Regressar à Comunidade…

Apesar de anunciada, a morte de Jesus destroçou o coração dos discípulos e de quantos os acompanharam mais de perto nestes últimos anos de vida. Agora, sem protecção nem liderança, os discípulos dispersam-se. Uns refugiam-se em casa, com medo dos judeus, outros voltam para a terra, desiludidos e tristes. De repente tudo se desmorona. Entretanto, o sepulcro onde fora depositado o Crucificado foi encontrado inexplicavelmente vazio. E começa o desassossego! Ninguém viu nem registou o acontecimento daquela madrugada florida, que as mulheres depressa fazem chegar aos ouvidos dos discípulos; porém, a ansiedade, o medo, a vergonha… levam a melhor à surpresa da Boa Nova. É neste contexto que Jesus vai aparecendo naquele “primeiro dia da semana” para vencer a confusão e a perplexidade de uns, o sentimento de culpa e a incredulidade de outros. Mas aos dois, que naquela tarde de domingo já estavam de regresso a Emaús, desiludidos e tristes, se junta no caminho um terceiro, que, com rigor e pormenor, lhes explica as Escrituras, referentes a Jesus de Nazaré. O coração já lhes ardia, mas a surpresa estava reservada para mais tarde. Convidado a entrar e passar a noite, o companheiro desconhecido, que entretanto se torna próximo e catequista, uma vez à mesa, “tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho”. Só então O reconheceram. E Ele “afastou-se do meio deles”. O coração, que no caminho já ardia pela explicação das Escrituras, não podia agora conter a alegria e a necessidade de partilhar com os outros discípulos o encontro com o Ressuscitado. E voltam para Jerusalém. Agora já não há dúvidas, medo, tristeza, noite ou cansaço, para proclamar que Jesus, Morto e Sepultado, está Vivo. E Caminha connosco, mesmo em momentos de grande crise. P. Fausto in Diálogo 1696 (III Domingo da Páscoa – Ano...

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Serás feliz !

  Ontem era o medo dos judeus que obrigava os discípulos de Jesus ao confinamento, hoje é o coronavirus que nos mantém há um mês confinados às paredes das nossas casas e obrigados a celebrações na Igreja, sem a participação livre dos fiéis. Hoje, no 2° Domingo de Páscoa, como então, o Ressuscitado diz: “A paz esteja convosco”. E para não haver lugar a dúvidas, “mostrou-lhes as mãos e o lado”. Todos O reconheceram, excepto Tomé, entretanto ausente, para quem estava reservado, oito dias depois, um encontro especial. No oitavo dia, continuando de portas fechadas, o grupo dos discípulos, agora completo, recebe de novo a visita do Ressuscitado que, após a saudação pascal, se dirige com respeito e compreensão a Tomé e o convida a olhar e tocar os sinais ainda frescos das feridas da Paixão e Crucificação: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos… e não sejas incrédulo mas crente”. Ao que Tomé, em êxtase, num misto de espanto e contrição, responde: “Meu Senhor e meu Deus.” Na mão trémula de Tomé ao tocar as chagas do Ressuscitado, estão todas as nossas mãos, as mãos de quantos, entre dúvidas e perplexidades, se escandalizam do silêncio de Deus, diante do cortejo de dores que aflige a humanidade. Onde estás ó Deus, quando o homem chora? E Deus responde baixinho: Sempre contigo. Nunca desistirei de ti, porque foi na cruz que foste redimido por Mim. Olha agora em teu redor, estende a tua mão às múltiplas feridas… para que sejas bálsamo, consolação e esperança para aqueles que mais sofrem. Se fizeres isto, és meu discípulo e serás feliz. P. Fausto in Diálogo 1695 (II Domingo da Páscoa (Divina Misericórida) – Ano...

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“Não tenhais medo”

  Mais de 20 séculos passados, estas palavras dirigidas pelo Anjo a duas mulheres, junto ao sepulcro, “no raiar do primeiro dia da semana”, ecoam hoje, com igual vigor, em todos os lugares da terra. Então era ainda noite, como noite são os meses em que a humanidade vive suspensa duma pandemia. Hoje é o COVID-19. Amanhã que será? Continuamos este ano a celebrar a Eucaristia na Igreja de portas fechadas, não haverá foguetes, nem casas com juncada à porta para “receber o Compasso”, nem mesa recheada de amêndoas e folares a convidar ao convívio de familiares e amigos… Mas temos Páscoa, porque a Páscoa é outra coisa. Neste pranto imenso em que está mergulhado o mundo, bem precisamos do oxigénio da fé, bem precisamos de respirar o ar fresco e perfumado da manhã daquele “primeiro dia da semana”, bem precisamos de acolher as palavras que o Anjo dirigiu às mulheres amedrontadas, para não deixarmos de ser intrépidos defensores da vida, testemunhas da alegria e portadores de esperança. Esta Páscoa é diferente das outras, mas o que celebramos na Páscoa mantém-se actual, pois é a garantia de que a última palavra não será da morte, mas da Vida e do Amor.   Pe. Fausto in Diálogo 1694 (Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor – Ano...

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Uma Semana Diferente !

Com o Domingo de Ramos começa a Semana Santa. Para os cristãos é a semana central da história e da fé, este ano ainda Maior porque mais sofrida em virtude da pandemia do Covid-19. Uma semana de abstinências que a tornam em tudo diferente das anteriores. Uma semana em que veremos, em jeito de filme já nosso conhecido mas sempre actual, apupos e vexames, juras de fidelidade caldeadas com atitudes de medo e abandono, falsidades, solidão… e morte, que fazem Jesus experimentar, no alto da cruz, uma estranha ausência de Deus: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”. Mas Ele sabe que silêncio de Deus não é ausência, nem cansaço, nem desespero… mas presença silenciosa como a de uma mãe que, sem arredar pé, vela, com amor e ternura, à cabeceira do filho moribundo. Vamos viver esta semana, este ano de forma bem diferente, ainda que às vezes possamos sentir um nó na garganta, estranhando o silêncio de Deus, face a tanto sofrimento que percorre o mundo de lés a lés. A resposta a tudo isto tê-la-emos no Domingo, com o sepulcro vazio. Até lá vivamos estes dias, resguardados o mais possível, sem nunca esquecermos o dever de oração agradecida pela generosidade heróica e criativa de tantas pessoas que, por este mundo fora, combatem a pandemia que muito nos aflige. Uma Santa Semana Santa. P. Fausto in Diálogo nº 1693 (Domingo de Ramos da Paixão do Senhor – Ano...

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Na borda do poço…

    O encontro de Jesus neste domingo não é com fariseus, saduceus ou doutores da lei, homens instruídos e influentes, mas com uma mulher, samaritana, sem grandes letras, e de vida sombria e castigada. Não era de doutrina o assunto de conversa, mas simplesmente de água, de que ambos tanto necessitavam. No caminho longo e penoso para Jerusalém ficava o Poço de Jacob, perto de Sicar, em pleno coração da Samaria, verdadeira graça, aproveitada pelos passantes para matar a sede. Assim aconteceu hoje com Jesus que, sentado na borda do poço, aguardava pacientemente a chegada de alguém com um balde, para se poder saciar. Era meio dia, o sol queimava e nada previa o encontro de Jesus com uma samaritana. O encontro foi admirável porque, a partir dum simples pedido de água para beber, Jesus fez jorrar no coração daquela mulher, ressequido pela vida, uma tal sede de “Água Viva”, que a tornou apóstola junto dos seus e animadora da primeira comunidade de “adoradores do Pai”, em terra estrangeira. Verdadeiro mestre em humanidade, Jesus oferece-nos neste encontro o mais completo e actual manual de procedimentos, capaz de tornar fraterna e feliz, apesar das diferenças, a nossa relação com os outros. P. Fausto in Diálogo 1692 (III Domingo da Quaresma – Ano...

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“Escutai-O”

No Domingo passado vimos Jesus só, e com fome, a ser tentado pelo diabo, em pleno deserto; hoje vêmo-LO no alto do monte, resplandecente e acompanhado por Moisés e Elias, com um rosto de tal modo deslumbrante, que levou Pedro a desabafar: “Senhor, como é bom estarmos aqui”. É o mesmo Jesus em ambas as situações. Também temos momentos de tudo, de euforia e tristeza, de solidão e companhias, de aridez e fervor, de medos e tentações, mas nada disto, porém, é estranho a Jesus, porque a nada disto se quis dispensar, para nos ensinar a lidar mesmo com os momentos mais delicados da vida. A Quaresma mostra-se, então, para todos, um tempo privilegiado de conversão, de transfiguração, processo lento, nem sempre ascendente e linear, só possível na medida em que aprendemos com Jesus a Escutar a voz de Deus e obedecermos, como Ele, à Sua vontade. É isto mesmo que nos diz hoje a voz vinda do Céu: “Este é o meu Filho muito amado. Escutai-O”. Não se trata de um convite. É uma ordem, porque, só escutando “o Filho muito amado”, fazemos nosso o seu caminho, sem medos, apesar das dificuldades no processo de transfiguração permanente a que Deus nos desafia todos os dias, mas especialmente em cada Quaresma. P. Fausto in Diálogo 1691 (II Domingo da Quaresma – Ano...

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De novo a Quaresma !

Depois do carnaval entramos na Quaresma! Para muitos cristãos a Quaresma está apenas ligada ao jejum e imposição das cinzas, logo no primeiro dia, e à abstinência de carnes às sextas-feiras. Alguns, cada vez em menor número, também a ligam à obrigatoriedade de confissão anual. Mas a Quaresma é mais que isso. Não são apenas 40 dias que precedem a Páscoa , alguns de “dieta obrigatória”, mas dias privilegiados, que nos permitem arrumar o coração e aprender com Jesus a escolher sempre Deus e a fazer o que Ele quer. O Profeta Joel fala mesmo em tempo para rasgar o coração e não os vestidos… E a Igreja, Mãe e Mestra, continua a dizer-nos que a Oração, o Jejum e a Esmola, parecendo formas do passado, continuam a ser sólido tripé de um processo permanente de renovação pessoal e familiar, indispensável para prepararmos a Páscoa do Senhor. E não temos tempo litúrgico mais propício que a Quaresma. Vamos, assim, aprender as lições do Mestre que, no deserto, nos desafia a uma maior intimidade com Deus, a viver o dia a dia com moderação e simplicidade, sem excessos de qualquer natureza, e a descobrir nas Obras de Misericórdia as formas mais criativas e concretas para o cumprimento do dever da esmola. P. Fausto in Diálogo 1690 (Domingo I da Quaresma – Ano...

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Atenção aos verbos !

  De tão extensa e complexa, a matéria do “Sermão da Montanha” é faseada pelo Mestre, para que todos, sem desanimarem, a possam assimilar. É um processo permanente de renovação de coração para conjugar alguns verbos, como amar, dar, oferecer, emprestar, que, embora no imperativo, não são ordens para cumprir, mas portas generosas que indicam os caminhos capazes de quebrar qualquer espiral de violência. Quando Jesus diz para não resistirmos ao homem mau ou oferecermos a esquerda quando nos batem na direita ou amarmos os nossos inimigos e orarmos por aqueles que nos perseguem… não quer fazer de nós discípulos sem personalidade e apoucados ou pessoas felizes por sermos humilhados e espezinhados, nada disso, mas tão só lembar-nos os mecanismos mais eficazes em desactivar toda a espiral de vingança entre pessoas, nações e o próprio cosmos. Porque a violência produz sempre mais violência. Se então nos contentarmos em conjugar o verbo retribuir, não passamos de pagãos, apesar de muito religiosos. E o mesmo se passa, se não ajudarmos os filhos e os netos a descobrirem que no verbo amar está o segredo da felicidade, e o princípio estruturante de uma sociedade humana e feliz que todos desejamos, e que temos obrigação de construir, por sermos discípulos de Jesus Cristo. P. Fausto in Diálogo 1689 (VII Domingo do Tempo Comum – Ano A)...

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Palavras sem Tempo !

  Se atendermos à linguagem, parece que Jesus se levantou hoje de mau humor. A sua proposta é clara e radical. Não há meios termos ou respostas parciais em matéria obrigatória: “ouvistes o que foi dito… Eu, porém, digo-vos…” E não vale queixar-se ao Mestre que o sumário é grande, porque depressa nos responde que não dispensa nada da matéria anterior, ao dizer-nos como então: “se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus”. É o próprio Mestre que diz que veio para aperfeiçoar quanto estava escrito, ao libertar a Lei dos abusos e interpretações farisaicas e insistir no primado da Caridade para com Deus e para com o próximo. A esta luz é santo não o que se contenta meramente em cumprir a lei, mas quem faz o que deve com amor. No Evangelho de hoje parecem-nos duras e carregadas as palavras de Jesus, mas, por tão humanas, estão ao alcance de todos para sermos felizes, porque “quem quer o que Deus quer tem tudo quanto quer”. É essa felicidade que Jesus propõe em palavras que, parecendo-nos exageradas e radicais, não deixam de ser palavras de Vida Eterna. P. Fausto in Diálogo 1688 (VI Domingo do Tempo Comum – Ano...

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“Vós sois…!”

  O Evangelho deste domingo contém afirmações surpreendentes a que, convenhamos, ainda não estamos habituados: “Vós sois o sal da terra… vós sois a luz do mundo”. Jesus diz “Vós sois…” e não vós deveis ser… ou esforçai-vos por ser… São afirmações e não elogios, que responsabilizam particularmente os baptizados, porque, continua o texto, “se o sal perder a força, com que há-de salgar-se?… Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens”. E quanto a sermos luz? De facto, somos luminosos, os mais luminosos entre todas as criaturas, mas a nossa luz não é própria, porque a recebemos de Deus, e podemos, sem perder a nossa dignidade de criaturas e filhos, deixar de iluminar os nossos ambientes de vida. Importa que cada um de nós, responsavelmente, saiba descobrir como há-de ser luz, pois, se a maneira como vivemos não orienta para o bem e para Deus, arriscamo-nos a ser como o sal estragado ou a luz debaixo do alqueire, porque nos tornamos insípidos, insignificantes e inúteis. P. Fausto in Diálogo 1687 (V Domingo do Tempo Comum – Ano...

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