Querer menos sem deixar nada do que está a mais

 

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Desintoxicar é um desejo bom e necessário, para nós que, de facto, vivemos tão intoxicados, tão cheios, tão saturados, tão sôfregos, tão dispersos. E, tantas vezes, tão vazios. No Ocidente, o desejo de menos será consequência de termos demasiado: demasiada comida, demasiada informação, demasiadas experiências, demasiado divertimento, demasiadas possibilidades, demasiada sofisticação. Por isso, mesmo este desejo de desintoxicação pode revelar-se ambíguo. Se o desejo de menos caminha junto com a indisponibilidade para deixar o que quer que seja, colocar a questão da desintoxicação pode ser, ela mesmo, sinal de toxidade. Efectivamente, queremos light, mas com o prazer fácil do fastfood; queremos sem açúcar, mas continuando a beber refrigerantes; queremos sem gordura, mas continuando a comer batatas fritas; queremos saborear, mas de modo imediato e intenso – vale para a vida espiritual e para a liturgia, como para a música e a literatura; queremos uma vida mais simples, mas sem deixar qualquer comodidade. Queremos sol na eira, mas com chuva no nabal.
Quanto bastará para termos o necessário? Poderemos guardar no coração o desejo de renunciar ao supérfluo para viver só do necessário?

[Pe José Frazão, sj.]

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