
A Paróquia de Nossa Senhora da Glória – Sé de Aveiro, na fidelidade ao magistério da Igreja universal e diocesana, na sequência dos dinamismos da missão jubilar e atenta à leitura do recenseamento da prática dominical, quer assumir-se como comunidade evangelizadora de todos, concretamente crianças, adolescentes, jovens e famílias, aberta e inclusiva às pessoas não residentes, tornando possível promover, por meio de experiências significativas e fortes, a consciência, em todos, da pertença alegre e feliz a esta porção do Povo de Deus.
A Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” (E.G.) apresenta linhas de força para a pastoral da Igreja nos próximos anos. Nesta que é a primeira e programática Exortação Apostólica do Papa Francisco encontramos uma torrente de “óleo de alegria” (Is 61, 3) “a inundar, lubrificar e tonificar”[1] todos os recantos da Igreja. Aqui se inspira a nossa diocese ao assumir como lema pastoral “Ousar a alegria da conversão eclesial”. Também nós, enquanto comunidade paroquial, precisamos de beber aqui os desafios e os imperativos para a nossa ação pastoral.
Em sintonia com o II Sínodo de Aveiro (1990-1995) e na sequência da Missão Jubilar, da qual queremos aproveitar dinamismos e sinergias, levamos a cabo, em Março de 2013, um recenseamento da prática dominical. Os dados recolhidos e já analisados e conhecidos vieram revelar que a prática dominical dos nossos residentes se situa nos 10%. Diante disto, sem ficarmos fatalmente paralisados ou aturdidos, urge que o nosso testemunho pessoal e comunitário possa contagiar a todos porque “a Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração” (E.G.14). Além disso, a abertura e o acolhimento a tantos irmãos (48% dos praticantes) que entre nós celebram a sua fé é nossa idiossincrasia que não podemos esquecer ou menosprezar.
O Concílio Vaticano II, na Constituição Apostólica “Lumen Gentium”, afirmou: “Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente” (L.G.9). O Povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados, num circuito restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos sem paredes, nem barreiras e sem fronteiras de qualquer espécie.
Enquanto comunidade cristã, não somos nem queremos ser “um grupo de eleitos” (E.G.28); pretendemos “o envolvimento” (E.G.24) de todos, de modo que cada um descubra e assuma: “Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo” (E.G.273). Isto faz de todos nós discípulos missionários, “sujeitos ativos de evangelização” (E.G.120) e “evangelizadores com espírito”, ou seja “evangelizadores que se abrem sem medo à ação do Espírito Santo” (E.G. 259). Isto significa igualmente que não basta levar a efeito ações missionárias esporádicas; “é, antes, toda a atividade da Igreja que se deve pôr em clave missionária”[2].
Deste enfoque, é fácil entender que “não precisamos de um projeto [pastoral] de poucos para poucos, ou de uma minoria esclarecida ou testemunhal que se aproprie de um sentimento coletivo” (E.G.239). Reforçar este sentimento comunitário, avivar a consciência de pertença à comunidade, implica não deixar ninguém de fora, nem para trás: há que saber caminhar com os que vão à frente, com os que vão a meio e com aqueles que se atrasaram.
Neste sonho intemporal de ser Igreja alegre, sem fronteiras convém não esquecer que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (E.G.1). “O Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria” (E.G.5).
Na fidelidade ao Evangelho e tendo em conta os desafios do Papa Francisco, e também do nosso Bispo, D. António Moiteiro, precisamos de assumir uma atitude de “saída”, (E.G.24), para sermos Igreja que se faz à estrada (cf. E.G.49), que toma a iniciativa, que se envolve, acompanha, frutifica e festeja, que procura novos caminhos, sem medo de se ferir ou enlamear. “Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa” (E.G.24), mesmo sabendo que sair “não significa correr pelo mundo, sem direção nem sentido” (E.G.46).
Tomar a iniciativa da saída, não condicionada por muros, barreiras ou fronteiras, sugere criatividade e ousadia, “de modo que não fiquemos encalhados na nostalgia de estruturas e costumes que já não são fonte de vida no mundo atual” (E.G.108) ou de costumes que “agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do evangelho” (E.G.43). Esta atitude de permanente saída sugere e requer uma Igreja com as portas abertas (E.G.46), uma Igreja que é “mãe de coração aberto” (E.G.5), “casa aberta do Pai” (E.G.47), que prefere abrir portas a fechá-las, uma vez que “ninguém vem bater a uma porta blindada”[3].
Esta opção missionária há de ser capaz de transformar tudo, “para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (E.G.27).
O sonho que traduzimos no nosso lema pastoral, mais do que um objetivo quantificável e mensurável, coloca-nos numa dinâmica de caminho permanente ao encontro do Senhor, conscientes de que quanto mais nos aproximamos da humanidade ferida dos homens e mulheres do nosso tempo mais próximos de Deus estamos. Porque “há um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres” que “são os destinatários privilegiados do Evangelho” (E.G. 48), precisamos de ser “contemplativos de Deus e contemplativos do rosto dorido e belo dos irmãos”[4].
Finalmente, unidos ao Santo Papa, viveremos o ano da vida consagrada, de a 30 de Novembro a 2 de Fevereiro de 2016. Também o Sínodo dos Bispos sobre os desafios pastorais da família no contexto da evangelização, em Outubro próximo, não nos passará despercebido.
[1] António Couto, Os desafios da Nova Evangelização, ed. Paulus, p. 48.
[2] Ibidem, p. 49
[3] Ibidem, p. 56
[4] Ibidem, p. 60
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