Dois dedos de Liturgia (27)

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– Quais são as insígnias episcopais?

O Concílio Vaticano II não só recuperou a tradição bíblica e patrística, mas também propôs à liturgia da Igreja uma preocupação pastoral muito importante: auxiliar o povo cristão a compreender melhor o sentido da celebração, participando de uma forma plena, activa e comunitária (Sacrossanctum Concilium, n.º 21). O Concílio insistiu na importância dos sinais na liturgia, vista como celebração do mistério de Cristo e da Igreja, através dos sinais sensíveis (SC n.º 4), dos ritos e das orações (SC n. 48). Sobretudo nestes últimos anos, foi descoberta a importância da comunicação na liturgia, através dos sinais e dos gestos, denominada como linguagem “não-verbal”.
Aos sinais sensíveis, próprios da liturgia, pertencem também as vestes sagradas e as insígnias. Elas manifestam a diversidade dos ministérios pelos quais é constituída a Igreja, Corpo Místico de Cristo. O Bispo tem insígnias próprias que o distingue de todos os outros, quando preside a uma celebração litúrgica. São elas a mitra, o báculo e o anel.

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A MITRA

Já há muitos séculos que os Bispos usam a Mitra em alguns momentos da celebração litúrgica para cobrir a cabeça. Tem grande interesse histórico a mitra do beato Pio IX (1846-1878) usada em 1854 na solene proclamação do dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria. O uso da mitra é mais antigo do que da tiara. A primeira referência histórica do uso da Mitra é do século XI com o Papa S. Leão IX (1049-1054). Antes, os bispos não punham nada a cobrir a cabeça.
A partir da 2ª metade do século XII, todos os bispos usam mitra. Quanto à sua origem, a mitra litúrgica deve ter derivado de um “adorno” extra-litúrgico que servia para cobrir a cabeça. Era muito usado, todos os dias, pelos imperadores e pelos altos funcionários da Coroa, principalmente no Oriente. Tal “peça de vestuário” era já usada pelos Papas no século VIII, quando participavam em passeios a cavalo e nas cerimónias solenes que decorriam fora do templo.
Pela História, sabemos que os Papas substituíram a Mitra pela Tiara (século XVII com o Papa Urbano VIII) que era composta de três coroas que tinham o seguinte significado, expresso na fórmula da entrega e da coroação do Papa: o poder do Pai, a sabedoria do Filho, o amor do Espírito Santo; alguns historiadores falam das três virtudes teologais. O Papa Paulo VI foi o último a usar a tiara para realçar o “serviço” a que é chamado o sucessor de Pedro que, como Jesus Cristo, “veio para servir e não para ser servido”. Em 1964, por vontade do Papa, a tiara foi vendida e o dinheiro entregue aos pobres. Hoje, conserva-se no tesouro da Basílica da Imaculada Conceição, em Washington.
Com João Paulo I (1978) foi modificado o rito da coroação do Papa, usando o termo “Início do Ministério do Supremo Pastor”. A partir desta altura, o Bispo de Roma usa somente a mitra, insígnia comum a todos os bispos para sublinhar a relação de comunhão e de unidade entre o Sucessor de Pedro e o Colégio Episcopal.
A Tiara permanece ligada a uma sensibilidade unida a um período histórico específico e a uma cultura já ultrapassada. Porém, é um testemunho de que a Igreja, ao longo dos séculos, soube acolher os sinais e as expressões próprias das diversas culturas para comunicar aos homens uma mensagem de fé. A Tiara não só é um sinal de diversos momentos culturais, mas também um estímulo para se fazer a purificação de alguns sinais usados no culto cristão para que estes sejam adequados para comunicar uma mensagem de fé ao homem contemporâneo. A Tiara era sinal de um poder papal religioso e temporal, felizmente ultrapassado.
A Mitra é mais adequada para exprimir não o poder, mas o serviço episcopal; expressa a actual necessidade de uma Igreja em contínua purificação das tentações terrenas para brilhar no mundo unicamente como sinal do poder do Espírito Santo.

O ANEL

O Anel Episcopal é uma das insígnias episcopais mais importantes para compreender o ministério episcopal. É entregue no rito da Ordenação e o Bispo deve trazê-lo sempre (Cf. Ceremonial dos Bispos, 58).
A origem e a história do anel estão envolvidas num contexto antropológico e num contexto bíblico (Cf. Est 8, 8; Gn 41, 40-42; Lc 15, 22). Segundo o relato do Bispo Optato de Milevi, é muito provável que já nos finais do século IV, os Bispos usassem anel que lhes era entregue no rito da Ordenação. As primeiras referências históricas credíveis de um rito litúrgico de entrega do “anulus episcopalis” no rito da Ordenação são da primeira metade do século VII, oriundas da Espanha, nomeadamente do IV Concílio de Toledo (633) e de Santo Isidoro de Sevilha (560-636). Dois séculos mais tarde, no tempo do Imperador Carlos II, o Calvo (843-877) e do Papa S. Nicolau I (858-867), o uso e entrega do anel chega ao ritual franco.
Desde a sua origem até ao triste período medieval da investidura, o anel tinha, essencialmente, a função de selo e era feito em metal, onde se gravava o selo. É muito provável que o uso do anel nos Bispos fosse motivado, além das razões simbólicas, pela funcionalidade para os próprios Bispos autenticarem os seus actos (era um costume muito usado na antiguidade).
Durante o período do feudalismo episcopal, o anel perde o seu significado original e torna-se sinal do poder temporal. Com a vitória da Igreja sobre as investiduras, o anel, tendo perdido o seu simbolismo original, assume um novo significado, o nupcial. O anel já era muito usado no rito do matrimónio. Assim, o anel episcopal exprime o mistério nupcial de Cristo e da Igreja. O Bispo, imitando Jesus Cristo, era considerado esposo da Igreja a ele confiada. O novo simbolismo chegou a modificar o aspecto do anel: em vez de um selo gravado em metal, é agora colocada uma pedra preciosa.
A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II conservou o significado nupcial do anel episcopal, terminando, assim, a simbologia originária do selo e da autoridade-honra. Com o anel, o Bispo é o esposo da Igreja local e é-lhe pedido que seja fiel e puro na fé e na conduta da vida. Sem recuperar o significado de selo, depois do Concílio, o anel abandona, na maior parte das vezes, a pedra preciosa de cor, típica dos anéis dos nobres e dos bispos do Renascimento. Assume, agora, uma forma mais simples e mais significativa da função episcopal. Exemplo disto foram os anéis dos últimos Papas: Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II.
Gostaria de aqui fazer referência ao “anulus piscatoris”, ou seja, ao Anel do Pescador. Ao longo dos séculos até ao início do pontificado do Papa Bento XVI, o Anel do Pescador sofreu várias transformações até assumir a forma de um selo no qual está escrito o nome do Pontíficie e no centro está representada a imagem de São Pedro que na barca lança as redes para pescar. Como o nome diz, originariamente tratava-se do anel com o qual o Papa punha o seu selo nos documentos. A partir da 2ª metade do século XIX, o Anel do Pescador perde a sua forma de anel para assumir a de um simples selo. O Anel do Pescador dos Papas, apesar de já não ser utilizado e ter perdido a forma de anel, manteve-se até aos nossos dias como testemunho da origem simbólica do selo que desapareceu no século X com o anel episcopal.
Depois do Concílio Vaticano II, o anel episcopal do Bispo de Roma, deixando a pedra preciosa de cor, assumiu uma forma mais simples, correspondendo mais à nobre simplicidade que o Concílio ansiava. Assim, o anel do Papa era igual ao anel dos outros bispos. Por exemplo, o Papa João Paulo II usou sempre o anel que recebeu das mãos do Papa Paulo VI no dia 26 de Junho de 1967, quando se realizou o Consistório no qual foi nomeado cardeal.
Com o início do ministério petrino do Papa Bento XVI, foi repensada a forma do anel do Papa. Surgiu o desejo de que o anel episcopal do Papa, mantendo a forma e a simplicidade actual comum aos anéis de todos os bispos, fosse dotado de algo para indicar que quem o usa é Sucessor do Apóstolo Pedro. Assim, o Anel do Pescador recuperou a forma de anel com a representação do pescador da Galileia e com a gravação do nome do Papa. O Anel do Pescador é, actualmente, um dos sinais fortes que exprime o “munus” específico do Sucessor de Pedro. O Anel do Pescador, como também o Palio, foi entregue solenemente ao novo Papa na celebração do início do Pontificado no dia 24 de Abril de 2005.

O BÁCULO

O Báculo é uma insígnia comum a todos os Bispos. Todavia, o báculo dos Papas não tem a forma do báculo episcopal, caracterizado pelo tradicional “encaracolado”, mas a forma de uma cruz. Hoje, à cruz levada pelo Papa também se chama báculo. O báculo, como o anel, tem o seu significado dentro de um contexto tanto antropológico como bíblico (cf. Ex 4, 17.20; Sal 23, 4), como também patrístico. Orígenes e Santo Agostinho relacionam o bastão de Moisés com a Cruz de Cristo.
A origem litúrgica do báculo não é muito clara. É provável que tenha a sua origem no Oriente. Em Constantinopla, o báculo, talvez tenha sido introduzido pelo Imperador que o entregava aos Patriarcas. Depois, torna-se uma insígnia usada nas ordenações episcopais. No Ocidente, o uso do báculo nasce nos mosteiros. Inicialmente, o báculo fazia parte do vestuário do monge: era considerado como que o companheiro de viagem e sinal da cruz de Cristo. Nos séculos VII e VIII, o báculo foi usado pelos Abades na Gália e nas Ilhas Britânicas. As primeiras referências históricas de um rito litúrgico para a entrega do báculo ao Bispo são do século VII, oriundas, como no caso do anel, da Espanha, nomeadamente do IV Concílio de Toledo. Dois séculos mais tarde, no reinado do Imperador Carlos II e do Papa S. Nicolau I, o báculo começa a fazer parte das insígnias dos Bispos da Gália. Todavia, o uso litúrgico do báculo foi mais lento. Só com o Pontifical de Guilherme Durando, Bispo de Mende (1230-1296), é que o báculo passa a ser usado na maior parte das celebrações litúrgicas presididas pelo Bispo. Em toda a História da Igreja, o báculo conservou sempre o seu significado primitivo: sinal de autoridade, de governo e de guia (conduta).
Os Papas nunca aceitaram a insígnia do báculo, apesar de terem aceitado o uso do anel da liturgia espanhola e gaulesa. Os Papas já tinham uma insígnia própria, denominada a “ferula”. Era um pau com uma cruz no cimo que tinha também o nome de Tau. O báculo não podia entrar na liturgia papal, porque já existia uma insígnia análoga própria para os Papas e também porque o báculo era o sinal de uma autoridade recebida de outros e a eles submetidos; daí, segundo alguns historiadores litúrgicos, a origem da curva “encaracolada”. Sendo assim, o Papa nunca poderia usar o báculo. Quanto ao significado, tanto a “ferula” como o báculo eram sinal de autoridade, de jurisdição e de governo. Nunca se entrega o báculo no rito do início do ministério petrino do Bispo de Roma. Como regra, a “ferula” entregava-se ao novo Papa quando este tomava posse da Basílica de S. João de Latrão, a Catedral do Papa e, salvo raras excepções, o seu uso era extra-litúrgico.
Com o Papa Paulo VI, a tradição da “ferula” foi recuperada e incorporada no uso litúrgico. A partir dessa altura, os Papas usam nas celebrações litúrgicas um “báculo” em forma de cruz que recorda, na sua forma artística, a antiga “ferula”.
O “báculo”, usado pelo Papa João Paulo II e pelo Papa Bento XVI, é uma reprodução do “báculo” de Paulo VI e é considerado, actualmente, em todo o mundo como um dos sinais característicos do Papa.

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