou e mandou ensinar. Ao abordar este dogma, porém, o que move e comove não é o discurso dos teólogos, por mais bem elaborado que seja, mas é sabermos que Deus revelado por Jesus Cristo é Comunhão Trinitária e Família. Na linguagem sintética e feliz de S. João, Deus é Amor. E isso nos basta. O discurso teológico, sendo importante, ilumina, mas não dá ternura, não provoca intimidade e encanto, porque o que verdadeiramente enche o nosso coração é a certeza de que o Deus revelado por Jesus Cristo nos ama gratuita e infinitamente e jamais desiste de nós. A esta luz, soam-nos a “música celeste” as palavras com que termina o Evangelho da Missa de hoje: “Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos”. É bom que estas palavras nunca sejam esquecidas por nós. Todos temos momentos de desilusão e de solidão, de dúvida e de perplexidade, de medo e de exaltação. Na vida temos de tudo. Mas Deus não desiste, mesmo quando “estamos no fundo” e tudo parece ruir. Pode-nos parecer distante e distraído, mas está connosco e sempre atento, ainda que às vezes em silêncio. É Amor. P. Fausto in Diálogo 1611 (Solenidade da Santíssima Trindade – Ano...

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Vinde, Espírito Santo!

    Na hora da despedida, oito dias atrás, não houve lágrimas, mas era evidente o desconforto em todos os presentes. A tarefa, agora confiada a um pequeno grupo de homens, na sua maioria pescadores e de poucas letras, era demasiado pesada. De famílias sem pergaminhos, os apóstolos não tinham sido educados para profissões de topo e os saberes da pesca não os qualificavam para ministros do perdão, romeiros da paz e da justiça e arautos de Boas Novas, por caminhos e encruzilhadas. Mas algo de muito belo e intenso aconteceu na vida de quantos se encontravam em oração com Maria, Mãe de Jesus, agora confiada aos cuidados de João. De repente, um vento impetuoso que soltava a liberdade e tudo sacudia, um fogo que enchia e queimava o coração, uma força que não sabiam donde vinha, projetava para fora os até aqui hesitantes e cautelosos apóstolos. Agora, sem medo, enfrentam a cidade, sem se deixarem deter por nada, nem ninguém, de tal modo que, quem os vê e ouve, se interroga estupefacto : “não são todos galileus…?” É o Espírito Santo, que desceu abundantemente sobre Nossa Senhora e os que estavam com Ela em oração, que continua a garantir a fidelidade plena à missão de Jesus Cristo, confiada então aos Apóstolos e continuada hoje na Igreja. Que venha, pois, o Espírito Santo encher o coração dos fiéis e renovar a face da terra. P. Fausto in Diálogo 1610 (Solenidade de Pentecostes – Ano B)...

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Despedida

Desta vez foi. Os discípulos já estavam habituados aos encontros com o Ressuscitado em cada domingo. Foram momentos surpreendentes e bem aproveitados para refrescar a memória, esclarecer dúvidas, limpar lágrimas e arrumar o coração. Ao contrário das outras vezes, porém, desta, deixou trabalho de casa: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado”. Jesus não ensinou um guião doutrinal, não deixou manual de instruções para conquistar o poder ou converter o coração, não inventou qualquer varinha mágica, não deu chave de solução para os problemas e inquietações que afectam cada homem e a sociedade de cada tempo, deu apenas aos discípulos a missão de pregar o Evangelho. Ontem e hoje, pregar o Evangelho consiste fundamentalmente em anunciar que Deus ama a todos, quer-nos felizes e não desiste de ninguém. Esta é a Boa Nova que importa fazer chegar ao coração dos homens de todas as latitudes e culturas. Hoje cabe-nos fazê-lo. Alguns pela palavra e todos pelo testemunho. É o desafio de Jesus na Solenidade da Sua Ascensão. P. Fausto in Diálogo 1609 (Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano...

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Sem medida…

  Prestes a despedir-se, Jesus, neste Domingo, o VI da Páscoa, foi longe demais. “É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei”. Mais tarde, Santo Agostinho dirá que Jesus apenas quis dizer que “a única medida do amor é amar sem medida”. A fasquia está no máximo, para além de todos os limites. A fasquia é o próprio Deus. Nunca Jesus ousou desafiar a tanto, a tanto que não é possível atingir à frágil natureza humana. Apesar de tudo, não retira uma palavra e repete categoricamente: “o que vos mando é que vos ameis uns aos outros”. O específico do cristão não é, então, amar, porque disso fala e faz toda a gente e de muitos modos. O específico dos cristãos é amar como Cristo. Amar a todos, sem escolher rostos, nomes, culturas ou religiões. Amor desinteressado, sem restrições, inclusivo.“Puro dom, pura graça, pura entrega”. E isto Só Deus! Hoje, Jesus diz-nos, em jeito de despedida, que é assim que quer que os seus discípulos vivam, se querem ser fiéis, felizes e luminosos. Não nos diz que é fácil, mas compromete-se a estar sempre do nosso lado, apesar dos nossos limites e falhas. Ousemos nós, todos os dias, pôr a fasquia sempre mais alta. P. Fausto in Diálogo 1608 (VI Domingo da Páscoa – Ano...

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Lições do campo

Há dias fui a Fátima, e como as viagens de carro dão para muita coisa, rezei e cantei e saboreei a paisagem fugaz do caminho. Reparei em áreas de vinha bem cuidada e direitinha e já com talos à vista, a dar esperança de boa colheita. Vi também algumas vinhas velhas e abandonadas, de longos e adelgaçados ramos a rastejar, entrelaçados pelo chão. Vinhas cansadas, tristes e doentes. Neste Domingo, o V da Páscoa, Jesus convida-nos a um passeio pelo campo e visitar uma vinha. Simples no seu modo de pensar e dizer, Jesus recorre ao campo para nos falar de coisas muito importantes. A uma sociedade fluída, consumista e individualista como a nossa, Jesus declara: “Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim… sem Mim nada podeis fazer”. Palavras ao arrepio do mundo de hoje, mais dado à reivindicação de direitos que ao assumir de deveres, mais ocupado na busca do sucesso individual e imediato do que esforçado na fidelidade a compromissos, mesmo que apenas assentes na honra e na palavra… Num mundo assim, torna-se difícil compreender a poda e outros cuidados indispensáveis à saúde da vinha, para que dê boas e saborosas uvas. “Para bom entendedor meia palavra basta”. Jesus, porém, ao dizer-nos tudo tão claramente, convida-nos a levar a sério a Sua palavra. P. Fausto in diálogo 1607 (V Domingo de Páscoa – Ano B)...

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