Apesar da permanente e intensa catequese de Jesus, o grupo restrito dos discípulos vive hoje um momento de grande tensão. Nos seus corações há ainda muito a limar e purificar, pois a atenção às precedências e a pretensão aos primeiros lugares ainda não foram erradicadas. Tudo começa com uma estranha exigência dos filhos de Zebedeu, Tiago e João: “Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua esquerda e outro à tua direita”. Não sabiam verdadeiramente o que pediam. Preocupações de ribalta, de holofotes, de aparências, de poder… são tentações de ontem e de hoje, mesmo na Igreja. Tentações a que não resiste quem persegue obstinadamente um lugar airoso, conceituado, vistoso… e não se conduz pela lógica do serviço e da gratuidade, que requer humildade e discrição. Como nenhum dos discípulos quer ficar em segunda linha, todos se indignam com as pretensões de Tiago e João. Com voz serena e paciência infinita, Jesus enuncia para todos a regra de ouro dos verdadeiros discípulos: “quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos”. As palavras de Jesus são também para nós, porque a grandeza do coração e a beleza de um projecto de vida dependem da qualidade do serviço que se presta, que é tão mais importante quanto maior fôr o amor que se põe naquilo que se faz. Mesmo que ninguém valorize e dê conta. P. Fausto in Diálogo 1627 (XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreHabituados a toda a espécie de encontros com Jesus, hoje assistimos a um, pouco habitual, que nos deixou embaraçados. E a Jesus também, a avaliar pela sua reacção à questão posta: “Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?” Ninguém conhecia o rosto, nem sabia o nome do homem que, ajoelhado diante de Jesus, fazia tal pergunta, sem dúvida importante e determinante para a sua vida e também para cada um de nós. Jesus olhou-o e indicou-lhe os mínimos: respeita a vida, a tua e a de todos os outros, não te deixes cegar pelo que não tens, vigia o coração e não esqueças que os teus pais merecem todo o apoio, e, além do mais, conheces os mandamentos de Deus. A resposta do homem não se fez esperar: “Mestre, tudo isto tenho eu cumprido desde a juventude”. Jesus, reconhecendo estar diante de um homem cumpridor escrupuloso dos mandamentos, remata: “Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me”. Ao ouvir tais palavras, o rosto do homem tornou-se sombrio e triste e, de olhos baixos, retirou-se da nossa presença. “Porque era muito rico”, acrescenta S. Marcos. E ninguém mais o viu. Seguidor permanente das oscilações bolsistas e ancorado numa recheada carteira de títulos…, o homem do Evangelho de hoje não foi capaz de dar uma resposta livre, generosa, audaz e confiante a Jesus, que o desafiava a ser Seu discípulo. Preferiu continuar a ser apenas boa pessoa. Perdeu-se e perdeu tudo. P. Fausto in Diálogo 1626 (XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn More“Não separe o homem o que Deus uniu”, é o que se diz no ritual do Matrimónio, apesar de serem por muitos consideradas retrógradas, vazias e até desumanas, as propostas da Igreja para o projecto de vida conjugal, sustentado no compromisso, na fecundidade e na unidade. Com efeito, é cada vez mais difícil falar de matrimónio uno, fecundo e indissolúvel, numa sociedade caracterizada por ser descartável, individualista, consumista, instável e erotizada… Neste contexto, porém, têmo-nos mesmo de calar e “entrar na onda”? De modo nenhum, apesar do incómodo, às vezes sentido em reuniões de preparação para o Matrimónio ou na sua celebração, com Assembleias frequentemente pouco participativas. Cabe-nos apenas, respeitando outras opções, aprender com Jesus, a quem os fariseus ardilosamente põem a questão: “pode um homem repudiar a sua mulher?”. Há matérias que não se devem discutir e esta é uma delas. Consciente disso, Jesus evita a casuística em que os fariseus o querem enredar, valoriza a beleza do plano de Deus que une o homem e a mulher para serem felizes, lembra a sua comum dignidade e consequente complementaridade e exalta a grandeza do Matrimónio, com base num amor, tão belo e tão forte, capaz de levar o homem a “deixar o pai e a mãe, para se unir à sua esposa”, a fim de constituírem uma verdadeira e íntima comunidade de vida e de amor, sem tempo. É isto que Jesus comunicou e que não podemos calar. Escusado será dizer que aos casais cristãos caberá, sempre e em primeiro lugar, o dever de testemunhar a sua felicidade, com as dificuldades e alegrias próprias da vida matrimonial, vivida segundo o projecto de Deus. P. Fausto in Diálogo 1625 (XVII Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn More“Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco”. Assim se queixava João a Jesus. Aos apóstolos não interessava o bem feito aos doentes, mas a defesa do grupo a que pertenciam. Jesus, porém, aproveita a ocasião para lembrar mais uma vez que a pessoa está acima de qualquer instituição e que o bem é sempre bem, venha de onde vier. A tentação de defender privilégios de grupo, de raça ou religião, também é de hoje e continuamos a assistir ao levantamento de muros e cercas e até a limpezas étnicas… Esquecemo-nos de que somos todos uns dos outros e habitantes e corresponsáveis desta casa comum que é dada a toda a família humana… Esquecemo-nos tantas vezes que o Reino de Deus é maior que a Igreja, e que há muita gente a fazer o bem sem pertencer ao “grupo dos doze”, porque comprometida genuinamente na defesa da vida e da dignidade da pessoa humana, na promoção da paz e da justiça… O que importa é arregaçarmos as mangas, unirmos as mãos e usarmos os meios que temos ao alcance, mesmo os mais simples e discretos, sempre com a força do amor que se deve pôr naquilo que se faz. Para isto, não convém cortar as mãos ou os pés ou arrancar os olhos, mas cuidar o coração. P. Fausto in Diálogo 1624 (Domingo XXVI do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreJesus continua hoje com a mensagem que desconcertara Pedro no domingo passado e que parece provocar resistências também nos outros discípulos. Ao discutirem entre si sobre quem tem o melhor curriculum e apresenta mais credenciais para ser o maior, parecem pouco interessados no discurso do Mestre e bem mais preocupados com o futuro de cada um. A sua ambição era vencer o “campeonato” do poder e não o de servir. Jesus, porém, não julga, não repreende os discípulos, nem se mostra ofendido, ao saber da conversa alimentada, em surdina, por todos, quando regressavam a casa, em Cafarnaúm. Há muito que sabia quem escolhera e escolhera livremente homens portadores das debilidades de qualquer mortal, que continuavam ainda, apesar de tudo o que viam e ouviam, de coração empedernido e cabeça dura. Longe de Jesus, porém, desanimar ou dispensar qualquer deles. Chegados a casa, diz-lhes: “Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos”. E nada mais acrescenta. O gesto de acolhimento e de ternura de Jesus a uma criança, indicará claramente aos discípulos e aos homens de todos os tempos, o caminho da humildade e da confiança, da simplicidade e da generosidade… para se ser discípulo. P. Fausto in Diálogo 1623 (XXV Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreHoje acompanhamos Jesus, que vem dos lados de Tiro em direcção ao mar da Galileia. No caminho há um encontro curioso com um surdo-mudo, apresentado por uns amigos, que suplicam a Jesus apenas que lhe imponha as mãos. E Jesus, afastando-se da confusão dos mirones, acede imediatamente a libertar o surdo-mudo da prisão que o condenava ao silêncio, a vida inteira. Tudo se passa longe da multidão, sem ruído, a sós. Porque o bem não faz barulho e gosta muito da discrição, Jesus recomenda “que não contassem nada a ninguém”. “Mas, quanto mais lho recomendava, tanto mais intensamente eles o apregoavam”, porque não continham o assombro provocado pelos gestos e palavras de Jesus. De assombro se enche mais tarde também o coração de muitos que vêem o comportamento dos cristãos da comunidade de Jerusalém. O gosto pela Palavra, a fidelidade ao ensino apostólico, a alegria com que celebravam a fé e partilhavam os bens e a amizade que reinava entre todos eram contagiantes… Por aqui também passa hoje o segredo da nova evangelização que deve comprometer todos os baptizados. P. Fausto in Diálogo 1621 (Domingo XXIII do Tempo Comum – ano B) ...
Learn MoreAo encontro de Jesus vinha sempre muita gente de longe e de perto. Hoje é numeroso um grupo de fariseus e escribas, que vem propositadamente de Jerusalém para pôr uma questão: “Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?” E a resposta não tardou, com palavras do Profeta Isaías: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”. E chamou-os “hipócritas”. Resposta dura da parte de Jesus, mas plena de razão. Para quem defende o primado absoluto das leis e costumes e cultiva as aparências, descuidando a consciência e o coração, como os fariseus e outros, Jesus proclama bem claro, mais uma vez, o primado da pessoa humana que, mesmo doente, pobre, emigrante ou marginal, nunca perde a sua dignidade. E diz claramente a todos que mais importante que a preocupação por lavar as mãos, os copos, os jarros ou as vasilhas, é a formação da consciência e o cuidado do coração, porque “não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro”, mas somente o que sai do seu íntimo. É isso que torna verdadeiramente o homem indigno. Com esta posição, Jesus também nos alerta para a necessidade de cuidarmos a nossa “nascente”, preferindo sempre o serviço à pessoa e não o culto das aparências, ainda que respeitáveis e legais. P. Fausto in Diálogo 1620 (XXII Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreJesus sabe que os apóstolos não são super-homens, por isso, no meio da gente que vai e vem à procura de uma palavra de conforto, um gesto de cura ou um momento de atenção, diz-lhes: “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”. Na verdade, mal tinham acabado uma bela, bem sucedida mas extenuante missão “dois a dois” e nem tempo tinham para comer! “Vinde e descansai um pouco”. Jesus não quer espremer os apóstolos, nem tão pouco a nós, dois mil anos passados destes acontecimentos na margem do Lago de Genesaré; quer-nos felizes, cansados por fazermos tudo o que está ao nosso alcance, mas conscientes de que a última palavra é sempre de Deus. Quer-nos cansados, é verdade, mas não exaustos e incapazes para novas aventuras. Com este “Diálogo” interromperemos a publicação da nossa folha semanal. Retoma-la-emos nos princípios de Setembro. Até lá a actividade litúrgica e sacramental da Paróquia não pára. Para todos o desejo sincero de um bom e abençoado tempo de descanso, de modo que possamos retomar os trabalhos do próximo ano apostólico, com redobrado vigor e criatividade. P. Fausto in Diálogo 1619 (XVI Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreDeus mostra-nos neste Domingo que não abandona a humanidade, por isso, atento e solícito, escolhe, em cada tempo, livremente, os mensageiros, para mostrar a luz da verdade e o bom caminho. Assim aconteceu com Amós (sec.VIII a.C.) ou os Apóstolos, de que trata hoje a Liturgia da Palavra, pessoas que, à partida, nem a linhagem nem a cultura recomendariam a sua escolha. Os critérios de Deus são insondáveis e surpreendentes, porque muitas vezes não parece recair a escolha nos mais capazes. Assim vemos Amós, livre e corajoso, consciente das suas incapacidades mas apoiado na força de Deus, erguer a sua voz contra ricos e poderosos; assim os Apóstolos que, enviados sem pão, sem alforge, sem dinheiro, sem nada, mostram que a eficácia da pregação e da acção apostólica não vem dos meios humanos, mas da força de Cristo que envia. Ser escolhido e enviado por Deus dá aos profetas, aos apóstolos e aos missionários de todos os tempos a liberdade, a ousadia e o direito de desempenharem a missão fielmente, apesar dos constrangimentos, apenas ancorados na força do Alto. Sem pão, sem alforge, sem dinheiro, apenas uma muda de roupa, umas sandálias nos pés e um cajado na mão, parecem-nos exigências “exageradas” nos tempos que correm, mas são simplesmente desafios à busca permanente do mais profundo e essencial no homem, porque, como dizia Santa Teresa de Calcutá, “tudo o que não serve, pesa”. E quanto mais “leves”, mais libertos, mais audazes e com mais fogo no coração para a missão. É destes mensageiros que o nosso mundo precisa. P. Fausto in Diálogo 1618 (XV Domingo do Tempo Comum – Ano...
Learn MoreJesus não esquecera os caminhos da sua terra, nem perdera as raízes familiares e de vizinhança, por isso, não é de estranhar que O vejamos, hoje, em Nazaré. As expectativas do reencontro eram altas, alimentadas com a fama dos milagres e a sabedoria do discurso. Bem cedo, porém, se percebeu que o coração daquela gente estava fechado à Boa Nova e mais interessado na manutenção ritualística dos preceitos religiosos, que na novidade radiosa da mensagem que Jesus, deles bem conhecido, era portador. A expectativa deu lugar à dúvida, à incredulidade, ao juízo, à indiferença… E Jesus admirou-se da falta de fé daquela gente! Apesar do desconforto, porém, não se exaltou, não acusou… e, constatando que não tinha condições para fazer na sua terra o bem que desejava, retirou-se. “E percorria as aldeias dos arredores, ensinando”. Para os que “medem” o sucesso pelos resultados obtidos ou “semeiam” com direito a colher ou se envolvem se tiverem palco… terá sido uma experiência frustrante. Não para Jesus. Para Jesus este “insucesso” não O bloqueou, enervou ou desgastou, mas motivou para ir a outras terras e alargar horizontes. Outra não pode ser a nossa atitude, hoje, ainda que a sociedade nos pareça cada vez mais longínqua e indiferente. P. Fausto in Diálogo 1617 (XIV Domingo do Tempo Comum – Ano...
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