{"id":1607,"date":"2013-10-22T23:14:12","date_gmt":"2013-10-22T23:14:12","guid":{"rendered":"http:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/?p=1607"},"modified":"2013-10-22T23:14:50","modified_gmt":"2013-10-22T23:14:50","slug":"carta-do-papa-a-um-jornalista-nao-crente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/?p=1607","title":{"rendered":"Carta do Papa Francisco a um jornalista italiano n\u00e3o-crente"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><a href=\"http:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/papa-francesco.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-1608\" alt=\"papa-francesco\" src=\"http:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/papa-francesco.jpg\" width=\"394\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/papa-francesco.jpg 394w, https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/papa-francesco-236x300.jpg 236w\" sizes=\"(max-width: 394px) 100vw, 394px\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"center\"><b><i><span style=\"color: #663300; font-size: large;\">CARTA DO SANTO PADRE FRANCISCO<br \/>\nAO DIRECTOR DO JORNAL ITALIANO \u00abLA REPUBBLICA\u00bb<br \/>\nDOTT. EUGENIO SCALFARI<\/span><\/i><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\">Vaticano, 4 de Setembro de 2013<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Prezado Dr. Scalfari, <\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com viva cordialidade queria, atrav\u00e9s desta, procurar, ainda que apenas em linhas gerais, responder \u00e0 carta que houve por bem dirigir-me, nas p\u00e1ginas do jornal <i>La Repubblica <\/i> de 7 de Julho, com uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es pessoais, que haveria de desenvolver nas p\u00e1ginas do mesmo jornal do dia 7 de Agosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7o por lhe agradecer a solicitude que teve em ler a Enc\u00edclica <i> <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/francesco\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20130629_enciclica-lumen-fidei_po.html\">Lumen fidei<\/a><\/i>. De facto, esta \u2013 na inten\u00e7\u00e3o do meu amado Predecessor, Bento XVI, que a idealizou e em grande parte redigiu e de quem a herdei com imensa gratid\u00e3o \u2013 tem em vista n\u00e3o s\u00f3 confirmar na f\u00e9 em Jesus Cristo aqueles que nela j\u00e1 que se reconhecem, mas tamb\u00e9m suscitar um di\u00e1logo sincero e rigoroso com quem, como o senhor, se define \u00abum n\u00e3o-crente h\u00e1 muitos anos interessado e fascinado pela prega\u00e7\u00e3o de Jesus de Nazar\u00e9\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece-me, pois, muito positivo, tanto para n\u00f3s individualmente como para a sociedade em que vivemos, determo-nos a dialogar sobre uma realidade t\u00e3o importante como \u00e9 a f\u00e9, que faz apelo \u00e0 prega\u00e7\u00e3o e \u00e0 figura de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em particular, penso que h\u00e1 hoje duas circunst\u00e2ncias que tornam obrigat\u00f3rio e precioso este di\u00e1logo. Ali\u00e1s o mesmo constitui \u2013 como se sabe \u2013 um dos objectivos principais do Conc\u00edlio Vaticano II, querido por Jo\u00e3o XXIII, e do minist\u00e9rio dos Papas, que desde ent\u00e3o at\u00e9 aos nossos dias \u2013 cada um com a pr\u00f3pria sensibilidade e contribui\u00e7\u00e3o \u2013 t\u00eam caminhado pelo sulco tra\u00e7ado pelo referido Conc\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira circunst\u00e2ncia \u2013 como lembram as p\u00e1ginas iniciais da Enc\u00edclica \u2013 decorre do facto de, ao longo dos s\u00e9culos da modernidade, se ter assistido a um paradoxo: a f\u00e9 crist\u00e3, cuja novidade e incid\u00eancia na vida do homem foram expressas, desde o in\u00edcio, precisamente atrav\u00e9s do s\u00edmbolo da luz, tem sido muitas vezes rotulada como a obscuridade da supersti\u00e7\u00e3o, que se op\u00f5e \u00e0 luz da raz\u00e3o. E assim se chegou \u00e0 incomunicabilidade entre a Igreja e a cultura de inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3, por um lado, e a cultura moderna de tra\u00e7a iluminista, por outro. Chegou o tempo \u2013 o pr\u00f3prio Vaticano II inaugurou a esta\u00e7\u00e3o \u2013 de um di\u00e1logo aberto e sem preconceitos, que reabra as portas para um encontro s\u00e9rio e fecundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda circunst\u00e2ncia, para quem procura ser fiel ao dom de seguir Jesus na luz da f\u00e9, decorre do facto de este di\u00e1logo n\u00e3o constituir um acess\u00f3rio secund\u00e1rio da exist\u00eancia do crente; antes, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 sua express\u00e3o \u00edntima e indispens\u00e1vel. A este respeito, deixe-me citar-lhe uma declara\u00e7\u00e3o, na minha opini\u00e3o muito importante, da Enc\u00edclica: dado que a verdade testemunhada pela f\u00e9 \u00e9 a do amor \u2013 como l\u00e1 se sublinha \u2013 \u00abresulta claramente que a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 intransigente, mas cresce na conviv\u00eancia que respeita o outro. O crente n\u00e3o \u00e9 arrogante; pelo contr\u00e1rio, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la n\u00f3s, \u00e9 ela que nos abra\u00e7a e possui. Longe de nos endurecer, a seguran\u00e7a da f\u00e9 p\u00f5e-nos a caminho e torna poss\u00edvel o testemunho e o di\u00e1logo com todos\u00bb (n. 34). Este \u00e9 o esp\u00edrito que me anima nas palavras que lhe escrevo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9, para mim, nasceu do encontro com Jesus: um encontro pessoal, que tocou o meu cora\u00e7\u00e3o e deu uma direc\u00e7\u00e3o e um sentido novo \u00e0 minha exist\u00eancia; mas, ao mesmo tempo, um encontro que se tornou poss\u00edvel pela comunidade de f\u00e9 em que vivi e gra\u00e7as \u00e0 qual encontrei o acesso ao entendimento da Sagrada Escritura, \u00e0 vida nova que flui, como jorros de \u00e1gua, de Jesus atrav\u00e9s dos sacramentos, \u00e0 fraternidade com todos e ao servi\u00e7o dos pobres, verdadeira imagem do Senhor. Sem a Igreja \u2013 creia-me! \u2013, eu n\u00e3o teria podido encontrar Jesus, embora ciente de que este dom imenso da f\u00e9 est\u00e1 guardado em fr\u00e1geis vasos de barro que \u00e9 a nossa humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, \u00e9 precisamente a partir desta experi\u00eancia pessoal de f\u00e9 vivida na Igreja que me sinto \u00e0 vontade para perscrutar as suas perguntas e procurar, juntamente com o senhor, as estradas ao longo das quais possamos talvez come\u00e7ar a fazer um peda\u00e7o de caminho juntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desculpe, se n\u00e3o sigo passo a passo as argumenta\u00e7\u00f5es que prop\u00f4s no editorial de 7 de Julho. Parece-me mais frutuoso \u2013 ou pelo menos est\u00e1 mais de acordo com o meu g\u00e9nio \u2013 ir de certo modo ao cora\u00e7\u00e3o das suas considera\u00e7\u00f5es. N\u00e3o entro sequer na modalidade de exposi\u00e7\u00e3o que segue a Enc\u00edclica e na qual o senhor entrev\u00ea a falta duma sec\u00e7\u00e3o dedicada especificamente \u00e0 experi\u00eancia hist\u00f3rica de Jesus de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para come\u00e7ar, limito-me a observar que uma tal an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 secund\u00e1ria. Trata-se efectivamente \u2013 seguindo ali\u00e1s a l\u00f3gica que guia o desenrolar da Enc\u00edclica \u2013 de deter a aten\u00e7\u00e3o sobre o significado daquilo que Jesus disse e fez e assim, em \u00faltima inst\u00e2ncia, sobre aquilo que Jesus foi e \u00e9 para n\u00f3s. De facto, as Cartas de Paulo e o Evangelho de Jo\u00e3o, especialmente referidos na Enc\u00edclica, est\u00e3o constru\u00eddos sobre o s\u00f3lido fundamento do minist\u00e9rio messi\u00e2nico de Jesus de Nazar\u00e9, cuja resolu\u00e7\u00e3o chega ao seu auge na p\u00e1scoa de morte e ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, \u00e9 preciso confrontar-se com Jesus \u2013 diria \u2013 na dimens\u00e3o concreta e tosca da sua hist\u00f3ria, tal como nos \u00e9 narrada sobretudo pelo mais antigo dos Evangelhos, o de Marcos. A\u00ed se constata que o \u00abesc\u00e2ndalo\u00bb, que as palavras e a actividade de Jesus provocam ao seu redor, deriva da sua extraordin\u00e1ria \u00abautoridade\u00bb \u2013 termo este, atestado j\u00e1 desde o Evangelho de Marcos mas que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de traduzir em italiano. A palavra grega \u00e9 <i>exousia<\/i>, que literalmente se refere \u00e0quilo que \u00abprov\u00e9m do ser\u00bb que se \u00e9. Trata-se portanto, n\u00e3o de algo exterior ou for\u00e7ado, mas de algo que brota de dentro e se imp\u00f5e por si mesmo. Realmente Jesus impressiona, desinstala, reforma a partir \u2013 Ele mesmo o disse \u2013 da sua rela\u00e7\u00e3o com Deus, que trata familiarmente por <i>Abb\u00e1<\/i>, o qual Lhe confere esta \u00abautoridade\u00bb para que Ele a aplique a favor dos homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, Jesus prega \u00abcomo algu\u00e9m que tem autoridade\u00bb, cura, chama os disc\u00edpulos para O seguirem, perdoa&#8230; Todas estas coisas, no Antigo Testamento, s\u00e3o prerrogativa de Deus, e s\u00f3 Deus. A pergunta, que mais vezes reaparece no Evangelho de Marcos \u2013 \u00abQuem \u00e9 este que&#8230; ?\u00bb \u2013 e que diz respeito \u00e0 identidade de Jesus, nasce da constata\u00e7\u00e3o de uma autoridade diferente da do mundo, uma autoridade que n\u00e3o tem como finalidade exercer um poder sobre os outros mas servi-los, dar-lhes liberdade e plenitude de vida. E isto at\u00e9 ao ponto de arriscar a sua pr\u00f3pria vida, at\u00e9 experimentar a incompreens\u00e3o, a trai\u00e7\u00e3o, a rejei\u00e7\u00e3o, at\u00e9 ser condenado \u00e0 morte, at\u00e9 cair no estado de abandono na cruz. Mas Jesus permanece fiel a Deus at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 precisamente ent\u00e3o \u2013 como exclama o centuri\u00e3o romano ao p\u00e9 da cruz, no Evangelho de Marcos \u2013 que, paradoxalmente, Jesus Se mostra como o Filho de Deus! Filho de um Deus que \u00e9 amor e que quer, com todo o seu ser, que o homem, todo o homem, se descubra e viva, tamb\u00e9m ele, como seu verdadeiro filho. Para a f\u00e9 crist\u00e3, isto \u00e9 certificado pelo facto de que Jesus ressuscitou: n\u00e3o para triunfar sobre aqueles que O rejeitaram, mas para atestar que o amor de Deus \u00e9 mais forte do que a morte, o perd\u00e3o de Deus \u00e9 mais forte do que todo o pecado, e que vale a pena gastar a pr\u00f3pria vida, at\u00e9 ao fim, para testemunhar este dom imenso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 crist\u00e3 acredita nisto: Jesus \u00e9 o Filho de Deus que veio dar a sua vida para abrir a todos o caminho do amor. Por isso, ilustre Dr. Scalfari, tem raz\u00e3o quando v\u00ea, na encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus, o perno da f\u00e9 crist\u00e3. J\u00e1 Tertuliano escrevia: \u00ab<i>caro cardo salutis<\/i> \u2013 a carne [de Cristo] \u00e9 o perno da salva\u00e7\u00e3o\u00bb. \u00c9 que a encarna\u00e7\u00e3o, ou seja, o facto de o Filho de Deus ter tomado a nossa carne e compartilhado alegrias e sofrimentos, vit\u00f3rias e derrotas da nossa exist\u00eancia at\u00e9 ao grito da cruz, vivendo tudo no amor e na fidelidade ao <i>Abb\u00e1<\/i>, testemunha o amor incr\u00edvel que Deus tem por cada homem, o valor inestim\u00e1vel que lhe reconhece. Por isso, cada um de n\u00f3s \u00e9 chamado a assumir o olhar e a op\u00e7\u00e3o de amor de Jesus, a entrar no seu modo de ser, pensar e agir. Esta \u00e9 a f\u00e9, com todas as suas express\u00f5es que s\u00e3o descritas concretamente na Enc\u00edclica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\">* * *<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, no mesmo editorial de 7 de Julho, o senhor pergunta-me como entender esta originalidade da f\u00e9 crist\u00e3, assente precisamente na encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus, face a outras cren\u00e7as que por sua vez gravitam em torno da transcend\u00eancia absoluta de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu diria que a sua originalidade est\u00e1 precisamente no facto de que a f\u00e9 nos faz participar, em Jesus, na rela\u00e7\u00e3o que Ele mesmo tem com Deus que \u00e9 <i> Abb\u00e1<\/i> e, nesta luz, participar na rela\u00e7\u00e3o que Ele tem com todos os outros homens, incluindo os inimigos, sob o signo do amor. Por outras palavras, a filia\u00e7\u00e3o de Jesus, como no-la apresenta a f\u00e9 crist\u00e3, n\u00e3o \u00e9 revelada para marcar uma separa\u00e7\u00e3o intranspon\u00edvel entre Jesus e todos os outros, mas para nos dizer que, n\u2019Ele, todos somos chamados a ser filhos do \u00fanico Pai e irm\u00e3os entre n\u00f3s. A singularidade de Jesus visa a comunica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a exclus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro, daqui segue-se tamb\u00e9m \u2013 e n\u00e3o \u00e9 pouco \u2013 a distin\u00e7\u00e3o entre a esfera religiosa e a esfera pol\u00edtica, que est\u00e1 sancionada no \u00abdar a Deus o que \u00e9 de Deus e a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar&#8221;, afirmada com nitidez por Jesus e sobre a qual, laboriosamente, se construiu a hist\u00f3ria do Ocidente. De facto, a Igreja \u00e9 chamada a semear o fermento e o sal do Evangelho, ou seja, o amor e a miseric\u00f3rdia de Deus que envolvem todos os homens, apontando para a meta escatol\u00f3gica e definitiva do nosso destino, enquanto \u00e0 sociedade civil e pol\u00edtica cabe a \u00e1rdua tarefa de articular e encarnar na justi\u00e7a e na solidariedade, no direito e na paz, uma vida cada vez mais humana. Para quem vive a f\u00e9 crist\u00e3, isto n\u00e3o significa fuga do mundo nem vontade de qualquer hegemonia, mas servi\u00e7o ao homem, ao homem todo e a todos os homens, a partir das periferias da hist\u00f3ria e mantendo desperto o sentido da esperan\u00e7a que impele a realizar o bem em todas as circunst\u00e2ncias e com o olhar sempre fixo no al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conclus\u00e3o de seu primeiro artigo, o senhor pergunta-me ainda o que dizer aos irm\u00e3os judeus sobre a promessa que Deus lhes fez: ter\u00e1 ela ca\u00eddo completamente no vazio? Trata-se de uma quest\u00e3o \u2013 pode crer \u2013 que nos interpela radicalmente como crist\u00e3os, porque, com a ajuda de Deus, sobretudo a partir do Conc\u00edlio Vaticano II redescobrimos que o povo judeu continua a ser, para n\u00f3s, a raiz santa donde germinou Jesus. Na amizade que cultivei durante todos estes anos com os irm\u00e3os judeus, na Argentina, tamb\u00e9m eu muitas vezes questionei a Deus na ora\u00e7\u00e3o, especialmente quando a mente se detinha na recorda\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia terr\u00edvel do Holocausto. O que lhe posso dizer \u2013 com palavras do ap\u00f3stolo Paulo \u2013 \u00e9 que nunca esmoreceu a fidelidade de Deus \u00e0 alian\u00e7a estabelecida com Israel e que, atrav\u00e9s das terr\u00edveis prova\u00e7\u00f5es destes s\u00e9culos, os judeus conservaram a sua f\u00e9 em Deus. E nunca lhes agradeceremos suficientemente por isso, n\u00e3o s\u00f3 como Igreja, mas tamb\u00e9m como humanidade. Al\u00e9m disso, perseverando eles precisamente na sua f\u00e9 no Deus da alian\u00e7a, lembram a todos, inclusive a n\u00f3s crist\u00e3os, o facto de que permanecemos, como peregrinos, \u00e0 espera do regresso do Senhor e, por conseguinte, devemos manter-nos sempre abertos a Ele, sem nos fecharmos jamais no que j\u00e1 conseguimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim chego \u00e0s tr\u00eas perguntas que me coloca no artigo de 7 de Agosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece-me que, nas duas primeiras, aquilo que lhe est\u00e1 a peito \u00e9 entender a atitude da Igreja com quem n\u00e3o partilha a f\u00e9 em Jesus. Antes de mais nada, pergunta-me se o Deus dos crist\u00e3os perdoa a quem n\u00e3o acredita nem procura acreditar. Admitido como dado fundamental que a miseric\u00f3rdia de Deus n\u00e3o tem limites quando algu\u00e9m se Lhe dirige com cora\u00e7\u00e3o sincero e contrito, para quem n\u00e3o cr\u00ea em Deus a quest\u00e3o est\u00e1 em obedecer \u00e0 pr\u00f3pria consci\u00eancia: acontece o pecado, mesmo para aqueles que n\u00e3o t\u00eam f\u00e9, quando se vai contra a consci\u00eancia. De facto, ouvir e obedecer a esta significa decidir-se diante do que \u00e9 percebido como bem ou como mal; e \u00e9 sobre esta decis\u00e3o que se joga a bondade ou a maldade das nossas ac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, o senhor pergunta-me se \u00e9 um erro ou um pecado pensar que n\u00e3o existe nada absoluto e, consequentemente, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 uma verdade absoluta mas apenas uma s\u00e9rie de verdades relativas e subjectivas. Para come\u00e7ar, eu n\u00e3o falaria \u2013 nem mesmo para aqueles que acreditam \u2013 de verdade \u00ababsoluta\u00bb dando ao termo absoluto o sentido daquilo que est\u00e1 desligado, que carece de qualquer rela\u00e7\u00e3o, porque a verdade, segundo a f\u00e9 crist\u00e3, \u00e9 o amor de Deus por n\u00f3s em Jesus Cristo. Portanto, a verdade \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o! E tanto \u00e9 assim, que cada um de n\u00f3s capta a verdade e exprime-a a partir de si mesmo: da sua hist\u00f3ria e cultura, da situa\u00e7\u00e3o em que vive, etc. Isto n\u00e3o quer dizer que a verdade seja vari\u00e1vel e subjectiva. Longe disso! Significa, sim, que ela se nos d\u00e1 sempre e s\u00f3 como um caminho e uma vida. Porventura n\u00e3o disse o pr\u00f3prio Jesus: \u00abEu sou o caminho, a verdade e a vida\u00bb? Por outras palavras, sendo a verdade, em \u00faltima an\u00e1lise, uma s\u00f3 coisa com o amor, requer a humildade e a abertura para ser buscada, acolhida e expressa. Concluindo, \u00e9 preciso entendermo-nos bem sobre os termos e, para sair dos estrangulamentos duma contraposi\u00e7\u00e3o&#8230; absoluta, talvez seja necess\u00e1rio reformular em profundidade a quest\u00e3o. Penso que isto seja hoje absolutamente necess\u00e1rio para se estabelecer aquele di\u00e1logo sereno e construtivo que eu almejava ao in\u00edcio deste meu texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00faltima quest\u00e3o, pergunta-me se, com o desaparecimento do homem da terra, desaparecer\u00e1 tamb\u00e9m o pensamento capaz de pensar Deus. \u00c9 certo que a grandeza do homem est\u00e1 em ser capaz de pensar Deus, isto \u00e9, em poder viver uma rela\u00e7\u00e3o consciente e respons\u00e1vel com Ele. Mas, a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 entre duas realidades. Deus \u2013 tal \u00e9 o meu pensamento e a minha experi\u00eancia, mas s\u00e3o muitos os que, ontem e hoje, os compartilham! &#8211; n\u00e3o \u00e9 uma ideia, ainda que muito elevada, fruto do pensamento do homem; Deus \u00e9 realidade com o \u00abR\u00bb mai\u00fasculo. Jesus no-Lo revela \u2013 e vive em rela\u00e7\u00e3o com Ele \u2013 como um Pai de bondade e miseric\u00f3rdia infinitas. Por isso, Deus n\u00e3o depende do nosso pensamento. Ali\u00e1s, mesmo quando acabar a vida do homem sobre a terra \u2013 e, segundo a f\u00e9 crist\u00e3, este mundo tal como o conhecemos est\u00e1 destinado em todo o caso a perecer \u2013, n\u00e3o deixar\u00e1 de existir o homem; e com ele, de um modo que ignoramos, o pr\u00f3prio universo tamb\u00e9m n\u00e3o. A Escritura fala de \u00abum novo c\u00e9u e uma nova terra\u00bb e afirma que, no final \u2013 num onde e quando que nos ultrapassam mas para os quais, na f\u00e9, tendemos com desejo e expectativa \u2013 Deus ser\u00e1 \u00abtudo em todos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim concluo, ilustre Dr. Scalfari, estas minhas reflex\u00f5es, suscitadas por tudo o que me quis comunicar e perguntar. Receba-as como uma tentativa de resposta, provis\u00f3ria mas sincera e confiante, ao convite que vislumbrei para fazermos um peda\u00e7o de estrada juntos. A Igreja \u2013 creia-me! \u2013 apesar de todas as lentid\u00f5es, infidelidades, erros e pecados que possa ter cometido e pode ainda cometer nos que a comp\u00f5em, n\u00e3o tem outro sentido e finalidade que n\u00e3o seja viver e testemunhar Jesus: Ele, que foi enviado pelo <i> Abb\u00e1<\/i> para \u00abanunciar a Boa-Nova aos pobres, proclamar a liberta\u00e7\u00e3o aos cativos e, aos cegos, a recupera\u00e7\u00e3o da vista, mandar em liberdade os oprimidos, proclamar um ano favor\u00e1vel da parte do Senhor\u00bb (<i>Lc<\/i> 4,18-19 ).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com fraterna amizade,<\/p>\n<p align=\"center\"><b> Franciscus PP. <\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARTA DO SANTO PADRE FRANCISCO AO DIRECTOR DO JORNAL ITALIANO \u00abLA REPUBBLICA\u00bb DOTT. EUGENIO SCALFARI &nbsp; Vaticano, 4 de Setembro de 2013 Prezado Dr. Scalfari, Com viva cordialidade queria, atrav\u00e9s desta, procurar, ainda que apenas em linhas gerais, responder \u00e0 carta que houve por bem dirigir-me, nas p\u00e1ginas do jornal La Repubblica de 7 de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1609,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1607"}],"collection":[{"href":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1607"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1607\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1612,"href":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1607\/revisions\/1612"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1609"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1607"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1607"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiagloria.org\/v2\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}